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[Museum] João Vaz - o depoimento de Carlos Fabião

To :   "museum" <museum@ci.uc.pt>, "archport" <archport@ci.uc.pt>, "histport" <histport@ml.ci.uc.pt>
Subject :   [Museum] João Vaz - o depoimento de Carlos Fabião
From :   José d'Encarnação <jde@fl.uc.pt>
Date :   Thu, 25 Jun 2015 22:10:23 +0100

De: CARLOS FABIÃO [mailto:cfabiao@campus.ul.pt]
Enviada em: quinta-feira, 25 de Junho de 2015 20:02
Para: José d'Encarnação
Assunto: Re: [Archport] João Vaz - o depoimento da Doutora Maria José

 

Inês Vaz:

Foi com enorme consternação e estupefacção que recebi no Alentejo a notícia da inesperada morte do Inês Vaz.

O nosso relacionamento remontava aos tempos dos inesquecíveis Colóquios de Arqueologia de Viseu, no século passado. Desde então, nasceu e ganhou corpo uma mútua relação de apreço e estima, não lhe chamaria amizade, porque a distância não ajudou.

O Inês Vaz era um homem notável. Muito activo, fazia acontecer coisas, sempre com aquela discreta e genuína modéstia que era a sua.

Chegámos a trabalhar juntos numa dessas comissões criadas para “reformar a Arqueologia portuguesa”, para que fomos eleitos num plenário de arqueólogos, na AAP. Como é do conhecimento geral, não reformámos coisa nenhuma, mas esforçámo-nos, minimamente, mais o Inês Vaz do que eu (diga-se). Por essa altura, costumávamos brincar dizendo que eu era o representante do centralismo lisboeta e ele o do “país real” (um chavão que tinha algum sentido à época). O Inês Vaz tinha um fino sentido da ironia e mesmo da auto-ironia (como acontece com os homens de bem).

Gostávamos de nos encontrar, aqui e ali, um pouco ao acaso e eu apreciava imenso aquele seu (dele) jeito, feito de amável bonomia, bom humor e alegria de viver. No nosso meio muito dado à maledicência, às pequenas vaidades e pequenos rancores, o Inês Vaz era excepção.

Em dada altura da sua vida, empenhou-se na actividade política partidária, pugnando para mudar a sua terra. Não a mudou, mas também não mudou ele. Foi Governador Civil, com a mesma atitude competente, séria e contida de quem nunca precisou (ou quis) pôr-se “em bicos dos pés”. Por essa altura, estive um par de vezes com o Inês Vaz, em actos onde se encontrava em representação oficial e pude verificar com gosto que o Senhor Governador Civil de Viseu era apenas o bom Inês Vaz de sempre.

Regressou às lides científicas e, de novo, estudou, publicou e fez acontecer coisas, realizando em Mangualde a Mesa Redonda sobre a Lusitânia Romana (creio que foi a última vez que estivemos juntos, depois, só em comunicação via e.mail e similares).

Para definir o Inês Vaz em poucas palavras, diria que foi um Homem Bom (com toda a solene grandeza que o conceito implica). E quando morre um Homem Bom é sempre uma tragédia. Para o próprio, naturalmente, por toda a vida que deixou por viver, para os seus mais próximos, pela terrível sensação de perda que experimentam, mas também para os demais. É sempre uma tragédia quando morre um Homem Bom…

Carlos Fabião 




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