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[Museum] RE Museu Didáctico: uma relevante memória lembrada pelo Professor José d'Encarnação.

To :   <museum@ci.uc.pt>
Subject :   [Museum] RE Museu Didáctico: uma relevante memória lembrada pelo Professor José d'Encarnação.
From :   PedroManuelCardoso <mty@mail.tmn.pt>
Date :   Fri, 10 Jul 2015 14:41:23 +0100

 

                Permita-se-me dizer que foi muito relevante e oportuna a referência do Professor José d’Encarnação ao “Museu Didáctico”. Relevante por vários motivos impossíveis de abordar exaustivamente aqui no espaço da “Lista Museum”.

                Relevante, porque mostra que a profusão de novas tecnologias e de design’s expográficos não significa automaticamente um avanço na função didáctica nem no processo de compreensão do Património proporcionado pelos atuais museus (palácios, monumentos, circuitos, lugares de memória, centros de interpretação, etc.). Nem sequer um avanço na problematização teórica e metodológica que tinha sido feita há mais de trinta anos sobre a “função educativa dos museus”. E este facto é uma lição que deveria conduzir a uma revalorização e redescoberta dos textos e documentos sobre museologia e património publicados no «Pós-2.ª Guerra», ou após a criação da ONU/UNESCO (que referimos por exemplo em: Pedro Manuel-Cardoso, 2010, “O Património perante o Desenvolvimento”).

                Relevante também, porque mostra que a profusão de bibliografia e o acesso fácil e ubíquo, à velocidade de um simples teclar, em vez de trazer clarividência e aprofundamento das questões essenciais, relativas à compreensão e comunicação do Património, trouxe (com raríssimas excepções) uma perda de referências básicas e uma superficialidade analítica que se repercute nas atuais expografias. O design, as práticas avançadas de arquitetura, e a ostentação de novas tecnologias, esconderam essa inércia hermenêutica que hoje se observa na maioria dos museus e noutras instituições responsáveis pelo Património.

                A recuperação da memória de projetos como o Museu Didáctico do Instituto de Arqueologia da Faculdade de Letras de Coimbra preenche essa lacuna; e constitui uma oportunidade para as gerações mais jovens confrontarem as suas narrativas e os seus contributos com o que os antecedeu. Se se fizesse essa comparação sem paternalismos, nem preconceitos geracionais, nem outras motivações a priori, mas outrossim guiada pelo espírito crítico e pela metodologia científica, o resultado seria recompensador, porque permitiria criar projetos melhores do que os anteriores e os atuais.

                Noutro plano da questão, o Estado e as Políticas Públicas de Património deveriam investir parte da sua ação e recursos nesta ajuda (em ferramentas que desenvolvessem as metodologias educativas e hermenêuticas de interpretação e compreensão do Património).

                Deveria mudar o foco das suas prioridades (como por exemplo aquelas que infelizmente vimos escritas em recentes «programas de governo»). Não cabe ao Estado substituir-se à iniciativa dos cidadãos e da sociedade. Essa é a causa estrutural do acumular sem fim de Dívida.

                Sobretudo num momento em que as «REDES», e a «normalização da ação e financiamento dos museus/património através de PROGRAMAS, formatados de modo universal por um escasso número de peritos, e legitimados por Prémios dados exatamente por eles», atingiram uma uniformização excessiva e improdutiva, que adultera até os seus propósitos iniciais. As «Redes» foram, ao fim destes anos (vê-se agora com uma nitidez cristalina), uma forma de controlar e destruir a liberdade e a criatividade que a verdadeira rede (WWW) tinha permitido nos «anos-90» do século passado. A redução do número de museus e coleções «oficialmente permitidos» foi um desígnio que não acrescentou nada à valorização cultural e patrimonial de Portugal. E que impediu o contributo genuíno de cada museu e de cada projeto museológico, exatamente por se terem que subordinar a essas normas ditadas pelas «Redes Oficiais» (inclusive impondo-se através da força de decretos e outros regulamentos legais), que ao arrepio da realidade concreta, impunha uma sustentabilidade de muitos euros, que quase ninguém podia pagar. Hoje, aliás, essas «Redes Oficiais» são vistas cada vez mais como um mecanismo de coerção, de redução do acesso ao financiamento público, e de destruição da Diversidade patrimonial. Concretamente, ao imporem uma normalização estatizante e vertical, constituíram-se num factor: i) impeditivo da diferenciação dos projetos/programas museológicos; ii) cerceador da variedade de soluções de gestão possíveis de serem implementadas em adequação a cada contexto socioeconómico e cultural; iii) facilitador de projetos megalómanos e faraónicos à custa do erário público e para benefício económico de uma minoria, como a realidade dos factos tem confirmado.

                Enfim, a referência ao “Museu Didáctico” foi relevante porque são lições do passado como essas que servem ao presente para construir um futuro melhor.

Pedro Manuel-Cardoso

               

 

 





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