Na passada terça-feira, em Castelo de Vide, num seminário sobre «Interdisciplinaridade», a convite de uma Amiga, reunimos alguns amigos, juntamente com todos os heterónimos de cada um. Nesse encontro continuámos a considerar como premissa de partida uma concepção de «interdisciplinaridade» que busca uma linguagem transversal capaz de comunicar as descobertas e os avanços do conhecimento que ocorrem entre as ciências exatas, naturais, sociais e as humanidades. Um objetivo de trabalho que as palavras de Albert Ogien resumem bem: “Ligar / de maneira plausível / as descrições dos mecanismos bioquímicos ou tecnológicos / aos processos de atribuição do significado” (A. Ogiem, 2011). Em Castelo de Vide porque num texto de 2010, a propósito do processo de patrimonização (i.e., de como um objeto se transforma em património) dei o exemplo da rocha metamórfica Nuvvuagittuq encontrada na Baía de Hudson no Canadá. Ora recentemente, depois dos dados da Curiosity disponibilizados pela NASA, verifica-se que há semelhanças entre as rochas de Marte e de Castelo de Vide (há investigadores da NASA em Castelo de Vide a recolher amostras), a acrescentar ao que já se sabia da deriva tectónica, de que Castelo de Vide veio dessa região, agora longínqua e separada pelo oceano atlântico, mas que é importante para estudar o início da crusta terrestre. Portanto, um sítio excelente para elucidar essas ligações impronunciáveis entre a «física e a química da materialidade» e o «esforço humano de compreender, e pronunciar através das palavras, o Mundo e a Natureza». Nessa reunião falámos do Agir Humano. Do modo como poderíamos construir uma terminologia que fizesse essa tal «interdisciplinaridade» acerca dele. Mas também do modo como se poderiam musealizar e patrimonizar as várias modalidades do agir humano (tomando em consideração os tipos que a Antropologia e a Teoria da Performance Humana referem). Utilizámos vários exemplos práticos (arte e performance, dança, dramaturgia, teatro, ciência, comportamentos físico-motores nas patologias do foro psiquiátrico, automatismo genéticos que guiam a motricidade e a biomecânica, «play, jogo e desporto», as “técnicas de corpo” consideradas por M. Mauss, Huizinga, R. Calois, P. Parlebas, G. Vigarelo e R. Schechner). O resultado que vale a pena aqui partilhar foi a possibilidade de se obter uma Equação e uma Matriz do Agir Humano. A partir das quais é possível realizar a referida «interdisciplinaridade» e a concretização da musealização e patrimonização. É isso que se apresenta adiante, utilizando o exemplo do «Desporto». Exemplo: «DESPORTO enquanto modalidade do Agir Humano descrito através da Equação e da Matriz do Agir Humano»: O Desporto é um modo de agir que usa o corpo e o jogo para realizar uma ética. A evidência científica e os registos factuais do aparecimento do Desporto nas sociedades humanas, em termos históricos, arqueológicos, etnográficos e antropológicos, mostram que é um modo de agir que persegue e almeja uma ética. Podemos afirmar que o Desporto é a modalidade da biomecânica que se submete à decisão e ao constrangimento de limitar o agir humano dentro de uma ética. É por causa dela que o Desporto é e acontece. Essa ética, em cada época histórica e em cada contexto social, é composta por regras que definem os limiares individuais e colectivos do agir humano, ora é fácil constatar que isso é a substância concreta dos regulamentos desportivos. São esses limiares e essas imposições éticas que constroem a forma e a morfologia das técnicas, das modalidades, e dos comportamentos desportivos naquilo que os distingue dos outros modos de agir que não são desporto, e simultaneamente contribuem para a sua aceitação e validação social. É isso que permite estabelecer diferenças entre (Jogo¹ Play), (Desporto¹ Jogo), (Desporto¹ Actividade Física). Qualquer acto – ação, uso, desempenho, motricidade, biomecânica, técnica, ou modalidade – destituído dessa intencionalidade ética não é Desporto, e não alcança a qualidade de Desporto. É um modo de agir que fica apenas no nível da biomecânica (“os efeitos produzidos pelas forças internas e externas que atuam sobre uma estrutura biológica ou sobre o corpo humano”), da atividade física (“qualquer movimento corporal produzido pelos músculos esqueléticos que resulte num gasto energético relativamente à taxa metabólica de repouso”), da aptidão física (“capacidade funcional de execução de uma tarefa física”), do play (“fenómeno de oscilação contínua entre duas marcas/coisas/objetos/comportamentos/movimentos”), ou do jogo (“uso do play, enquanto fenómeno oscilatório, para definir/estabelecer/gerir limites ao agir”). Sem essa intencionalidade ética, será um acto ou um modo de agir que, apesar de poder aparentar uma semelhança técnica com aqueles que são Desporto, é guiado por outras intencionalidades ou decisões, por exemplo, estéticas, metafísicas, ontológicas, teológicas, epistemológicas, axiológicas, políticas, ou outras. Assim sendo, no que se refere à responsabilidade de um Museu Nacional do Desporto, o projeto e programa museológico, assim como o acervo a patrimonizar, devem respeitar esses dados científicos, concretamente que o “Desporto é um modo de agir que usa o corpo e o jogo para realizar uma ética” que deriva da Matriz e da Equação Antropológica do Agir Humano:
Matriz do Agir Humano:
Pedro Manuel-Cardoso |
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