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Borracha
escolar resolveu mistério dos pergaminhos medievais
Por
Ana
Gerschenfeld O velino ultrafino das bíblias medievais
terá sido feito com a pele de animais abortados? A resposta foi agora obtida
utilizando uma técnica muito simples e não invasiva. 1.
Arqueologia 2.
Livros Uma
simples borracha em PVC permitiu a uma equipa internacional de biólogos,
arqueólogos, medievalistas e outros especialistas concluir que o finíssimo
pergaminho de que foram feitas, na Idade Média, as páginas das primeiras
?bíblias de bolso?, afinal não provém, como especulavam alguns, da pele de fetos
de animais. Os resultados foram publicados na última edição da revista
Proceedings of the National Academy of Sciences
(PNAS). Milhares
de bíblias de bolso foram fabricados, a partir do século XIII, sobretudo em
França, mas também em Inglaterra, Itália e Espanha, lê-se num comunicado a
Universidade de Iorque (Reino Unido), onde o estudo foi realizado. Alexander
Devine, co-autor do estudo, e estudioso de manuscritos antigos, explica no mesmo
documento que a importância e a influência das bíblias produzidas em grande
escala ao longo do século XIII foram ?o resultado directo do seu formato em
volume único e portável, tornado possível pela combinação inovadora de
estratégias de miniaturização e de compressão conseguidas através do uso de
pergaminho extremamente fino?. Como
salientava, por outro lado e com alguma ironia, um outro co-autor do estudo ?
Bruce Holsinger, medievalista da Universidade da Virgínia (EUA) ? num artigo da
sua autoria publicado na mesma semana na revista The New York Review of
Books, o facto é que ?uma grande parte da nossa herança escrita sobrevive
sob a forma de uma grande massa de restos mortais de
animais?. E
este especialista fazia notar ainda que, no Reino Unido, continua a ser é
obrigatório ?imprimir e conservar as cópias oficiais das leis aprovadas pelo
Parlamento em pele de animal, o que inspira ocasionalmente debates em
Westminster acerca da ética e da economia do comércio de pergaminho? ? tradição
essa que poderá vir a acabar em breve, ?para a grande consternação da comunidade
dos conservadores [de arquivos] e dos especialistas de livros de
arte?. Velino
uterino? Pelo
seu lado, os críticos desta teoria retorquiam que não teria sido sustentável
criar animais apenas para abortar fetos com vista a produzir as grandes
quantidades de velino necessárias para as edições em grande escala daquela
altura. Ainda outra teoria estipulava que, para fabricar o pergaminho, também
teriam sido utilizados animais selvagens como coelhos ou esquilos. Por último,
havia quem propusesse que era possível obter o velino a partir da pele de
animais mais velhos através de uma técnica específica de produção, hoje
esquecida. E parece ser esta a teoria que agora se confirma a partir do
estudo. O
trabalho foi realizado por cientistas do Reino Unido, França, Bélgica,
Dinamarca, Irlanda e Estados Unidos, liderados por Sarah Fiddyment e Matthew
Collins, do Departamento de Arqueologia da Universidade de Iorque. Os cientistas
aplicaram pela primeira vez uma técnica não invasiva, dita de ?extracção
triboeléctrica de proteínas?, para resolver esta controvérsia de longa data. O
método não podia ser mais simples e imediato: consiste em esfregar suavemente o
pergaminho com uma borracha de PVC. Na
área da conservação, explicam os autores na PNAS, é corrente utilizar-se
borrachas de PVC, semelhantes às borrachas da escola, para limpar os documentos
antigos. Ora, como fazem ainda notar, o método apresenta uma vantagem adicional:
proteínas provenientes do material antigo ficam agarradas à borracha ao mesmo
tempo que a sujidade ? e podem portanto ser analisadas para determinar a sua
origem. Já agora, é graças à electricidade electroestática criada pela fricção
(o chamado efeito triboeléctrico) que a borracha consegue ?apagar? a sujidade e
extrair as proteínas. Os
cientistas recolheram desta forma proteínas animais no velino de 72 bíblias de
bolso medievais originárias de França, Inglaterra e Itália ? e ainda, de 293
amostras de pergaminho do século XIII, lê-se no comunicado. A espessura dos
pergaminhos variava de 0,03 a 0,28 milímetros.
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