Os dislates de uma governação sem rumo nem projeto? A próxima governação ainda não começou. É por isso este o momento certo. Não para dizer mal por dizer, mas para, através da troca e da partilha, e com a assertividade necessária, contribuir para solucionar. Esse é o espírito do raro diálogo público que a Lista Museum do Professor José d’Encarnação nos tem proporcionado. Foi pena o meu ilustre Colega de Comissão (da “Comissão Cultura e Desporto” do Comité Olímpico de Portugal), João Paulo Cunha e Silva, ter deixado cá o corpo e ter ido para a eternidade. Serve esta referência, também, para um certo resgate da memória. Mas serve sobretudo para dizer que qualquer mudança ou reforma jamais se conseguem fazer sem a variável Pessoa. Após a cerimónia de tomada-de-posse dessa Comissão, a convite de José Manuel Constantino, viemos para o jardim contíguo ao edifício do Comité Olímpico, para o porto-de-honra habitual e para a sessão fotográfica. Assim meio alinhados, sussurrou-me: “o Pedro já reparou que somos aqui os únicos Pessoanos?” À primeira não percebi. Referia-se aos únicos que expunham a sua heteronimidade em público: ele com o lenço estridente na lapela, e eu com o chapéu, fazíamos um contraponto às «fardas». Pessoanos, sim. O chapéu e o lenço na lapela, no palco da Vida pública. Retorqui que o chapéu não era uma parte separada do meu corpo, daquele que necessito de fabricar para existir. “É como a cor do meu lenço!”, disse. Rimos, ali, naquele ínfimo intervalo de existência, num sítio lisboeta que, para mais, se chamava Travessa da Memória. O que tem isto a ver com os dislates da governação? Tem muito a ver. Tem a ver com a necessidade de Pessoas, como o João Paulo Cunha e Silva, para haver rumo e projeto. A Pessoa é a variável imprescindível para uma governação competente e eficaz. Queiramo-lo ou não. Falámos algumas vezes daquilo a que ele chamou “a minha caixa-de-ferramentas” (referia-se às ferramentas de gestão do Património que criei: “o processo de patrimonização”, “o conceito heptadimensional de Objeto patrimonial”, “a distinção entre património, museologia, e memória; e entre objeto, uso, e valor”, “o equilíbrio entre Memória e Relevância na gestão concreta e operacional, que evitaria a perda de recursos provocada pela atual disneylandiação dos museus/monumentos”, “a definição dos objetivos da gestão museológica”, etc.; algumas das quais apresentei aqui na Lista Museum). E dizia-me que eram muito aristotélicas (no sentido de que eram muito objetivas, positivistas, e mensuráveis), para defender o argumento de que, na sua aplicabilidade, necessitavam de uma atitude política “Líquida” --- essa perspetiva ZygmuntBaumaniana que lhe era tão cara... “sobre a fragilidade dos laços humanos e a vida fragmentada” do pensador polaco. Mas, basta de Contexto (embora sem ele nada se compreenda). Demos alguns exemplos de dislates sem rumo nem projeto que se projetam para a próxima gestão pública da Cultura e do Património: 1. O «cartão Cidadão+Cultura». Ora já não existem dois cartões? O da APOM e o do ICOM? Vamos criar um terceiro cartão, em vez de contratualizarmos uma nova relação entre o Estado e a Sociedade que fortaleça o que já existe? Quer dizer, preferimos fragilizar a fortalecer? É para criar mais uns lugares para os que ainda não estão integrados nas instituições existentes? É porque é mais fácil, porque evita a negociação, a troca, a partilha… e os problemas derivados daquele “Amor Líquido” de Z. Bauman (aquele que João Paulo Cunha e Silva perfilhava), e que é preciso construir entre as Pessoas para que a gestão seja competente e eficaz? 2. O «Arquivo Sonoro Nacional». Ora já não existe um «arquivo sonoro e de imagens» na Cinemateca, e no Museu Nacional de Etnologia, e nos arquivos digitais de tantas instituições existentes, desde a Biblioteca Nacional à Torre do Tombo passando por inúmeros museus e arquivos? Mais um, em vez de se fortalecer com esses recursos a operacionalidade dos que já existem e estão carentes de apoio? Para quê, para criar mais uns lugares para os que ainda não estão integrados nas instituições existentes? Se criássemos um novo departamento ou um novo museu para cada contributo de mérito, nem o PIB dos EUA ou da China nos valiam. Ou não? É isto uma gestão competente, eficaz, e com bom-senso? 3. O «Património Imaterial separado do Material». Quer dizer far-se-iam museus e departamentos para cada uma dessas partes (que criminosamente deceparam o verdadeiro Objeto Patrimonial)? Por exemplo, um museu do Fado, e outro, para a materialidade dos fadistas? De um lado eram os corpos mudos, e do outro, os sons do Fado desossados e desencarnados, desapossados dos cheiros e dos choros? E para os Chocalhos, de um lado todos aqueles quilos de metal e o calor do fogo da sua fundição, e do outro, toda aquela sonoridade que ecoa mais no hipocampo do que nos campos e nas montanhas? E para o Cante, de um lado o som, e do outro a humanidade que canta em corpos vazios? E assim sucessivamente até alguém ter juízo? E quanto custa esta deriva? Alguns querem corrigir esse erro fingindo que «imaterial» equivale a «digital», ora essa redução do imaterial ao digital não é ainda pior, porque é copiada da redução wittgensteineana (reduzir tudo à palavra ou ao número)? E tudo isso não poderia ficar sedeado em museus e instituições que já existem, e como isso sairiam reforçadas em vez de diminuídas? Dividir o pouco que há por mais não prejudica e enfraquece todos? É deste caminho fragmentador e egoísta que a Cultura e o Património necessitam na próxima governação? 4. Uma «maior Autonomia». Esperemos que a palavra «autonomia» tenha o mesmo significado para todos/as os/as que a pronunciam. Porque, numa recente apresentação da “modernização dos serviços públicos” promovida pelo INA, no auditório da Torre do Tombo, foi mostrado num belo powerpoint um extraordinário parque de máquinas informáticas da Novabase, que não envergonha Portugal até a nível mundial, no valor de dezenas de milhões de euros, e que estiveram subjacentes aos Simplex. Porém, nesse acto público, quando o microfone foi dado à plateia, pedi a palavra. Para perguntar: porque razão, após todos esses recursos despendidos durante os últimos 20 anos, e todas essas auréolas de modernização e simplificação, encontramos na Administração Pública a mesma verticalidade no modelo de governança que existia no início? (isto é, a mesma falta de «autonomia» no sentido de um modelo mais horizontal de governo dos Bens Públicos)? É agora que vai mudar? Que a «verticalidade» da governança se equilibrará mais com a «horizontalidade»? Foi com despedimentos e mobilidade que se resolveu esse problema de gestão? Máquinas não faltam… e Pessoas? Ora, diga-se lá se João Paulo Cunha e Silva não tinha razão, ao adoptar aquela atitude política “Líquida” de Zygmunt Bauman, que melhorava (passo a citar) “… a fragilidade dos laços humanos, e a vida fragmentada”? É verdade ou não, de que são necessárias Pessoas para estancar a deriva sem rumo nem projeto que causa os dislates na governação da Cultura e do Património? A próxima governação ainda não começou, e não acredito que o Sr. Ministro tenha sido o autor do Programa (por mais que me convençam do contrário; basta ver o processo como foi feito), portanto talvez ainda haja esperança... Pedro Manuel-Cardoso |
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