Permitam, em apenas quatro parágrafos, justificar a minha colaboração no projeto: «Casa da Cultura do Olimpismo/ Museu do Comité Olímpico de Portugal» (http://comiteolimpicoportugal.pt/secretaria-de-estado-da-cultura-visitou-cop/). 1 – Porquê a «Casa da Cultura do Olimpismo / Museu do Comité Olímpico de Portugal»? Porque … é o Olimpismo que explica o Desporto. Isto é, porque os outros museus de desporto existentes não explicam o que os explica. Nem há nenhum que possa reivindicar ou tenha por missão esse património que é transversal às épocas, à história das diferentes Nações ou Países, e às modalidades desportivas que se foram sucedendo desde os Primeiros Jogos Olímpicos (776 a.C.). O Olimpismo é a ética que inventou o Desporto. Foi essa decisão humana - de limitar o agir a uma ética altruísta construída socialmente (em que quaisquer que sejam os resultados anteriores os praticantes não alteram o seu estatuto e a sua paridade nas relações futuras e nas sucessivas disputas) - que inventou o Desporto. Os dados da ciência (história, sociologia, arqueologia, antropologia, biologia) mostram que o Olimpismo foi essa capacidade de por esse limite ao agir humano, através do qual as Pessoas se superam. É por essa razão que o Olimpismo salvaguarda os valores éticos, educativos, e sociais do desporto. E apenas o Olimpismo permite contar a história do desporto de 776 a.C. até à atualidade de uma forma integrada e transversal. A Casa da Cultura do Olimpismo/ Museu do Comité Olímpico de Portugal mostra essa mensagem, essa razão, essa invenção humana, essa capacidade de por um limite ao agir através do qual o ser humano se supera. São essas imagens, essas Pessoas, esses feitos, essas palavras, essa compreensão, que os Visitantes lá experimentarão. É sobre esse legado patrimonial milenar que foi concebida e projetada. É esse objeto que a Casa da Cultura do Olimpismo celebra e mostra. E a marca distintiva deste projeto museológico em relação aos outros de desporto que existem em Portugal. Uma Casa da Cultura para compreender o Olimpismo. Onde a Memória e a Relevância se adquirem pela prática e pela interatividade. São esta Relevância e esta Diferença que estão expressas no Programa Museológico e na experiência de visita que proporciona. É um projeto que opta pela museologia compreensiva. Isto é, foi projetado para os Visitantes - os atuais e os futuros - serem capazes de responder à pergunta … ”o que é o Olimpismo?”. Significa que o processo de compreensão - mais do que os objetos ou as peças - é a marca que o distingue. E a oportunidade para a sua afirmação a nível nacional e internacional. A resposta à pergunta ”o que é o Olimpismo?” será obtida por um trajeto constituído por cinco núcleos temáticos: 1.Jogo de Compreensão do Olimpismo … 2.Corpo e Cérebro … 3.Atividade Física e Jogo … 4.Desporto e Olimpismo … 5.Património. Significa que o Programa Museológico estabelece uma correlação espacial e temporal com as etapas cognitivas do processo de interpretação, comunicação, e compreensão da realidade a musealizar (Olimpismo), no contexto de uma Epistemologia que assume a Interdisciplinaridade (entre: ciências exatas, naturais, técnicas, sociais, e humanidades). Será no seio desta Estrutura Permanente de Exposição que os Visitantes alcançarão o entendimento “sobre aquilo que o Olimpismo é” no mundo e em Portugal. É um Projeto Museológico que aposta numa museologia participativa, lúdica, e educativa que conecta as vozes das Pessoas, das Instituições, da Escola, das Comunidades, e da Sociedade no projeto comum de compreensão e interpretação do Património do Olimpismo. Será um espaço de entretenimento para experimentar e conhecer de modo interativo, lúdico, e educativo. 2 – Porque é necessário preservar e comunicar este Património? Porque … quando destruirmos o Olimpismo estaremos a destruir, talvez, o último-primeiro sistema de ética altruísta capaz de regular o agir humano. Há outros tipos de éticas não-altruístas, que não são homeostáticas e reguladoras do viver humano em sociedade. A ética olímpica é altruísta porque tanto o vencedor como o derrotado aceitam relacionar-se novamente sem quebrarem os laços humanos que os ligam. Não se afastam ou corrompem a sua relação, quaisquer que sejam os resultados e consequências de todos os jogos olímpicos que disputem. Logo, cedem ambos aos impulsos e instintos primários, para se transformarem em seres que superam a bestialidade biomecânica, instintiva, bioenergética, nervosa e hormonal. Mas a nível individual, sem parceiro, é exatamente o mesmo que acontece (o indivíduo só, perante um objetivo ou uma meta, pode gerir interiormente o fracasso ou o sucesso com ou sem a decisão por um limite ético). Aliás, era essa superação sobre-humana que Nietzsche elogiava no agon helénico. É essa submissão ao limite ético olímpico que exige todas aquelas qualidades que se costumam dizer que o Desporto forja no carácter humano. São essas qualidades que estarão no Jogo de Compreensão do Olimpismo que os Visitantes experimentarão no espaço da Casa da Cultura do Olimpismo/ Museu do Comité Olímpico de Portugal. Permitir que corrompam o Olimpismo pela ilicitude, pelos Zanes modernos, pela destruição da ética altruísta que ele é, é ser cúmplice de um crime lesa-sociedade. Lutar para que este património milenar seja preservado, documentado e comunicado é um dever moral e cultural. Não construir um local onde esta mensagem do Olimpismo possa ser comunicada à Sociedade é, de algum modo, ser cúmplice da destruição desse sistema ético de regulação do agir humano que o Olimpismo é. A Casa da Cultura do Olimpismo/ Museu do Comité Olímpico de Portugal deve ser construída porque a defesa dos valores éticos, sociais e educativos do Olimpismo são necessários na atualidade à sociedade e ao viver humano (cada vez mais egoísta e violento) que somos e que estamos a ser. Em vez da sociedade, dos cidadãs/ãos, e dos jovens verem nos Desportistas bestas biomecânicas capazes de proezas atléticas, passá-los-ão a ver como guardiães dessa ética altruísta, como autores dessa criação ética essencial à construção do viver humano em sociedade. Com a Casa da Cultura do Olimpismo/ Museu do Comité Olímpico de Portugal as Pessoas compreenderão como em cada novo acto desportivo essa ética é recriada e salvaguardada. Compreenderão como o Olimpismo deu a esses seres humanos a quem chamamos «Desportistas» e à instituição a que damos o nome de «Desporto» uma filosofia de vida comprometida com o compromisso altruísta, simultaneamente individual e social, de conseguiram superar os impulsos e os instintos da matriz biológica que herdaram geneticamente. É por causa desta evidência histórica, documental e científica que o Olimpismo explica e dá razão-de-ser ao «Desporto»; é por causa desta razão que os «Desportistas» - passados, actuais, e futuros - são o único e o verdadeiro Património do Olimpismo; são, em si mesmos, o verdadeiro Museu do Olimpismo. A Casa da Cultura do Olimpismo/ Museu do Comité Olímpico de Portugal mostrará que cada acto desportivo do presente é aquilo que preserva (ou deveria preservar) esse Património inventado pelo Olimpismo em 776 a.C., e que mais nenhum museu de desporto tem possibilidade prática de musealizar. 3 – Porquê mais um Museu? Porque … na atual realidade portuguesa a gestão do património do desporto não se pode fazer, doravante, a partir de um único museu. O património do desporto é atualmente propriedade de clubes, federações, instituições privadas e de pessoas, e está protegido por direitos de autor e de propriedade por essas entidades. Alguns desses clubes são hoje «sociedades anónimas cotadas em Bolsa», possuem museus que competem entre si, dois dos quais até são candidatos ao prémio europeu de museus. O Estado jamais poderá pretender gerir o património do desporto através de um único «museu nacional», como foi decretado em 24 de julho de 1985. Esse tempo desapareceu, e já não volta. Não há recursos nem sustentabilidade para um caminho isolado e solitário, como o Estado pretendia fazer até surgir a crise global de 2009. A responsabilidade do Estado pela gestão do património do desporto tem que ser realizada através de diversos museus, trabalhando em cooperação e complementaridade. É por esta razão que se justifica uma relação de parceria e cooperação entre o Estado e a Sociedade (COP) que permita transferir os recursos necessários à concretização da Casa da Cultura do Olimpismo/ Museu do Comité Olímpico de Portugal. Foi essa alteração que propus para a Política Pública de Património na revista Património.PT (21maio2014) e aqui na Lista Museum há muito tempo atrás. Mas também porque, em termos da Política de Património, a decisão sobre o que é necessário guardar em Memória, e a decisão sobre o que é importante Desenvolver no presente e no futuro estão em constante mudança. Porque a Mudança que ocorre na Sociedade obriga a uma renovação constante que permita captar a Relevância de cada Tempo. É ela que, em todas as épocas, deve ser expressa nos museus. Só quem não compreende o que são os museus, nem o benefício que eles prestam à sociedade, pode ter a opinião de que «não se devem construir mais museus, e ficar com os que expressam e representam um mundo que já passou». É por essa razão que são construídos dezenas de novos museus nos países mais desenvolvidos, e naqueles que querem estar atualizados perante os desafios do presente e do futuro. Recorrendo a uma imagem, até poderíamos dizer que os museus/monumentos são como dunas. As dunas não são estáticas e desatualizadas. Se as dunas não se movimentassem não conseguiam conter a força das marés do presente e do futuro… Assim é a Gestão do Património e dos Museus/Monumentos. É necessário dominar técnica e cientificamente a «metodologia do Processo de Patrimonização» para que a Política Pública de Cultura seja capaz de gerir os desafios que atualmente os museus e o património enfrentam. A Casa da Cultura do Olimpismo/ Museu do Comité Olímpico de Portugal é um bom exemplo disso. 4 – O que há de inovador neste Projeto? A Casa da Cultura do Olimpismo/Museu do Comité Olímpico de Portugal é um projeto museológico de gestão do Património inovador ainda por outras razões: 1) Não apenas por alterar o paradigma da compreensão do Olimpismo (e do Desporto) enquanto fenómeno e instituição humana. 2) Nem apenas por aplicar no seu Programa Museológico uma gestão do Património que equilibra a responsabilidade pela Memória com a responsabilidade pela Relevância no sentido que referi em várias mensagens: http://ml.ci.uc.pt/mhonarchive/museum/msg14277.html; http://ml.ci.uc.pt/mhonarchive/museum/msg13678.html. 3) Mas porque também altera o modo tradicional de gerir os designados «serviços educativos» dos museus/monumentos nos Projetos e Programas Museológicos, constituindo um passo em frente na historicidade dessa função de «educação, comunicação, interpretação» nos museus/monumentos. Porque essa responsabilidade pela interpretação do Património deixa de estar numa sala algures - afastada da «exposição permanente», como algo que se vai das tantas às tantas, ao lado da cafetaria, ou ali mais ao lado, mas nunca lá dentro - para ser uma componente da própria «exposição permanente». Isto é, para passar a ser um momento do usufruto da visita inserido na experiência de comunicação da própria «exposição permanente». O dito «serviço educativo» é a própria «exposição permanente». Para que isso acontecesse foi necessário acrescentar ao tradicional «modelo de comunicação assente na teoria matemática, cibernética, e semiótica de comunicação» (enviar e receber mensagens, entre um emissor e um receptor, através de um canal, de um referente e de um media, sejam objetos ou imagens) por um modelo baseado na «pragmática da comunicação» (no qual desaparecem as situações de emissor, receptor, mensagens; sendo construído o espaço do museu/exposição permanente como um «Contexto de Significação e de Relevância do Património a Visitar» em que a compreensão e o significado se adquirem num processo de comunicação baseado na experimentação, na reciprocidade mútua, e na troca). Não é por se usarem meios tecnológicos sofisticados nem por se usarem os canais sensoriais que o modelo de comunicação muda. Verifica-se na maioria dos atuais museus que esses usos das novas tecnologias e os novos usos dos canais sensoriais não alteraram o modelo de comunicar tradicional. Na Casa da Cultura do Olimpismo / Museu do Comité Olímpico de Portugal há uma mudança conceptual e metodológica, que tínhamos voltado recentemente a propor na mensagem que intitulámos «Compreensão do Património: "reiniciar o Programa"?» (http://ml.ci.uc.pt/mhonarchive/museum/msg14597.html), e que neste projeto tivemos a possibilidade de aplicar na prática mais uma vez. Concretamente, como já referimos atrás, o Programa Museológico (museologia) e a concepção do Espaço (arquitetura) proporcionarão aos Visitantes uma experiência baseada num Jogo de Compreensão, que pode ser jogado de várias maneiras consoante pertençam a diferentes idades, culturas, ou proveniências socioprofissionais. O percurso da visita pode ser usufruído como um jogo de tabuleiro, de construção, de assemblage, um jogo informático, um jogo performativo e coreográfico, um jogo labiríntico, ou outros modos. Deste modo, o Programa Museológico estabelece uma correlação espacial, temporal e vivencial com as cinco etapas cognitivas do processo de interpretação, comunicação, e compreensão da realidade a musealizar (Olimpismo). Assim queiram ou possam os Decisores. A Bem de Portugal. Pedro Manuel-Cardoso |
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