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O relógio da
CIVITAS IGAEDITANORVM
A
apresentar por Amílcar Guerra
Esta inscrição
feita num pequeno bloco de uma pedra não particularmente nobre
constitui um dos mais interessantes monumentos para a História da
Lusitânia. Nele se declara que um tal Quintus Tallius,
identificado como cidadão de Augusta Emerita, ofereceu
um relógio aos Igeditanos, os membros da comunidade cívica que tinha
a sua sede no local onde se encontrou a inscrição,
Idanha-a-Velha.
Esta oferta, que pode parecer estranha, tem na realidade um forte
sentido político, uma vez que representa bem os novos tempos: a
orientação que o imperador
Augusto imprime a administração
da Hispânia, reorganizando as províncias ao separar a antiga Ulterior
em Bética e Lusitânia. Sublinham alguns autores que este monumento,
do ano 16 a.C.,
assinalaria precisamente o momento em que se teria finalizado esse
processo, o que seria um elemento de extraordinária importância.
Mas o relógio representaria também as profundas alterações na vida
pública da cidade recém-fundada e à qual se conferia uma estrutura
política, um corpo de magistrados, uma assembleia e outras
instituições que fixavam dias e horas precisas para os seus actos
oficiais. O orarium
marcava, portanto, o ritmo
da vida política e administrativa da nova cidade.
A epígrafe assinala também que o local destinado à instalação dessa generosa oferta foi indicado
pelos magistrados locais, cujos nomes se enunciam. Trata-se de
colégio de quatro indivíduos que patenteiam uma onomástica muito
característica desta região, em forte contraste com o que eram os
nomes romanos como o do próprio Quintus Tallius.
Embora todos apresentem dois elementos, o nome romano é composto,
como se dizia então, por um prenome e pelo gentilício (o nome da gens, da
família), o das personalidades locais era constituído por um único
nome pessoal, seguido do patronímico.
Enfim, duas tradições e duas culturas em confronto, mas num contexto
em que a superioridade romana implicou também a generalização da língua latina, na qual se redigiu a
inscrição. Este texto
reflecte, deste modo, a interacção
entre comunidades locais e os representantes da romanidade cujos
hábitos pautam os novos tempos, dando origem a uma síntese que a
expressão "mundo lusitano-romano" de alguma forma
exprime.
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