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[Museum] In Memória de José Marinho... O trabalho patrimonial prático.

To :   <museum@ci.uc.pt>
Subject :   [Museum] In Memória de José Marinho... O trabalho patrimonial prático.
From :   PedroManuelCardoso <mty@mail.tmn.pt>
Date :   Thu, 31 Mar 2016 15:54:12 +0100

In Memória de José Marinho

“A razão pessoal: No entanto, todas estas razões foram a mesma razão pessoal. A mesma inquietação interior que levou José Marinho a escrever, num dos seus Aforismos Discordantes, “a experiência não é atributo do ser mas do pensar, não se alcança pela multiplicidade sucessiva, mas pela interioridade unitiva” (Oliveira, 1981, p.18). Neste caso com uma ligeira diferença. A convicção de que a experiência não é apenas atributo do ser mas também do pensar, não se alcançando apenas pela multiplicidade sucessiva, mas também pela interioridade unitiva. Dilthey disse-o de outro modo: “A Realidade só existe para nós nos factos da consciência, dados pela experiência interior.” (Dilthey, 1976, p.161). Foi esta razão que não cessou de importunar desde esse longínquo ano de 1982, quando iniciámos de forma contínua e diária o trabalho patrimonial prático. [….]” (Pedro Manuel-Cardoso, 2011, “A Cultura perante o Património”, Lisboa: IGAC)

 

Sobre José Marinho (1904-1975), Pedro Calafate escreveu:

“Do atentado político a Salazar decorreu a obrigação imposta aos funcionários públicos de assinarem um telegrama repudiando tal atentado. José Marinho não assinou, e subscreveu sozinho um outro texto, o que lhe valeu a expulsão do magistério oficial em termos tais que ele e um monárquico, foram os únicos funcionários do Estado que, nunca viram publicado um decreto a possibilitar a sua reintegração. Expulso do Magistério, José Marinho também esteve preso alguns meses no Limoeiro. O médico Manuel H. Leitão, contava que Marinho em momento algum deixara de manter a mesma alegre disposição. Logo de manhã a manifestava, ao fazer a barba à janela de grades, cantando árias de óperas” (p.39) … “Viveu sempre na cidade e era um homem de cidade. Nunca foi ao estrangeiro, a não ser, numa excursão de domingo, a Sevilha, quando era professor no liceu de Faro, e dizia que o fizera enganado pelos colegas que o haviam convidado para um almoço numa localidade vizinha. José Régio, que também nunca foi ao estrangeiro, lembrava, a abrir «A Sarça Ardente», obra-prima da poesia contemporânea: “O mundo é vasto mas repete-se, e é fácil esgotá-lo” (p.42) … “Nos últimos 15 anos de vida, conseguiu enfim libertar-se das «explicações» e do calcurreio diário das ruas de Lisboa por ter obtido, muito esforçadamente, um emprego na Fundação Calouste Gulbenkian.” (in Revista «Cultura Portuguesa» n.1, Agosto-Setembro 1981, Secretaria de Estado da Cultura, direção de Afonso Botelho e Lima de Freitas, Biblioteca Nacional, Lisboa, p.42).

 

“José Marinho situa-se entre os discípulos de Leonardo Coimbra, empenhado no movimento de reabilitação da «filosofia portuguesa» numa linha profundamente crítica do racionalismo moderno bem como da nossa tradição escolástica e posteriormente positivista. Neste plano de consideração, a sua preocupação marcante foi a de encontrar um espaço para a singularidade da nossa cultura filosófica sem negar a aspiração universal e universalizante da filosofia.

Para Marinho, a humanidade pensa-se necessariamente em cada um dos humanos e daí a noção de uma universalidade singular e concreta, à luz da qual se tornaria possível equacionar o problema de uma filosofia nacional. Não havendo pensar radicado senão no homem situado, Marinho parte da constatação, na sua análise do pensamento português contemporâneo, de que, entre nós como na restante Europa, a razão se cinde quase sempre em formas contrapolares: uma razão «conceptual» ou ainda só «conceptiva», «que busca a compreensão e a possível harmonia dos diversos»; e uma «razão judiciosa», que encarnaria a grave responsabilidade de excluir como erróneo ou falso «o que ainda não é verdadeiro».

Esta separação conduziria ao distrofismo do pensamento português e daí não só a controvérsia que manteve com António Sérgio, mas sobretudo o elogio de Sampaio Bruno e de Leonardo Coimbra, por a seu ver se manterem fiéis ao que no pensar tende a superar aquela trágica dicotomia.

O que sobressai é a crítica ao exclusivismo de um modelo de racionalidade que aliena a responsabilidade de compreender o que lhe é aparentemente irredutível. Não há para Marinho um modelo de racionalidade que desde todo o sempre e para todo o sempre se fixasse no homem, determinando e impondo uma lógica perfeita e única, com regras de pensar que uma filosofia ou toda a filosofia nos obriguem a aceitar, para que possamos usufruir da dignidade humana. Não há por isso uma razão pura, na medida em que importa considerar aquele outro de toda a razão «que do mais fundo solicita o autêntico e real pensamento dos homens».”

 





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