A próxima governação ainda não começou. É por isso este o momento certo. Não para dizer mal por dizer, mas para, através da troca e da partilha, e com a assertividade necessária, contribuir para solucionar. Esse é o espírito do raro diálogo público que a Lista Museum do Professor José d’Encarnação nos tem proporcionado. Foi pena o meu ilustre Colega de Comissão (da “Comissão Cultura e Desporto” do Comité Olímpico de Portugal), Paulo Cunha e Silva, ter deixado cá o corpo e ter ido para a eternidade. Serve esta referência, também, para um certo resgate da memória. Mas serve sobretudo para dizer que qualquer mudança ou reforma jamais se conseguem fazer sem a variável Pessoa. Após a cerimónia de tomada-de-posse dessa Comissão, a convite de José Manuel Constantino, viemos para o jardim contíguo ao edifício do Comité Olímpico, para o porto-de-honra habitual e para a sessão fotográfica. Assim meio alinhados, sussurrou-me: “o Pedro já reparou que somos aqui os únicos Pessoanos?” À primeira não percebi. Referia-se aos únicos que expunham a sua heteronimidade em público: ele com o lenço estridente na lapela, e eu com o chapéu, fazíamos um contraponto às «fardas». Pessoanos, sim. O chapéu e o lenço na lapela, no palco da Vida pública. Retorqui que o chapéu não era uma parte separada do meu corpo, daquele que necessito de fabricar para existir. “É como a cor do meu lenço!”, disse. Rimos, ali, naquele ínfimo intervalo de existência, num sítio lisboeta que, para mais, se chamava Travessa da Memória. O que tem isto a ver com os dislates da governação? Tem muito a ver. Tem a ver com a necessidade de Pessoas, como o Paulo Cunha e Silva, para haver rumo e projeto. A Pessoa é a variável imprescindível para uma governação competente e eficaz. Queiramo-lo ou não. Falámos algumas vezes daquilo a que ele chamou “a minha caixa-de-ferramentas” (referia-se às ferramentas de gestão do Património que criei: “o processo de patrimonização”, “o conceito heptadimensional de Objeto patrimonial”, “a distinção entre património, museologia, e memória; e entre objeto, uso, e valor”, “o equilíbrio entre Memória e Relevância na gestão concreta e operacional, que evitaria a perda de recursos provocada pela atual disneylandiação dos museus/monumentos”, “a definição dos objetivos da gestão museológica”, etc.; algumas das quais apresentei aqui na Lista Museum). E dizia-me que eram muito aristotélicas (no sentido de que eram muito objetivas, positivistas, e mensuráveis), para defender o argumento de que, na sua aplicabilidade, necessitavam de uma atitude política “Líquida” --- essa perspetiva ZygmuntBaumaniana que lhe era tão cara... “sobre a fragilidade dos laços humanos e a vida fragmentada” do pensador polaco. (In Memória de Paulo Cunha e Silva por Pedro Manuel-Cardoso, 8dez2015) |