[Museum] Memória Acesa - Missiva da Nazaré XVII MINOM
Missiva de Nazaré - MEMÓRIA ACESA
XVII Conferência Internacional do MINOM
Amazônia/ Brasil, 2016
Nós, integrantes do MINOM, presentes em Nazaré, Rondônia, entre 3 e 7
de agosto de 2016, repudiando os golpes contra a democracia, os
direitos humanos e os direitos da natureza (a Pachamama, Mãe Terra),
consideramos que:
a memória acesa constitui uma forma deliberada de (r)existência, isto
é, de luta contra o apagamento dos modos de vida que não se enquadram
no modelo capitalista e, ao mesmo tempo, de afirmação dos valores
humanos, da dignidade e da coesão social, colocando-se como ação
propositiva de ocupação do presente e invenção de futuros;
no mundo contemporâneo observa-se o recrudescimento e a multiplicação
das formas de violência e fascismo dirigidas contra os povos
originários, comunidades ribeirinhas, tradicionais e periféricas
urbanas, negros, mulheres, comunidades LGBTTT, imigrantes, migrantes,
refugiados, e todos os que não se enquadram no modelo hegemônico;
as evidentes falência e falácia do desenvolvimento como objetivo das
sociedades são responsáveis pela destruição de ecossistemas e formas
de vida, pelo constante deslocamento forçado de grandes massas
populacionais, obrigadas a se submeter a um modo de vida desumano, que
igualmente implica o rompimento de seus laços e estruturas sociais e
produz fragmentações e vulnerabilidades;
os atuais sistemas políticos representativos e de gestão pública são
incapazes de acolher, mediar e atender necessidades e interesses da
grande maioria das populações;
os modos de vida das comunidades tradicionais, ribeirinhas, rurais e
periféricas urbanas expressam um Bem-Viver em que as múltiplas
dimensões da existência estão integradas e promovem a humanização em
equilíbrio e harmonia com o ambiente;
a noção de patrimônio carrega um sentido patriarcal e patrimonialista,
incapaz de abarcar as múltiplas direções e solidariedades implicadas
na produção e comunicação da cultura e que estão dadas as condições
para o reconhecimento de uma herança que se constrói e se partilha
aqui e agora e que pode ser denominada como fratrimônio.
Assumimos os seguintes compromissos:
1. Promover a produção partilhada de conhecimento com respeito e
valorização de diferentes vozes, saberes e epistemologias, garantindo
o retorno dos benefícios às comunidades participantes;
2. Combater as diversas formas de silenciamento, apagamento e
invisibilização da presença e atuação das mulheres em todos os
territórios sociais, políticos e geográficos, afirmando uma
perspectiva emancipatória na práxis museológica;
3. Lutar contra a criminalização dos movimentos sociais e contribuir
com ações museológicas concretas para a defesa dos direitos humanos e
da natureza;
4. Atuar a favor da realização de práticas culturais inclusivas,
pautadas pela dimensão do afeto e da reciprocidade, traduzidas pelo
"dar, receber e retribuir" e que se expressam como fratrimônio, uma
herança fraterna construída e partilhada no aqui e agora;
5. Realizar uma museologia empenhada em denunciar e combater todas as
formas de extermínio, violência e violações de direitos, como as que
afetam as juventudes negras, os povos indígenas, as comunidades
ribeirinhas, tradicionais e periféricas urbanas, os imigrantes e
refugiados, as mulheres, as comunidades LGBTTT;
6. Combater todas as formas de racismo e discriminação nas práticas e
instituições museológicas, mantendo acesas as chamas das matrizes
africanas, afro-brasileiras, indígenas, ciganas, tradicionais,
ribeirinhas e periféricas urbanas;
7. Afirmar a emergência de museologias do afeto, realizadas nos
encontros e reencontros, vivências e convivências que celebram a
potência da vida e se expressam em modos de ser, fazer e conhecer
multidimensionais e solidários;
8. Disseminar práticas de cartografia social que reconheçam e
incorporem ao pensamento museológico as múltiplas linguagens
existentes nos territórios, superando perspectivas dogmáticas que se
pretendem universais;
9. Trabalhar para a construção e configuração de instituições e
políticas públicas no campo museológico que reconheçam a autonomia e
favoreçam a autogestão pelas comunidades em sua multiplicidade;
10. Atuar a favor de uma escola em movimento que contemple as
especificidades e o pleno diálogo entre os saberes dos povos dos
campos, das florestas, das águas e das periferias urbanas, na
perspectiva de uma outra sociedade, em que a luta pela terra e pelo
território manifeste-se como (r)existência e alcance dimensões
materiais e imateriais, vinculando-se à memória, ao fratrimônio e à
cultura;
11. Trabalhar a favor da consolidação de redes de solidariedade e
celebração que favoreçam a apropriação da Museologia Social pelas
diversas comunidades e que contribuam com a disseminação de mídias
livres e políticas de comunicação contra-hegemônicas;
12. Promover espaços de encontro e convivência que contribuam para a
formação no âmbito da Museologia Social ou Sociomuseologia, em
consonância com os princípios aqui enunciados;
13. Contribuir para a reflexão e o fortalecimento das práticas de
turismo crítico e social, com respeito à autonomia e autodeterminação
das comunidades, ancoradas na memória acesa e coerentes com a
realização do Bem-Viver;
14. Reafirmar os pressupostos emanados das Declarações de Santiago do
Chile (1972), Quebec e Oaxaca (1984), do Rio (2013) e Havana (2014);
15. Por último, e não menos importante, fora Temer!
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