A “Trienal de Arquitectura 2016” prossegue as suas inúmeras iniciativas. Expande-se no território de Lisboa como um enorme véu ideológico, construído através de expografias e narrativas. Escolheu para si própria o desígnio a que chamou “A Forma da Forma”. Não há cartaz, folheto, catálogo, legenda, ou folha-de-sala que não repita à exaustão esse argumento ideológico. O Ser-Humano expulso da sua Especificidade, é apresentado como um Ser aprisionado na Geometria e na Trigonometria dos edifícios construídos e a construir na Paisagem. Aquela que deveria ser um Direito Público e um Direito de cada Identidade Humana que se expressa historicamente num Território. O Destino Geometrizado do Ser Humano é uma prisão sem saída. A Trienal de Arquitectura 2016 apregoa e projeta esse Destino como uma inevitabilidade sem alternativa. A única Liberdade é os edifícios e os casulos da habitabilidade serem mais ou menos arredondados, mais ou menos verticais ou horizontais. Há apenas a permissão para uma leve permutação ou combinatória dentro dessa catástrofe topológica. As iniciativas são muitas e os locais prolíferos, mas dizem todos o mesmo. Que não há saída para esse impasse ideológico apregoado pela “Forma da Forma”. O Ser-Humano Geometrizado estaria irremediavelmente condenado ao impasse Pós-Moderno, em que o sentido-de-Projeto seria dissolvido num futuro “Líquido”, a Verdade substituída por um “Simulacro” constante, as relações entre as Identidades desfeitas por uma hibridação e miscigenação “Relativista”, na qual a felicidade se alcança apenas pelo consumo hedonista e pelos prazeres sensoriais. As tertúlias humanas onde o desejo e as pulsões se atrapalham sem racionalidade, construindo a premissa que permite ao Ser-Humano ler-se de fora como no teorema de Gödel ou no silêncio de Wittgenstein, e ultrapassar-se em projetos coletivos dominados pela sociabilidade e pela Cultura, exigindo uma distribuição mais equitativa da riqueza e dos recursos, são um empecilho. São o inimigo a abater nesse Mundo dominado pela ideologia arquitetónica do “ponto, linha plano”. Exatamente como fizeram às Nações, a régua e esquadro, em tantos sítios onde a Humanidade foi destruída, e onde hoje há, exatamente aí, as guerras e os mais ferozes conflitos entre Humanos. O destino dessa ideologia da “Forma da Forma” é esse desfecho terrivelmente geometrizado. A Arquitetura e o Design levados ao exagero, e transformados em Ideologia, têm por consequência o desenraizamento humano, e a perda da identidade com a Paisagem e o Território. Seja num País, numa Cidade, ou num Museu, acabam sempre numa curadoria da Paisagem e das Formas sem janela para o Além, condenando o Ser-Humano a uma permanente claustrofobia. É um branco que, por mais alvar se faça, está sempre sujo da auto-referência. Uma leitura mais atenta às narrativas e às expografias da Trienal da Arquitectura 2016 revela esse triste impasse entre Natureza e Cultura que o Pós-Moderno nos pretendeu impingir (basta ir lá ver e ler, porque é gratuito com esse propósito). Como se a esse Dualismo fatal e sem saída estivéssemos Todxs condenados. Uma ideologia sustentada hoje nas ciências sociais, e outra vez repetida pelas posições antagónicas e simétricas de Dan Sperber, Philippe Descola, Tim Ingold, Bruno Latour, e outros. De um lado os que querem Culturalizar a Natureza, do outro, os que querem Naturalizar a Cultura. Ambos chamam a isso a “Segunda Natureza” ou a “Segunda Cultura”. É esse impasse que a ideologia da “Forma da Forma” escolhe para proliferar. Philippe Descola pretende “acabar com a Natureza” (“en finir avec la nature?”) ao defender que toda a natureza é culturalizada; Tim Ingold pretende “acabar com a Cultura” (“en finir avec la Culture?”) ao defender que toda a cultura é natureza (ambiente, ecologia); e Bruno Latour tenta uma conciliação entre essas duas perspetivas antagónicas e isomorficamente simétricas de Descola e Ingold defendendo que é necessário “acabar com ambas” (“en finir avec les deux?). Nem Hegel faria melhor. Esta desistência crítica das Ciências Sociais, dos responsáveis pela Gestão do Património, e de outos sectores com responsabilidades na Cultura, de facto, deixa o Território livre para a expansão da ideologia da “Forma da Forma”, para os Planos Urbanísticos sem escrutínio da vontade democrática, para a construção civil desenfreada, e para o turismo selvagem. Lisboa: Paisagem Cultura Protegida e Património da Humanidade? … Era necessário recuperar o sentido-de-Projeto e a coragem de não desistir da Identidade de Portugal. Pedro Manuel-Cardoso |
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