O Património é a nossa Relevância. Aquela que nos permite Ser, enquanto Diferença que dialoga e partilha com um Outro. Em relação a Lisboa, o silêncio dos responsáveis Políticos e dos responsáveis pelo Património é ensurdecedor. Estão a vender a Identidade de Lisboa por trinta dinheiros. Muitxs talvez não acreditem. Basta ir às ruas. Olhar os olhos dos que cá viviam antes do crime. Há os que preferem fazer entrevistas sociológicas cheias de presunção e de medidas calculadas por um algoritmo, talvez encomendadas, sabe-se lá. Mas não é por isso que as moedas e as notas não continuam a queimar as mãos e o coração. Para 2017, no Orçamento do Estado, está previsto um aumento da tributação de 20% proveniente do arrendamento local. Os autóctones são curiosidades como num parque temático ou num jardim zoológico. Como aqueles turistas que pagavam para ver a guerra-ao-vivo nos Balcãs, e depois se refugiavam num shot ou numa conversa filosófica no átrio de um qualquer hotel de cinco estrelas. E até, pondo a maldita experiência online nas redes sociais, cujas sedes e os satélites sabemos muito bem onde estão sedeados. Ouça - quem tiver coragem - as palavras que são ditas por aqueles que sofrem. Elas são o Património Vivo de Lisboa que está a morrer e a sangrar. Talvez sejam, quiçá, os futuros objetos do Museu Etnográfico da Morte de Lisboa (passo a citar): “O antigo presidente (…) e atual Primeiro- (…) falou, mas pelos vistos não tem feito muito por isso. Um bairro sem moradores não é um bairro. Lisboa está a perder os seus bairros e os seus moradores. Arriscamo-nos, a médio ou até a curto prazo, a ter um grande parque temático na Baixa, onde os turistas vêm ver o que ainda resta e outros turistas. Perde-se o comércio local, o típico, porque cada vez mais há as franquias (os McDonald's, os Burger Kings, H3, Zara’s, Mango’s e quejandos). Lisboa está a perder a sua Identidade, estão a transformar Lisboa numa cidade “igual a outra qualquer. É triste.” (AMBA). “O argumento utilizado pelos Responsáveis é: «Quando vieram para cá morar já sabiam para o que iam»…«Não temos um polícia para cada cidadão, isso é uma tradição de certas áreas de Lisboa e, portanto, temos pouco a fazer». Isso é o mesmo que dizer: «Os moradores que aguentem, ou vão-se embora». Ora isso é profundamente injusto, porque há Pessoas que nasceram aqui, constituíram família aqui. Por que é que as expulsam? Não é, moralmente e em termos dos direitos humanos, pior do que uma guerra? Porque é um fenómeno novo, é o Turismo, e por isso, nós, temos de ser expulsos?”. “Há mais dinheiro, mais economia, há mais tudo. Depois há uns coitados que sofrem e que têm de sair das suas casas, … mas paciência.”. “O presidente da C(…) diz que depois temos casas para alugar, mas para alugar a quem? Depois da população já se ter ido embora? Vem uma nova população? Uma classe média? Não sei. E nós, não somos Pessoas”. "Os moradores não são contra o turismo. O que falta é equilíbrio. Nem tanto ao mar nem tanto à terra. Em 2015, Lisboa ultrapassou o Algarve em número de hóspedes (5,2 milhões contra 3,7). E este ano, promete chegar a marcas nunca antes atingidas.”. “A descaraterização da Cidade está a ser muito grave. Começa pelo despovoamento dos moradores, que são substituídos por turistas, através do alojamento local, dos hostels e hotéis, que crescem desmesuradamente. À custa dos moradores. Que estão a ser substituídos por turistas ou por moradores temporários - os estudantes Erasmus e outros – que não se fixam na Cidade. Não sei se por detrás também não estarão alguns filhxs dos que estão no Poder. Não sei”. “É mais fácil dizer que os moradores estão contra o progresso, a noite, e o turismo. Que somos uns ‘velhos do Restelo’ e que esquecemos que Lisboa estava a cair há uns anos e que agora está óptima e fantástica. Claro, não moram cá. Vêm passear, vão aos pastéis de Belém, e é calminho.”. Isto não é verdade? Não são estas palavras e esta realidade que as Pessoas dizem e sofrem? Lisboa: Paisagem Cultural Protegida e Património da Humanidade. É esta a proposta que ajudaria à paz e ao equilíbrio entre Permanência vs Mudança, entre Preservação vs Desenvolvimento. Então, porque os Responsáveis pela Política e pelo Património se calam, e nada fazem? Pedro Manuel-Cardoso |
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