Oficina Žilĕch DISCUSSION WHAT IS HERITAGE, TODAY? Exhibition: PATRIMOLOGIA LEXICON 26Nov2016| Saturday | 11h| Horský Park | Bratislava | Slovakia Pedro Manuel-Cardoso Proclamation WANTED For building the New Identity and the New Human Act THE HERITAGE REWARD: $1Museum |
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«O QUE É O PATRIMÓNIO, HOJE?» O irresistível impulso contemporâneo de transformar a realidade em Património e pô-la em ‘museus’ ― desde objectos até cidades, e mesmo regiões inteiras ― será um sinal antecipador do futuro, ou é apenas um mero reflexo da conjuntura do presente? Dá a sensação que algo está prestes a terminar. Seja qual for a resposta o Património parece ajudar-nos a estar juntos num sentimento de humanidade global, decididamente antropocêntrico, que talvez seja o melhor antídoto para enfrentarmos a Mudança, seja ela real ou imaginada. Há quem diga que foi o Património que construiu o nosso actual conceito de passado (Marstine, 2006; Gable, 2006), outros dizem que esculpiu a identidade cívica da pessoa no mundo global (Crane, 2000; Saumarez Smith, 2006; Bennett, 2006; Conn, 2010), outros dizem que sem ele não conseguiríamos pensar o mundo (Preziosi, 2009) nem a sociedade (Fyfe, 2006). É tudo isto que a Patrimologia/Museologia tem de estudar. Talvez o frenesim contemporâneo de tudo querer patrimonizar e de tudo querer musealizar seja a expressão de alguma transformação prestes a ocorrer - tal como quando precisamos de «arrumar as coisas antes de uma longa viagem». Não por causa de qualquer arbítrio infundado. Mas por causa do mesmo Esquema-de-Sobrevivência (Adaptação) que nos conduziu a sermos o que somos no processo da Vida. Por causa do receio - e da prudência - perante a inevitabilidade da Mudança. Para que tudo não termine para a espécie humana por causa da falta de tempo ou de espaço para onde irmos em resultado de um diletantismo imprudente. Ou por causa das viagens para fora do planeta, prestes a ocorrerem, que lançarão a divergência e a variação para destinos perante os quais não sabemos se mais alguma vez nos iremos encontrar num sítio comum, como nesta nossa atual casa chamada Terra. Talvez seja para isso que sirva a Patrimologia/Museologia. Para nos prepararmos continuamente para a inexorabilidade da Mudança ― essa condição sempre tão potente que faz avançar e, simultaneamente, leva à entropia e ao esquecimento. Não apenas para ficarmos com a memória das obras que fizemos, e somos capazes de fazer, sem se ter que regressar ao início ou refazer uma fase já ultrapassada. Não apenas para ficarmos com a memória do que fomos. Mas também para, através do Património, adquirirmos uma habilidade cada vez mais apurada para escolhermos o que é Relevante. E essa capacidade não é crucial apenas dentro da complexidade de cada contexto social, cultural, ou existencial, é-o também quando defrontamos o desconhecido ou a imprevisibilidade. Os designados «arquivos, bibliotecas, monumentos, museus, palácios, reservas, coleções, acervos, documentários, parques temáticos, paisagens protegidas, silos, bancos de sementes e material genético, bases-de-dados e de meta-dados, sítios-de-interpretação, lugares-de-memória, in-situ ou ex-situ, dispositivos de armazenamento digital, écrans tácteis, holotecas, codificações implantadas no hipocampo dos cérebros humanos, e outros suportes e infraestruturas» servem para envolver alguns tipos de Património para os melhor gerir e preservar, mas jamais se podem confundir com o Património como vulgarmente se tem feito. Então, porquê Conselho Internacional de Museus (ICOM) em vez do Conselho Internacional do Património? Hoje, perante a falência das Diversidades foram as Identidades que se perderam. Quer as que nasceram através da Diversidade do Antigo Regime (absolutismo, fisiocratismo, burguesismo, enciclopedismo), quer as que se instituíram através da Diversidade Moderna (progresso, nacionalismo, colonialismo, estruturalismo, funcionalismo), quer as que foram proclamadas com a Diversidade Pós-Moderna (relativismo cultural, multiculturalismo, hibridação, etnicidade, transnacionalismo, luta de género, pós-colonialismo, globalização, etc.). O Relativismo Cultural matou a Diversidade Moderna e criou o Consumidor Universal, que era o grande objetivo da Indústria no pós-2.ª Guerra Mundial. Razão pela qual foi ele que financiou, nas universidades mais reputadas e ricas, essa ideologia Relativista, que a seguir foi exportada para a mentalidade dos futuros Clientes-alvo. No Cosmopolitismo Pós-Moderno deixámos de saber se somos do kosovo, da Crimeia; se somos europeus ou curdos; se somos de áfrica, da américa, da europa, ou da ásia. Se somos Contra ou a Favor, se somos o Outro ou o Mesmo. Nas votações ditas Democráticas essa oscilação é bastante nítida, são sempre 50% para cada lado, com ínfimas diferenças. A Diversidade, paradoxalmente, foi morta pelo multiculturalismo e pela multietnicidade nesse modo Pós-Moderno. As Identidades anteriores que construíram os anteriores Patrimónios foram desabando uma por uma. Em nome de reivindicações justas, mas do foro da Política e do Social, relacionadas com a pobreza e com as migrações provocadas pelos conflitos bélicos. Hoje, estamos todxs misturados sem sabermos qual é o Território e a Identidade. Não há recuo possível. Nem o populismo nem o nacionalismo conseguirão reverter esta Realidade Atual. Será que os que vivem hoje na Amazónia não quererão ser como os citadinos de New York, tal como no Passado todos queriam ser Atenienses ou Romanos? Assim sendo, o Património e os Museus Hoje, talvez, mais do que o trabalho de Memória ou de Preservação, se devessem constituir mais como um instrumento de construção de uma Nova Identidade e de um Novo Agir Humano? A Patrimologia redefine a Museologia. Coloca à disposição da sociedade e dos responsáveis pela gestão do Património ferramentas conceptuais e técnicas que permitem guiar uma reforma. Torna possível uma reformulação das políticas patrimoniais, e permite adoptar um índice de avaliação do trabalho patrimonial/museológico que lhe confere mais eficácia e eficiência. Uma reorientação cuja premissa é a de que o Património tem um papel importante no projecto ambicioso de sobrevivermos à Mudança. E de que só terá utilidade se puder ser ‘lido’ pela cognição e pela compreensão dos presentes e dos vindouros… pertençam eles a que etnia, corpo, sociedade, ou cultura pertencerem; estejam elxs a que distância estiverem. Sobretudo, se o Património e os Museus puderem servir a um sentido neguentrópico da nossa Continuidade. Razão pela qual faz sentido o Cartaz que mandei imprimir para este Debate (ver imagem acima) copiando a forma daqueles que se usavam no mítico sonho do Oeste Americano… «Procura-se o Património que consiga construir, Hoje, essa nova Identidade e esse novo modo de agir humano, cuja recompensa será oferecer-lhe um museu». Pedro Manuel-Cardoso |