[Museum] Para uma vida decente nos museus em Portugal
Em 2017 serão realizadas eleições para o ICOM Portugal. Nos últimos 10
anos, o ICOM Portugal consolidou-se como organização de discussão da
museologia e dos museus em Portugal. Vários profissionais e museus
assumem atualmente posições de responsabilidade na vida do ICOM, ao
mesmo tempo que as várias iniciativas públicas têm vindo a debater
questões relevantes para a museologia e os museus em Portugal.
Paradoxalmente, nos museus portugueses o dia-a-dia é vivido com
perplexidade e sem rumos definidos.
Conscientes de que o ICOM Portugal, lugar onde se reúnem de forma
livre os profissionais de museus portugueses, pode e deve protagonizar
um discurso de afirmação dos Direitos à Cultura com base nos
Princípios do seu Código de Ética e na afirmação da dignidade do
trabalho nas organizações culturais, de acordo com as Recomendações e
Convenções da UNESCO, os museólogos comprometidos com a afirmação da
relevância da Função Social dos Museus apresentam o seguinte manifesto
aos candidatos ao ICOM Portugal.
Manifesto da Museologia Social
1. Desde à uma década a crise económica arrastou a Europa e Portugal
para uma acentuada austeridade que tem como resultado a diminuição do
financiamento público dos museus e na cultura;
2. Os museus portugueses, sentiram esta crise financeira e enfrentaram
as medidas de austeridade através da redução do financiamento público
(muitas vezes sem verdadeiro fundamento) e a ausência duma estratégia
para o setor, que entre várias consequências teve como efeito a
estagnação das carreiras profissionais, a limitação do acesso às
profissões museais e o cerceamento da criatividade e da inovação nos
museus;
3. Não obstante essa crise, os Museus portugueses não cessaram de ser
procurados pelos seus visitantes. Em 2014 do 392 museus que
responderam ao ?Inquérito à cultura?(num universo de 674 museus
registados pelo INE) foram visitado por cerca de 11,7 milhões de
visitantes. Este é um número que tem vindo a aumentar acentuadamente,
sobretudo nas áreas turísticas.
4. Em 2014, completaram-se 10 anos sobre a publicação da Lei-Quadro
dos Museus Portugueses (Lei 47/2004), uma lei que se tem mostrado
desadequada à realidade museológica portuguesa e ineficiente para a
afirmação das políticas para a cultura pelo que a sua revisão se torna
cada vez mais necessária e urgente.
5. A relevância dos museus para a vida económica local e para o
desenvolvimento das comunidades é hoje um dado inquestionável. A
recente Recomendação da UNESCO, Sobre a ?Proteção e a Promoção dos
Museus e coleções, da sua Diversidade e Função na Sociedade?,(2015),
desafia os museus e os governos a dialogarem com este conjunto de
questões que são centrais na criação do futuro sustentável.
?Os Estados Membros são encorajados a apoiar a função social dos
museus que foi enfatizada na Declaração de Santiago do Chile de 1972.
Em todos os países é crescente a percepção de que os museus
desempenham uma função chave na sociedade, e constituem um fator de
integração e coesão social. Nesse sentido, eles podem ajudar as
comunidades a enfrentar as profundas mudanças na sociedade, inclusive
as que levam a um aumento da desigualdade e à dissolução de laços
sociais.
*Os museus são espaços públicos vitais que deveriam dedicar-se a toda
a sociedade e podem, portanto, desempenhar uma função importante no
desenvolvimento de laços sociais e coesão, na construção da cidadania,
e na reflexão sobre as identidades coletivas. Os museus deveriam ser
lugares abertos a todos e comprometidos com a acessibilidade física e
cultural para todos, inclusive grupos desfavorecidos. Eles podem
constituir-se como espaços para a reflexão e o debate sobre temas
históricos, sociais, culturais e científicos. Os museus devem também
promover o respeito aos direitos humanos e à igualdade de gênero. Os
Estados Membros devem encorajar os museus a desempenhar todas essas
funções?.
6. Os museus são hoje lugares de encontro dos atores do
desenvolvimento, de promoção da inclusão social e da igualdade de
género, do respeito pelas diversidades e de criação e inovação nas
comunidades e territórios.
7. É necessário afirmar a relevância do financiamento às políticas
públicas para a cultura, (1% do PIB ) e assegurar a eficácia desse
financiamento às organizações culturais;
8. Importa apelar á APOM para que incorpore as recomendações da UNESCO
acima referidas e consequentemente, passe a assumir um lugar de
referência na dinamização da museologia em Portugal internamente e na
sua dimensão internacional.
9. É necessário denunciar a ineficiência e a desadequação das
políticas atuais de recrutamento para os museus portugueses, a nível
central e municipal, bem como os atuais processos de gestão dos
recursos humanos que não correspondem às reais necessidades das
instituições
Neste contexto importa que os profissionais de museus portugueses nas
diferentes áreas de atuação possam:
1. Usufruir de condições de trabalho digno: Os museólogos,
conservadores, técnicos de restauro, deve ser assegurada a dignidade
no trabalho, através de níveis de remun erção adequado, regras de
progressão na carreira e participação nos processos de gestão das
organizações culturais onde se inserem;
2. Usufruir da oferta de formação inicial específica, de qualificação
profissional ao longo da sua vida profissional e do intercâmbio de
experiências com outros profissionais, em particular no reforço de
ações inovadoras no espaço da lusofonia;
Neste contexto importa que as instituições museológicas portugueses possam:
1. Participar ativamente, em articulação juntamente com as outras
organizações do setor cultural, na formulação, acompanhamento e
avaliação das políticas públicas para a cultura;
2. Trabalhar para que a cultura e os museus em Portugal sejam dotados
de uma estratégia prespetivada a curto, médio e longo prazo;
3. Assegurar o acesso ao usufruto do património, oferecendo os
serviços adequados e ajustados às comunidades onde se inserem, de
forma a contribuíram para o desenvolvimento sustentável, a inclusão
social e a dignidade humana;
4. Promover a discussão sobre a legislação sobre o direito à cultura,
à participação na vida cultural e no desenvolvimento de ações
afirmativas da cultura como instrumento de desenvolvimento sustentado.
Lisboa, 5 de janeiro de 2017
Para aderir
https://www.openpetition.eu/pt/petition/online/para-uma-vida-decente-nos-museus-em-portugal
Para conhecer mais sobre a Museologia Social em Portugal
https://museologiaemovimentosociais.wordpress.com/para-uma-vida-decente-nos-museus-em-portugal/
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