Lista museum

Mensagem

[Museum] Património Pós-Humano?

To :   <museum@ci.uc.pt>
Subject :   [Museum] Património Pós-Humano?
From :   "PedroManuelCardoso" <mty@mail.tmn.pt>
Date :   Thu, 19 Jan 2017 11:11:04 -0000

            Sobre a mensagem “Pós-Antropologia? Que acontecerá ao Património?” fomos interpelados por três «comunidades» que perseguem aparentemente finalidades diferentes (CulturalAnthropology1, Med Anthro Theory2; e Take A Part3)

 

1. Med Anthro Theory [An open-acess journal in the anthropology of heath, illness, and medicine/ Amsterdan and Paris, 18/01/2017]

 

2. Take A Part [is an arts project for Plymouth communities, we grow and eat together, make film, broadcast, and commission work that responds to local needs. We always working on lots of projects so take a look at our News page. If you want to get involved or have questions, get in touch. We work with great artists, great people and great communities (Take A Part, Plymouth, England, 18/01/2017)].

 

3. CulturalAnthropology [the journal of the Society for Cultural Anthropology /American Anthropological Association 2017, edited by Dominic Boyer, James Faubion, & Cymene Howe, USA, 18/01/2017]

 

Pretendiam saber porque tínhamos substituído a coisa4 «Ser-Humano» pela coisa4 «um fenómeno desconhecido que, antropocentricamente, começámos por chamar Ser-Humano».

 

4. Coisa (in “Léxico de Patrimologia”, Pedro Manuel-Cardoso, 2016) –

i) O conceito de Objeto enquanto prova e consciência da Diferença e da Mudança está presente no seguinte texto: “Le monde est un tout formé de choses et de changements. Du point de vue muséologique un objet est le document le plus authentique de la réalité, la preuve directe de ce qui unit les choses et les changements. Un objet n’a de valeur documentaire pour l’homme que s’il répond à certaines exigences. Le muséologue extrait les objets de leur situation originelle parce qu’ils peuvent satisfaire le besoin de connaissance, d’éducation ou de comparaison des valeurs. Ce qui intéresse la muséologie, c’est donc la valeur documentaire authentique de la réalité qui est contenue dans le produit culturel” (Evžen Schneider, 1977, Museum (UNESCO), vol. XXIX, n.º 4, pág. 189).

 

ii) Heidegger estabeleceu uma distinção conceptual entre Coisa e Objeto. “(…) O que não se mostra a si mesmo (…) aquilo que não aparece, a saber, uma «coisa em si mesmo», é, segundo Kant, por exemplo, o todo do mundo, uma tal coisa é até mesmo o próprio deus. Todo o ente que de todo em todo é, designa-se, na linguagem da filosofia, uma Coisa” (Martin Heidegger, 1977/2007, “A Origem da Obra de Arte”, Biblioteca de Filosofia Contemporânea, Lisboa: Edições 70, p. 14).

 

iii) A Coisa, para Heidegger, ao ser um «Todo», portanto, não tem «Partes», é indecomponível na sua singularidade, apesar de poder fazer parte de algo. Neste texto de Heidegger, vemos que é necessário um olho-de-fora (no exterior da Coisa) para que ocorra o «aparecer» ou o «mostrar» (logo, a Exposição).

 

            Respondemos que, de facto, na nossa opinião, trata-se da presunção e da sobranceria de pretendermos fazer equivaler Juízo a Evidência, provocando um erro no objeto-que-se-pretende estudar/compreender. Demonstrámo-lo em 3dez2016 (www.youtube.com/watch?v=U1z9B9FQAuE).

            E que aqueles que apressadamente acusaram Descartes de “erro” (e são muitos) equivocaram-se.

            Equivocaram-se também porque, com a cegueira tecnológica (acompanhada da tal sobranceria contemporânea), menosprezaram os dados da Etnografia das Sociedades Humanas desde o início do processo de hominização até à atualidade. Dados e resultados que foram postos nos arquivos, bibliotecas, e museus como se fossem algo do Passado que estaria ultrapassado.

            Respondemos que aquilo que estamos a fazer Hoje, em termos científicos e de investigação, é como apanhar novamente o Beagle – novamente com a mesma curiosidade e com o mesmo impulso incontrolável. Mas agora, para percorrer a viagem humana de transformação do próprio corpo até alcançar a matéria indivisível/indecomponível que lhe permita habitar uma casa que subsista a todas as vicissitudes da Adaptação. Esse desejo incontrolável a que Aristóteles chamou de “Teleonomia”, Kant de “Finalidade», o Evolucionismo darwinista de “Evolução”, Bateson de “Neguentropia”, e a atual definição da química e da biologia chamou “Auto-organização e Auto-catálise”, etc.

            Ao olharmos para trás, percebermos que esse percurso deixou uma marca perene. Investigada por muito poucxs.

            É desse Fenómeno que se trata. Foi sempre Ele - desde as Sociedades ditas Primitivas, passando pelos Pré-Socráticos, por Aristóteles, Kant ou Heidegger, até à atual definição de Vida usada hoje pela química e pela biologia/antropologia.

            Não nos iludamos. Continua a ser esse o objeto-de-estudo/compreensão. Sobretudo, depois de percebermos o quanto estamos separados dos «Corpos» (também designados por: suportes; casas; habitáculos; membranas; infraestruturas) com a robótica e a inteligência artificial.

            Evidentemente que esta realidade provoca mudanças. Por exemplo, no modo de sermos «Comunidade», naquilo que consideramos que a Arte é, no conceito de Ser-Humano, na escolha e classificação daquilo que é Património, e assim por diante. Razão pela qual as perguntas vieram aparentemente de sítios diferentes.

            A conclusão que parece razoável, talvez seja, dizermos que o Dever de Inventário que o Património permite é, sejam quais forem as diferenças de opinião, um benefício que justifica plenamente os recursos e o árduo trabalho que lhe dedicamos.

Pedro Manuel-Cardoso

 

 


Mensagem anterior por data: [Museum] Museus e Monumentos, em dois artigos hoje no Publico Próxima mensagem por data: [Museum] Newsletter Património Cultural N.º 219
Mensagem anterior por assunto: [Museum] Património Cultural: Prevenção, Resposta e Recuperação de Desastres Próxima mensagem por assunto: [Museum] Para agendar - 15.ª Edição do Festival de Teatro de Tema Clássico, Sintra