1. A descoberta da “Estrutura da Relevância” (ou “Estrutura do Valor Patrimonial”) mostrou que existem Critérios de Relevância codificados no cérebro, gerados durante a filogénese (portanto, não apenas na espécie humana), que induzem a priori a escolha de determinados Objetos/Coleções/Eventos a serem considerados (classificados) «Património» («aquilo que é escolhido para ser transmitido às gerações seguintes por ser relevante»). 2. Em breve será possível uma descrição bioquímica e uma descrição dos percursos sinápticos e neuronais desses critérios/codificações da Relevância. 3. Os «objetos/documentos/eventos considerados Património» são simultaneamente atualizadores e interruptores desses critérios/codificações. Razão pela qual os objetos são milhares de milhões e variam consoante cada Cultura, enquanto os critérios são apenas oito (analogia, abdução, diferença, dedução, indução, anterioridade, procedência, simultaneidade). Objetos diferentes servem para atualizar os mesmos Valores Patrimoniais no seio da espécie humana. A antropologia chama a este fenómeno «plurissignificação e polissemia do património». 4. São esses critérios/codificações que organizam, assimetrizam, hierarquizam, e constroem o Valor dos Objetos/Documentos/Eventos em cada Contexto/Época/Ecologia por parte de um determinado Grupo/Comunidade/Sociedade. 5. Contata-se, assim, que esses critérios/codificações da Relevância são cruciais para a Sobrevivência/Adaptação/Continuidade das espécies (incluindo a Humana). Porque o que está em causa é a capacidade de fazer as escolhas certas sobre aquilo que é principal e secundário para Subsistir. 6. O Património é a instituição e o comportamento que permite fazer a cartografia do que é essencial em cada Contexto/Ecologia. E esse trabalho é decisivo para cada Grupo/Comunidade/Sociedade conseguir ter êxito Adaptativo (e reproduzir a sua Identidade). 7. Esta descoberta implica uma mudança na responsabilidade pela Gestão do Património, e no modo de a operacionalizar na prática, obrigando a alterar uma parte dos procedimentos atuais. E provocará a prazo uma alteração no espaço interno dos Museus e instituições congéneres. Porque um País (ou uma Cultura) passará a utilizar o Património não apenas para Preservar a Identidade e a Memória (como tem sido feito usualmente), mas também, cada vez mais, para escolher o caminho que a Desenvolverá na competição com os outros/outras. 8. O modo de conceber e gerir o Património mudará em relação ao que tem sido. 9. A Patrimologia (museologia) da Compreensão irá aos poucos ocupando o seu lugar ao lado da Patrimologia (museologia ) da Memória. Os museus da memória darão lugar aos museus da compreensão, apesar das coleções e dos objetos serem os mesmos. 10. A razão para esta mudança é simples de entender. Deriva do facto do controlo e manipulação da Memória estarem a sofrer uma profunda mutação a nível técnico e científico. Por exemplo, hoje, passa a ser possível usar o ADN de cada célula para armazenar cerca de 300 mil terabytes (!) de informação (American Chemical Society, “The engineering of DNA for the long-term storage of digital information”, 17aug2015). Toda essa memória passa a ser possível numa pequena gota, aos nossos olhos, microscópica. As bases-de-dados a nível mundial armazenam hoje quase toda a memória do mundo, que fica à distância de um toque num receptor móvel ligado à rede (WWW). 11. A Memória continuará a ser imprescindível, porém, cada vez mais, será um assunto bioquímico, matemático e algorítmico. Assim sendo, a Compreensão dos Objetos (materiais, imateriais, ou digitais) que estão na Memória passará a ser, inevitavelmente, e cada vez mais, a competência e o serviço a prestar aos Visitantes/Comunidade pelos Museus. 12. CONCLUSÃO. Os Museus/Monumentos/Arquivos/Bibliotecas/Parques e as outras infraestruturas do património terão que se adaptar a esta mudança. Terão que construir inevitavelmente, num patamar superior de gestão e de coordenação, uma Infraestrutura Documental e Comunicacional muito mais potente. E terão que exigir das Políticas Públicas um Funcionamento Sistémico para os Serviços, Recursos e Investimentos muito mais eficiente. Pedro Manuel-Cardoso |