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[Museum] Redes de museus VIII: o caso das festas antoninas de Lisboa

To :   Museum <museum@ci.uc.pt>
Subject :   [Museum] Redes de museus VIII: o caso das festas antoninas de Lisboa
From :   Pedro Pereira Leite <pedropereiraleite@ces.uc.pt>
Date :   Tue, 13 Jun 2017 23:21:35 +0100

Lisboa formosa sai à rua neste 13 de junho. Os aromas adocicados dos jacarandás misturam-se com os vapores das sardinhas. A maresia do Tejo invade a cidade. Inevitavelmente, lisboetas de gema, lisboetas migrantes, saloios e alentejanos da margem sul, conquistam as sinuosas ruelas de alfama e da mouraria. Sobem ao castelo e tomam conta da Graça, antiga almofala do infanção Henriques, autoproclamando Rex Portucallensis, acompanhados de hordas de nórdicos germânicos e francos cruzados em demanda da salvação das almas na guerra justa.

Aqui encontravam-se os velhos ritos pagãos, deuses infames que por alturas do solstício celebravam a vida caçando as tágides indefesas embarcados em tuk-tuks coloridos, quão cavaleiros do apocalipse, trespassando à espadeirada aqueles que entalaram o Moniz na praia homónima, metamorfoseada depois da remoção dos ciganos em centros comerciais chineses, hoje centro da diversidade cultural.

Uma das questões que ainda não consegui entender nesta cultura popular lisboeta é esta devoção a António, quando afinal é Vicente o orago da cidade.

Segundo consta na lenda, o mártir Vicente supliciado no levante terraconnensis nos conturbados tempos de Diocleciano, sepultado no cabo homónimo (promontório sacrum), foi trasladado para Lisboa, a mando do conquistador cristão. Ainda segundo a lenda, as relíquias do santo, teriam viajado para Lisboa numa barca, acompanhadas por dois corvos: As duas aves presentes na heráldica da cidade, que ladeia a barca da bandeira alvinegra hoje hasteada nos imóveis do burgomestre Medina (curioso como há nomes que confundem com o cargo), adiante...As relíquias estão guardadas, segundo a lenda na Sé de Lisboa, para onde foram trasladadas após o terramoto de 1755.

Em 1175 que Rei Afonso, o primeiro, já formalmente investido na dignidade régia pelo Sumo Pontífice, mais uma vez segundo lenda, mandou construir, fora das muralhas da cidade, o mosteiro de São Vicente, para orago da cidade: Essa mesma igreja que seria posteriormente construída, nos tempo da monarquia dual, e que é atualmente panteão da dinastia bragantina (curioso como escolheram como lugar para o eterno descanço a casa feitos por aqueles que expulsaram. ( será que São Vicente é património português ou será que um dia será reclassificado). De tanta lenda feita, algo deve ter eco no tempo, digo eu,

É certo que António nascido e criado em Lisboa, ali mesmo junto à Sé, onde ainda hoje se pode visitar uma pequena Cripta no museu Antoniano, é uma figura popular entre os alfacinhas, patrono das namoradeiras com grão na asa ( já agora por uma questão de género dos que gostam de dar bicadas).

Ora,  segundo se sabe o culto a este santo terá tido origem nos colégios jesuítas a partir de meados do seculo XVI e sobretudo no século XVII. E isto parece que não é lenda. São essas as festas em sua honra, que mais mais tarde são aproveitadas pelo António de Chumbo, para corolário da Política do Espírito para as festas da cidade. e como era coisa enraizada a coisa pegou e é hoje ferozmente defendida como tradição autentica. 

Talvez seja uma escolha natural que entre a nobreza castelhana aristocrática e a lusitanidade republicana, o povo acabasse por escolher o lado mais profano. Afinal narrativas de legitimação do poder, ou apenas tradições inventadas, ou talvez a tensão entre tradição e modernidade para os mais distraídos

Enfim símbolos duma cidade num certo tempo, ou se quisermos museus vivos. Até estou admirado desta coisa de assar sardinha no meio da rua ainda não ser classificado como PIH. O museu da cidade deve andar distraído? Ou a EGAC ainda não percebe que pode ter a festa ao vivo em junho e durante o resto do ano numa versão revivalista no novo terminal de cruzeiros. antecipando o concurso publico criativo que se chame "museu das festas".

Não seria muito mais original, depois da experiência da entrada no estuário, desembarcar num museu do que num "terminal de cruzeiros " ou "cais das cebolas", onde se está em Festa permanente. 

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Pedro Pereira Leite
(Ph.D) MINOM Board

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