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MUSEU: UMA NÓTULA Muito esquematicamente, e para quem nunca se abeirou destas questões: Museu pré-moderno - basicamente constituído pela
coleção, obtida de forma aleatória, em que o que une os objetos uns aos outros
é a personalidade, o gosto, as obsessões do colecionador. Elemento de prestígio
e gosto pessoal, o museu é um repositório de curiosidades sobrepostas, de
raridades surpreendentes, de provas de viagem e de conhecimentos exóticos ou
esotéricos, de objetos estranhos ou raros da “natureza” ou da “cultura”,
convivendo lado a lado. As peças podem estar identificadas pela sua origem,
região, eventualmente data de obtenção, mas a sua disposição espacial não
obedece senão a critérios qualitativos, subjetivos. É a sobreposição. Estes
gabinetes de coisas raras e “maravilhosas” nobilitam quem os possui e pode
mostrar aos seus convidados: o museu foi sempre (e ainda hoje é) um elemento de
prestígio, ligado à canonização de objetos, frequentemente associada a um
culto, a um fetichismo: poder ver de perto o diferente, mesmo que através de um
vidro, ou mesmo poder tocar-lhe sensualmente, ter esse privilégio da
manipulação, etc. Mas nesta fase o museu está muito ligado à experiência de uma
pessoa e de uma elite, que se distingue pelo seu gosto pelas antiguidades,
raridades, ou coisas exóticas e estranhas: trata-se de um processo de
nobilitação pela posse do acessório. Museu moderno – o museu moderno obedece a critérios
totalmente diferentes, à racionalização pública e universal, tanto do espaço
como do tempo. As coisas depostas e expostas são para usufruto potencialmente
de todos, ordenadas segundo taxonomias, cronologias, toda uma grelha que
instaura um discurso universal de organização, de ordem estável. A coleção
serve agora a identidade: de um país, de uma região, de uma atividade, etc. –
serve para fixar essa ideia de conjunto e de essência. Mostrar, através de
objetos, um poder que já não é o das curiosidades reunidas, mas o do domínio
racional e imperial do mundo. O museu é um dispositivo de poder político. Ele
fecha, canoniza, guarda e cuida do raro, do valioso, mas para o expor aos olhos
do público maravilhado, dos cidadãos que ali reconhecem qualquer coisa de seu
(ou do outro), ou seja, a confirmação de uma ordem, de uma estabilidade, de um
progresso da história humana, assente num determinado território. Tudo
devidamente etiquetado, contextualizado, hierarquizado segundo princípios
racionais. O museu é, como a cidade com as suas lojas e montras espetaculares,
um dispositivo de exibição, de encenação, ligado ao culto moderno da “Cultura”
como elemento nobilitador e elevador social, da viagem, do domínio colonial,
etc. Neste tipo de museu é fundamental a coleção permanente, que conta uma
história, tem uma narrativa organizada que conforta, informa, e reforça o
sentimento de pertença a uma comunidade. Museu pós-moderno – este museu desconstrói o anterior: a
sua racionalidade é de novo a sobreposição, mas a sobreposição do contingente,
do fluido. O valor é agora o que circula, a pós-modernidade detesta o fixo, o
permanente, tal como o capital: parado, não rende. É preciso substituir o
programa identitário, permanente, por projetos que se sucedem, o modelo pela
série. O museu pode manter uma coleção permanente de referência, que
eventualmente o tornou conhecido como lugar de culto, mas não é tanto dessa
aura e dessa contemplação silenciosa que multidões do turismo de massas vão à
procura. A excitação substituiu o saber. O que importa é o novo (como nas
televisões o “direto”...) a excitação juvenil do surpreendente. E vai-se de
sensação em sensação, porque é o divertimento, e não a contemplação, que
verdadeiramente interessam à sociedade hedonista. O museu torna-se lugar de
eventos, de permanentes reformulações, de identidades compósitas e fluidas,
como as dos próprios indivíduos pós-modernos, capturados pelo consumo e pela
ideia de escolha individual (a partir de um número calculado de combinatórias
elementares, é claro). Cultura é tudo, e por isso há museus de tudo, mesmo do
imaterial: o que importa é o espaço em si, destacado do mundo exterior, mas na
realidade sendo, como sempre, o seu reverso. O que se vai ver não são só as
peças, as instalações, mas também os outros que estão lá para ver, para
circular. A figura do curador de exposição substitui, no seu protagonismo, o do
antigo diretor ou do seu staff. Eles existem, mas cada exposição é por
assim dizer uma obra de arte, e é ela que atrai público, e portanto rende
financeiramente em termos de bilheteira. O museu é uma máquina de fazer
dinheiro. Lugar de eventos, preenche o seu vácuo através desta movimentação e
mobilização constante dos indivíduos. voj |
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