O Museu da Gestualidade no passado dia 6 de agosto, na Rua Garrett (Chiado, Lisboa), expôs quatro obras de Impronuncialismo: “Post Mental Sculpture”, “Beyond Scales”, “Difference’s End” e “Post Screen Painting”. A curadoria ficou a cargo do autor, que a inseriu na Instalação designada “A Nova Máquina de aceder ao Real”. Para o Debate sobre o Património essas criações, naquilo que são e mostram, provavelmente não terão muito interesse. O que releva será a discussão que se lhes seguiu, e que aqui partilho um pouco. Porque toca na questão da Língua e do Património, questões em acesa discussão na atualidade. Concretamente, uma Amiga de longa data perguntou se esta Exposição não viria no mesmo sentido do que a atual confluência entre James R. Doty e Nicolas Ballet, ocorrida em 2017, a propósito da herança de William S. Burroughs. Para abreviar, o problema pode ser posto na forma da seguinte interrogação: «A língua/linguagem/fala são um vírus informático imerso no processo computacional que a mente humana é?». Era esta confluência, entre J.R. Doty e N. Ballet/W.S. Burroughs, a que se queria referir.
A única coisa que, enquanto autor, posso dizer, é que dentro do acto criativo não me é dada a possibilidade de ver-de-fora. E que, enquanto curador, tenho a consciência dessa herança. Sei que dizem que entre esses dois mundos (o de fora e o de dentro) há uma comunicação (uma porta, uma ponte, uma passagem, uma equivalência ER=EPR, etc.). Talvez, embora não acredite nisso tanto assim. Enquanto antropólogo poderei ver um qualquer esquema-de-sobrevivência útil para o processo de perpetuidade/continuidade humana assente no tetra mecanismo «variação-adaptação-seleção-transformação». Mas da janela de cada um dos nove heterónimos que habitam os humanos (axiologia, cosmologia, epistemologia, ética, estética, metafísica, ontologia, política, teologia) poderia ter disso nove olhares. E de cada um dos onze combustíveis do agir humano ([Ge.(Mo.Fi.Ag.Il.Mi.Al.Lu.Pa.)/Ep.Tp.]) poderia sentir onze diferenças. Agora, enquanto patrimólogo, o que constato é que a intenção do autor nessas quatro obras de impronuncialismo é alcançar o “fim da Diferença” e a “abolição dos sinais distintivos”. Por considerar que são a ideologia que subjaz ao atual regime de discernimento humano. Uma melhor Compreensão depende da superação desse limite. Apenas nesse desejo, e só nele, se poderia encontrar a tal ligação que a referida Amiga interrogou. Porém, atente-se no título da obra de Nicolas Ballet que referenciei por 2016a. Usa nesse título simultaneamente o francês e o inglês. E nesta mensagem ainda lhe junto o português. Três línguas. Será esta miscigenação que vai infectar as línguas dominantes no futuro, fragmentando o seu poder imperial, e criando uma crioulização só acedível, outra vez, por grupos humanos particulares e mais pequenos? Para alguma coisa, e por uma qualquer razão, a Vida criou a Diversidade… Seja como for, doravante, o Debate sobre a Língua/Linguagem/Fala poder-se-á reduzir apenas ao contexto linguístico, semiológico, ou comunicacional? Não me parece. Pedro Manuel-Cardoso |
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