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[Museum] Património, Língua e Arte: A gota que transborda.

To :   <museum@ci.uc.pt>
Subject :   [Museum] Património, Língua e Arte: A gota que transborda.
From :   "PedroManuelCardoso" <mty@mail.tmn.pt>
Date :   Mon, 7 Aug 2017 16:11:21 +0100

 

                O Museu da Gestualidade no passado dia 6 de agosto, na Rua Garrett (Chiado, Lisboa), expôs quatro obras de Impronuncialismo: “Post Mental Sculpture”, “Beyond Scales”, “Difference’s End” e “Post Screen Painting”. A curadoria ficou a cargo do autor, que a inseriu na Instalação designada “A Nova Máquina de aceder ao Real”.

            Para o Debate sobre o Património essas criações, naquilo que são e mostram, provavelmente não terão muito interesse. O que releva será a discussão que se lhes seguiu, e que aqui partilho um pouco. Porque toca na questão da Língua e do Património, questões em acesa discussão na atualidade.

            Concretamente, uma Amiga de longa data perguntou se esta Exposição não viria no mesmo sentido do que a atual confluência entre James R. Doty e Nicolas Ballet, ocorrida em 2017, a propósito da herança de William S. Burroughs.

            Para abreviar, o problema pode ser posto na forma da seguinte interrogação: «A língua/linguagem/fala são um vírus informático imerso no processo computacional que a mente humana é?». Era esta confluência, entre J.R. Doty e N. Ballet/W.S. Burroughs, a que se queria referir.

 

 

De facto, Burroughs afirmou em 1964 que: “Le langage même est un virus. Les images, après avoir été collectées, permettent au «complot Nova» de controller n’importe quel individu déjà intoxiqué” (William S. Burroughs, 1964, “Nova Express”).

 

                E Nicolas Ballet em “Révolution bioéléctronique. Les musiques industrielles sous influence burroughsienne” (in «Les Cahiers du Musée National d’Art Moderne», Centre Pompidou, 40/2017, pp.75-95) afirma que essa consciência de Burroughs (expressa em “The Soft Machine”, 1961; “The Ticket That Exploded”, 1962; “Nova Express”, 1964), de uma suposta entidade biológica viral que habitaria o ADN-humano, que deveria ser erradicada por uma desprogramação consciente através de métodos artísticos radicais (sonoros e performativos), influenciou o regime visual e sonoro a partir dos anos 60 do século passado. Que, nessa passagem dos anos 60 para os anos 70 e 80 do século passado, o uso do grafismo-filme-performance-vídeo sofreu uma mudança que se tornou num movimento alternativo à “cultura Rock” e ao Punk. Traçando desde aí a herança patrimonial da música adjetivada de “Industrial”. Incluindo nessa influência de William S. Burroughs e nesse tumultuoso início muitos dos ícones do património artístico visual e musical/sonoro pós-moderno. Por exemplo: Bauhaus, Futurismo, Dadaísmo, Cabaret Voltaire (Sheffield, 1973), NON, SPK, Throbbing Gristle e Genesis P-Orridge (“Entertaining the World («Industrial music for Industrial People»”, 1977), e outros.

 

                Nicolas Ballet insiste novamente nessa tese nos trabalhos recentes (“How to Operate Your Brain. Déprogrammation hypnotique de Genesis P-Orridge et Timothy Leary”, 2016a: Optical Sound; “Musique industrielle et esthétisation de l’horreur. Les tactiques de choc du groupe SPK”, 2016b: Autre Musique).

 

 

            A única coisa que, enquanto autor, posso dizer, é que dentro do acto criativo não me é dada a possibilidade de ver-de-fora. E que, enquanto curador, tenho a consciência dessa herança. Sei que dizem que entre esses dois mundos (o de fora e o de dentro) há uma comunicação (uma porta, uma ponte, uma passagem, uma equivalência ER=EPR, etc.). Talvez, embora não acredite nisso tanto assim.

Enquanto antropólogo poderei ver um qualquer esquema-de-sobrevivência útil para o processo de perpetuidade/continuidade humana assente no tetra mecanismo «variação-adaptação-seleção-transformação». Mas da janela de cada um dos nove heterónimos que habitam os humanos (axiologia, cosmologia, epistemologia, ética, estética, metafísica, ontologia, política, teologia) poderia ter disso nove olhares. E de cada um dos onze combustíveis do agir humano ([Ge.(Mo.Fi.Ag.Il.Mi.Al.Lu.Pa.)/Ep.Tp.]) poderia sentir onze diferenças.

            Agora, enquanto patrimólogo, o que constato é que a intenção do autor nessas quatro obras de impronuncialismo é alcançar o “fim da Diferença” e a “abolição dos sinais distintivos”. Por considerar que são a ideologia que subjaz ao atual regime de discernimento humano. Uma melhor Compreensão depende da superação desse limite. Apenas nesse desejo, e só nele, se poderia encontrar a tal ligação que a referida Amiga interrogou.

            Porém, atente-se no título da obra de Nicolas Ballet que referenciei por 2016a. Usa nesse título simultaneamente o francês e o inglês. E nesta mensagem ainda lhe junto o português. Três línguas.

Será esta miscigenação que vai infectar as línguas dominantes no futuro, fragmentando o seu poder imperial, e criando uma crioulização só acedível, outra vez, por grupos humanos particulares e mais pequenos? Para alguma coisa, e por uma qualquer razão, a Vida criou a Diversidade…

            Seja como for, doravante, o Debate sobre a Língua/Linguagem/Fala poder-se-á reduzir apenas ao contexto linguístico, semiológico, ou comunicacional? Não me parece.

Pedro Manuel-Cardoso

 

 


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