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[Museum] A propósito de Newsletter e ou Boletim

To :   <museum@ci.uc.pt>
Subject :   [Museum] A propósito de Newsletter e ou Boletim
From :   "PedroManuelCardoso" <mty@mail.tmn.pt>
Date :   Fri, 25 Aug 2017 12:35:01 +0100

 

Sem pretender polemizar, nem ferir susceptibilidades, permitam abordar este assunto na perspetiva do Património.

Recorrer ao Impronuncialismo talvez seja útil.

Isto é, brincar com o paradoxo de, a propósito das Palavras, imaginarmos um sítio e um tempo no Futuro ao qual ainda não chegámos e, portanto, a uma situação em que não dispomos das palavras usadas nesse momento (razão pela qual são impronunciáveis agora). Porque entretanto nos transformaremos em algo que desconhecemos. Essa transformação temos a certeza que vai ocorrer, porque foi assim que chegámos aqui, ao que somos agora, e à língua (código), à linguagem (ao modo de usar o código), e à fala (a cada acto de atualização do uso pelos falantes) que utilizamos no Presente. Essa transformação anatómica e cognitiva é a lição e o legado que a Filogenia nos ensina, tanto na história dita Natural como na história dita Humana.

Perante esse Futuro (aquele onde os nossos bisnetxs terão que encontrar no Mundo rendimentos e recursos, e estabelecer contactos e relações com os Outros) o problema da «Carta a dar Novas» ou «Newsletter» adquira outra perspetiva.

E é aqui que este assunto permite refletir sobre o Património. Porque encontramos uma encruzilhada com três caminhos.

Ou optamos pelo caminho de conceber o Património como algo fixo e imutável, em que a nossa missão é conservar e salvaguardar sem infligir qualquer alteração, por acharmos que é assim que melhor vencemos a entropia (Conservadorismo ou Preservacionismo). Ou optamos pelo caminho de conceber o Património como algo que é necessário re-investir e alterar para que o seu Valor não se perca, e se adapte às mudanças de Contexto, por acharmos que essa é a melhor maneira de vencer a entropia (Desenvolvimentismo). Ou optamos simultaneamente pelo Preservacionismo e pelo Desenvolvimentismo em proporções diversas, para dar à nossa Gestão do Património uma perspetiva menos radical, mais pragmática, e mais prudente (Gradualismo ou Pragmatismo).

Ou seja, o caminho para a defesa da Língua Portuguesa (existirá algures um código unificado e consensual da Língua Portuguesa?) é preservá-la radicalmente sem lhe introduzir alterações? Ou é mudá-la constantemente destruturando-a, e permitindo todas as invasões de neologismos e outras miscigenações? Ou é ir fazendo uma alteração gradual e prudente?

Caber-nos-á a Nós responder? Não serão os nossos bisnetxs que terão que responder face ao Contexto de sobrevivência que será o deles? Onde estão aqui as palavras deles, se ainda nem sequer nasceram? Essa resposta deles não é, por isso, impronunciável para Nós?

Ora, é desse Impronuncialismo que podemos verdadeiramente responder e debater este assunto. Porque é a única situação sensata e possível agora.

A Língua Portuguesa poderá pretender ser um código fechado e imóvel, imposto por uma normalização legislativa e política a todos os Falantes. Ou poderá ser algo mais flexível e adaptativo. Não sabemos o que vai acontecer, e já cá não estaremos para pronunciar palavras sobre essas opções.

Logo, o mais que podemos fazer é imaginar cenários e proclamar utopias.

A que sugiro é que o Sistema de Ensino exija a cada ser-humano designado por «Portuguesa/Português/Portuguxs» que fale no mínimo cinco Línguas. E que vá exercitando e usando a capacidade de «Falar Português» para estabelecer uma relação fraterna e global com todas as Culturas. Gil Vicente, Camões, e Pessoa não eram exímios nas línguas dos Outros? Desconfia até que Pessoa traduziria «Newsletter» por «Carta a dar Novas» e não por «Boletim Informativo».

A utopia que este assunto merece talvez seja a de desejar que haja mais oportunidades de trabalho para os tradutores e especialistas em Línguas formados pelas universidades portuguesas. Para que Portugal possa liderar essa Mudança Civilizacional a que assistimos hoje, em que ao nosso redor só vemos multietnicidade e multiculturalismo. Que as alterações ao Código (Língua) não sejam consideradas um atentado ao Património, mas um modo de transformar «aquilo que hoje é a Língua Portuguesa» numa Língua com mais poder comunicativo e relacional. Mesmo que tenha que mudar a forma e a sonoridade que tem agora. Mesmo que acabe por ser algo transformado, que hoje é para Nós… Impronunciável.

Por exemplo, cinco Boletins Informativos em cinco Línguas diferentes. Para que os excelentes trabalhos que se fazem em Portugal no Património sejam conhecidos pelo Mundo.

Sim, é necessário pedir ao Governo mais orçamento para pagar essa utopia e esse trabalho na DGPC. Mas não foi isso que prometeu antes das eleições? Não é composto por Partidos que até exigiram 1% do PIB? Ou estarei equivocado?

Pedro Manuel-Cardoso

 


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