Um ano de MAAT: “550 mil visitantes, 30% estrangeiros”. Um “não-Lugar” disse M. Augé (1995). Referindo-se a aeroportos, centros comerciais, e outros sítios congéneres. Por não possuírem alma nem substância. Uma espécie de cemitério-dos-vivos, por onde circulam milhares de não-Pessoas. Aquelas que dizem sofregamente que estiveram lá, foram lá, sem verdadeiramente terem lá estado, nem nunca desejarem terem sido lá metidas. Em que a “vida-vivida” não coincide com a “vida-dita/narrada”, e muito menos com a “vida-experienciada”. Como aqueles Visitantes do Louvre que se amontoam para não-Ver a Gioconda, e tantos outros exemplos pelo mundo fora. O “não-Lugar” de Augé lembra o “Stalker” de Andrei Tarkovski (1979), onde as Pessoas ao visitarem a “Zona” se transformam em andarilhos, deixando-se dissolver em nadas, seredipendiando por nenhures. Neste caso, Pessoas que decidem, durante algumas horas, dissolverem-se em filas e em multidões intermináveis. E que ajudam, com a sua energia e vontade (muitas vezes sem quererem), a construir as «não-Coisas» e os «não-Lugares». Em que, com a sua presença, sem se aperceberem, matam a Paisagem para onde olham e os Sítios que pisam. Paradoxalmente, aquilo que era o motivo da Visita. Quase sempre trajadas com a mesma farda e usando os mesmos utensílios, exatamente iguais aos dos vizinhos efémeros, sem disso se aperceberem. Passam pelo Real e pelos «objetos» sem terem tempo de os ver. Sem construírem a identidade do Lugar, e sem permitirem construir a sua própria Identidade através dele. E depois, pior ainda, vem a narrativa dos que lucram com esta decadência. Aquelxs que exibem as “estatísticas” como um troféu de caça. Ora essas multidões são exatamente o indicador do insucesso cultural. Porém, honestamente convictos, até chamam a esse declínio (passo a citar): «um contributo para a Cultura», ou «um pólo cultural». Basta olhar para as fotografias que são exibidas. Que mostram uma espécie de paquete imóvel, sem conseguir navegar pelo Tejo, mas pejado de visitantes que ao longe parecem … abelhas. Em Lisboa, O MAAT é um exemplo deste tipo de não-Museu. Mais um a poluir a Paisagem, e desconstruir a Identidade e a Cultura. Pedro Manuel-Cardoso |
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