A perversão do Tempo e de Património está curiosamente bem exposta em duas ocorrências em Lisboa neste mês de outubro de 2017. Uma, ocorrerá no próximo dia 25out2017, no Grémio Literário, a pretexto do “centenário da publicação do primeiro e único número da revista Portugal Futurista”. A outra, está a decorrer desde o dia 13out2017 na Fundação Calouste Gulbenkian. Referimo-nos à Exposição intitulada “Ana Hatherly e o Barroco. Num Jardim Feito de Tinta”. Uma Colega e Amiga que connosco partilhou a visita à exposição da Gulbenkian, ao tomar conhecimento da ocorrência no Grémio Literário, fez um comentário que, por decoro, não posso aqui transcrever, mas que coloco noutras palavras: De um lado, no Grémio Literário, o lado masculino do Género. Um coro composto por Santa-Rita Pintor, Mário de Sá-Carneiro, Almada Negreiros, Fernando Pessoa/Álvaro Campos, e outros, a vociferarem em voz alta a apologia do Homem (“…as forças desconhecidas, para obrigá-las a prostrar-se diante do homem”), a gritarem o “desprezo pela mulher”, e a afirmarem: “Nós queremos destruir (….) e combater o moralismo, o feminismo (….)” (ver adiante os parágrafos 7, 9 e 10 do “Manifesto do Futurismo” de Marinetti de 20fev1909). No outro lado, na F.C.Gulbenkian, o lado feminino do Género. Um coro composto por “feministas” e pela exaltação da Mulher através de inúmeras iniciativas sobre “As Mulheres na Arte” (texto da Programação para outubro/novembro 2017). Quase se poderiam imaginar duas manifestações simultâneas e antagónicas, ambas ruidosas, com cartazes, e vitupérios, quer à porta do Grémio quer à da F.C. Gulbenkian protagonizadas, cada qual, por estes dois lados do Género. Mas não é esse aspecto que motiva esta mensagem. Ela está longe de se meter nesta «guerra de Género» (LGBTQIA+) que advém da ingenuidade de se confundir o «corpo-humano» com o do «Ser-humano». O Ser-humano não tem Género, como é óbvio hoje para a ciência e para a hermenêutica (ver, por exemplo, o artigo de Achlille WEINBERG, 2016, “Ma chienne, mon portable et moi : quand les frontières vacillent”, Sciences Humaines, numéro spécial “Nature/Culture: la fin des frontières?”, n.º 281, mai 2016, pp. 34-41). A questão que vale a pena debater é a concepção do Tempo e de Património que estas duas ocorrências proclamam e defendem. Que são diferentes, e também antagónicas. Num lado, a Curadoria da Exposição de Ana Hatherly colocou no início do percurso expositivo a seguinte concepção de Tempo: “ (….) a incorporação do Passado no Presente (.…) cria o estranho, o insólito, o desconhecido (….)” (Ana Hatherly). No outro lado, o “Manifesto do Futurismo” de Marinetti que vai ser homenageado no Grémio Literário em 25out2017, adopta a seguinte concepção de Tempo: “O Tempo e o Espaço morreram ontem. Nós já estamos a viver no absoluto, pois já criamos a eterna velocidade onipresente.” (ver adiante o parágrafo 8 do “Manifesto do Futurismo” de Marinetti de 20fev1909). Ora, a concepção de que “a incorporação do Passado no Presente” cria “o estranho, o insólito, e o desconhecido” (Ana Hatherly) é uma ideia perversa e prejudicial ao Património. Que tem sido muito vulgarizada. Por autores como W. Benjamin, Choay, Traverso, … e outrxs. É uma meia-verdade e uma meia-mentira. Porque se refere apenas a metade daquilo que acontece (tanto a nível social e cultural, como a nível bioquímico e molecular). É uma concepção perversa e prejudicial porque não considera a parte do Tempo e do Património que se transforma em Presente, e foge a esse destino de «excedente», de «excesso», de «coisa que pode ser guardada ou posta de lado», de «resto», de «lixo», de «peça de museu/arquivo/biblioteca», de «coisa que já não é Relevante», ou de «aquilo que não interessa ao Presente». É uma concepção que deixa escapar essa metade do Tempo e do Património que se transformam e se integram (se disfarça, se esconde) automaticamente naquilo que é o «vulgar», o «usual», o «necessário», o «agora». Ou seja, prejudica e perverte aquela parte do Tempo e do Património que, apesar de vir do Passado, continua a ser Presente por causa da relevância e da importância que continua a ter no processo de transmissão que garante a Continuidade («Adaptação»). De facto, há uma parte do Tempo e do Património que não perde a sua força transformativa do Presente. É uma parte que não se deixa coisificar, que não deixa que a separem do «Actual». É um pouco essa a diferença de ideologia entre a museologia defendida pelo ICOM e a defendida pelo MINOM. Ora, é contra essa metade defendida pela Curadoria da Exposição de Ana Hatherly que o Manifesto do Futurismo se insurgia (por exemplo em): “Nós queremos destruir os museus, as bibliotecas, as academias de toda natureza (….)” (ver adiante o parágrafo 10 do “Manifesto do Futurismo” de Marinetti de 20fev1909). Duas ocorrências culturais neste mês de outubro que refletem as contradições, os paradoxos, e as complexidades que a «Evidência» e o «Visível» (através da mediação das expografias e das curadorias) colocam hoje ao Património e às «infraestruturas responsáveis pela sua gestão». Pedro Manuel-Cardoso
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