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[Museum] Hatherly e Marinetti: A perversão do Tempo e de Património a propósito de duas ocorrências em Lisboa

To :   <museum@ci.uc.pt>
Subject :   [Museum] Hatherly e Marinetti: A perversão do Tempo e de Património a propósito de duas ocorrências em Lisboa
From :   "PedroManuelCardoso" <mty@mail.tmn.pt>
Date :   Wed, 18 Oct 2017 19:02:32 +0100

 

A perversão do Tempo e de Património está curiosamente bem exposta em duas ocorrências em Lisboa neste mês de outubro de 2017.

Uma, ocorrerá no próximo dia 25out2017, no Grémio Literário, a pretexto do “centenário da publicação do primeiro e único número da revista Portugal Futurista”.

A outra, está a decorrer desde o dia 13out2017 na Fundação Calouste Gulbenkian. Referimo-nos à Exposição intitulada “Ana Hatherly e o Barroco. Num Jardim Feito de Tinta”.

 

Uma Colega e Amiga que connosco partilhou a visita à exposição da Gulbenkian, ao tomar conhecimento da ocorrência no Grémio Literário, fez um comentário que, por decoro, não posso aqui transcrever, mas que coloco noutras palavras:

De um lado, no Grémio Literário, o lado masculino do Género. Um coro composto por Santa-Rita Pintor, Mário de Sá-Carneiro, Almada Negreiros, Fernando Pessoa/Álvaro Campos, e outros, a vociferarem em voz alta a apologia do Homem (“…as forças desconhecidas, para obrigá-las a prostrar-se diante do homem”), a gritarem o “desprezo pela mulher”, e a afirmarem: “Nós queremos destruir (….) e combater o moralismo, o feminismo (….)” (ver adiante os parágrafos 7, 9 e 10 do “Manifesto do Futurismo” de Marinetti de 20fev1909).

No outro lado, na F.C.Gulbenkian, o lado feminino do Género. Um coro composto por “feministas” e pela exaltação da Mulher através de inúmeras iniciativas sobre “As Mulheres na Arte” (texto da Programação para outubro/novembro 2017).

Quase se poderiam imaginar duas manifestações simultâneas e antagónicas, ambas ruidosas, com cartazes, e vitupérios, quer à porta do Grémio quer à da F.C. Gulbenkian protagonizadas, cada qual, por estes dois lados do Género.

 

Mas não é esse aspecto que motiva esta mensagem. Ela está longe de se meter nesta «guerra de Género» (LGBTQIA+) que advém da ingenuidade de se confundir o «corpo-humano» com o do «Ser-humano». O Ser-humano não tem Género, como é óbvio hoje para a ciência e para a hermenêutica (ver, por exemplo, o artigo de Achlille WEINBERG, 2016, “Ma chienne, mon portable et moi : quand les frontières vacillent”, Sciences Humaines, numéro spécial “Nature/Culture: la fin des frontières?”, n.º 281, mai 2016, pp. 34-41).

 

A questão que vale a pena debater é a concepção do Tempo e de Património que estas duas ocorrências proclamam e defendem. Que são diferentes, e também antagónicas.

Num lado, a Curadoria da Exposição de Ana Hatherly colocou no início do percurso expositivo a seguinte concepção de Tempo: “ (….) a incorporação do Passado no Presente (.…) cria o estranho, o insólito, o desconhecido (….)” (Ana Hatherly).

No outro lado, o “Manifesto do Futurismo” de Marinetti que vai ser homenageado no Grémio Literário em 25out2017, adopta a seguinte concepção de Tempo: “O Tempo e o Espaço morreram ontem. Nós já estamos a viver no absoluto, pois já criamos a eterna velocidade onipresente.” (ver adiante o parágrafo 8 do “Manifesto do Futurismo” de Marinetti de 20fev1909).

 

Ora, a concepção de que “a incorporação do Passado no Presente” cria “o estranho, o insólito, e o desconhecido” (Ana Hatherly) é uma ideia perversa e prejudicial ao Património. Que tem sido muito vulgarizada. Por autores como W. Benjamin, Choay, Traverso, … e outrxs.

É uma meia-verdade e uma meia-mentira. Porque se refere apenas a metade daquilo que acontece (tanto a nível social e cultural, como a nível bioquímico e molecular).

É uma concepção perversa e prejudicial porque não considera a parte do Tempo e do Património que se transforma em Presente, e foge a esse destino de «excedente», de «excesso», de «coisa que pode ser guardada ou posta de lado», de «resto», de «lixo», de «peça de museu/arquivo/biblioteca», de «coisa que já não é Relevante», ou de «aquilo que não interessa ao Presente».

É uma concepção que deixa escapar essa metade do Tempo e do Património que se transformam e se integram (se disfarça, se esconde) automaticamente naquilo que é o «vulgar», o «usual», o «necessário», o «agora». Ou seja, prejudica e perverte aquela parte do Tempo e do Património que, apesar de vir do Passado, continua a ser Presente por causa da relevância e da importância que continua a ter no processo de transmissão que garante a Continuidade («Adaptação»).

De facto, há uma parte do Tempo e do Património que não perde a sua força transformativa do Presente. É uma parte que não se deixa coisificar, que não deixa que a separem do «Actual». É um pouco essa a diferença de ideologia entre a museologia defendida pelo ICOM e a defendida pelo MINOM.

 

Ora, é contra essa metade defendida pela Curadoria da Exposição de Ana Hatherly que o Manifesto do Futurismo se insurgia (por exemplo em): “Nós queremos destruir os museus, as bibliotecas, as academias de toda natureza (….)” (ver adiante o parágrafo 10 do “Manifesto do Futurismo” de Marinetti de 20fev1909).

 

Duas ocorrências culturais neste mês de outubro que refletem as contradições, os paradoxos, e as complexidades que a «Evidência» e o «Visível» (através da mediação das expografias e das curadorias) colocam hoje ao Património e às «infraestruturas responsáveis pela sua gestão».

 

Pedro Manuel-Cardoso

 

 

Manifesto do Futurismo

[Filippo Tommaso Marinetti, Le Figaro, 20fev1909]

 

1 Nós queremos cantar o amor ao perigo, o hábito da energia e do destemor.

2 A coragem, a audácia, a rebelião serão elementos essenciais de nossa poesia.

3 A literatura exaltou até hoje a imobilidade pensativa, o êxtase, o sono. Nós queremos exaltar o movimento agressivo, a insônia febril, o passo de corrida, o salto mortal, o bofetão e o soco.

4 Nós afirmamos que a magnificência do mundo enriqueceu-se de uma beleza nova: a beleza da velocidade. Um automóvel de corrida com seu cofre enfeitado com tubos grossos, semelhantes a serpentes de hálito explosivo... um automóvel rugidor, que correr sobre a metralha, é mais bonito que a Vitória de Samotrácia.

5 Nós queremos entoar hinos ao homem que segura o volante, cuja haste ideal atravessa a Terra, lançada também numa corrida sobre o circuito da sua órbita.

6 É preciso que o poeta prodigalize com ardor, fausto e munificiência, para aumentar o entusiástico fervor dos elementos primordiais.

7 Não há mais beleza, a não ser na luta. Nenhuma obra que não tenha um caráter agressivo pode ser uma obra-prima. A poesia deve ser concebida como um violento assalto contra as forças desconhecidas, para obrigá-las a prostrar-se diante do homem.

8 Nós estamos no promontório extremo dos séculos!... Por que haveríamos de olhar para trás, se queremos arrombar as misteriosas portas do Impossível? O Tempo e o Espaço morreram ontem. Nós já estamos vivendo no absoluto, pois já criamos a eterna velocidade onipresente.

9 Nós queremos glorificar a guerra - única higiene do mundo - o militarismo, o patriotismo, o gesto destruidor dos libertários, as belas ideias pelas quais se morre, e o desprezo pela mulher.

10 Nós queremos destruir os museus, as bibliotecas, as academias de toda natureza, e combater o moralismo, o feminismo e toda vileza oportunista e utilitária.

11 Nós cantaremos as grandes multidões agitadas pelo trabalho, pelo prazer ou pela sublevação; cantaremos as marés multicores e polifônicas das revoluções nas capitais modernas; cantaremos o vibrante fervor noturno dos arsenais e dos estaleiros incendiados por violentas luas elétricas; as estações esganadas, devoradoras de serpentes que fumam; as oficinas penduradas às nuvens pelos fios contorcidos de suas fumaças; as pontes, semelhantes a ginastas gigantes que cavalgam os rios, faiscantes ao sol com um luzir de facas; os piróscafos aventurosos que farejam o horizonte, as locomotivas de largo peito, que pateiam sobre os trilhos, como enormes cavalos de aço enleados de carros; e o voo rasante dos aviões, cuja hélice freme ao vento, como uma bandeira, e parece aplaudir como uma multidão entusiasta.

 

# É da Itália, que nós lançamos pelo mundo este nosso manifesto de violência arrebatadora e incendiária, com o qual fundamos hoje o "Futurismo", porque queremos libertar este país de sua fétida gangrena de professores, de arqueólogos, de cicerones, e de antiquários. Já é tempo de a Itália deixar de ser um mercado de belchiores. Nós queremos libertá-la dos inúmeros museus que a cobrem toda de inúmeros cemitérios.

 

 

MANIFESTO DEI FUTURISMO

[Filippo Tommaso Marinetti, Le Figaro, 20fev1909]

 

1. Noi vogliamo cantare l’amor del pericolo, l’abitudine all’energia e alla temerità.

2. Il coraggio, l’audacia, la ribellione, saranno elementi essenziali della nostra poesia.

3. La letteratura esaltò fino ad oggi l’immobilità pensosa, l’estasi e il sonno. Noi vogliamo esaltare il movimento aggressivo, l’insonnia febbrile, il passo di corsa, il salto mortale, lo schiaffo ed il pugno.

4. Noi affermiamo che la magnificenza del mondo si è arricchita di una bellezza nuova: la bellezza della velocità. Un automobile da corsa col suo cofano adorno di grossi tubi simili a serpenti dall’alito esplosivo.... un automobile ruggente, che sembra correre sulla mitraglia, è più bello dellaVittoria di Samotracia.

5. Noi vogliamo inneggiare all’uomo che tiene il volante, la cui asta ideale attraversa la Terra, lanciata a corsa, essa pure, sul circuito della sua orbita.

6. Bisogna che il poeta si prodighi, con ardore, sfarzo e munificenza, per aumentare l’entusiastico fervore degli elementi primordiali.

7. Non v’è più bellezza, se non nella lotta. Nessuna opera che non abbia un carattere aggressivo può essere un capolavoro. La poesia deve essere concepita come un violento assalto contro le forze ignote, per ridurle a prostrarsi davanti all’uomo.

8. Noi siamo sul promontorio estremo dei secoli!.. Perchè dovremmo guardarci alle spalle, se vogliamo sfondare le misteriose porte dell’Impossibile? Il Tempo e lo Spazio morirono ieri. Noi viviamo già nell’assoluto, poichè abbiamo già creata l’eterna velocità onnipresente.

9. Noi vogliamo glorificare la guerra — sola igiene del mondo — il militarismo, il patriottismo, il gesto distruttore dei libertarî, le belle idee per cui si muore e il disprezzo della donna.

10. Noi vogliamo distruggere i musei, le biblioteche, le accademie d’ogni specie, e combattere contro il moralismo, il femminismo e contro ogni viltà opportunistica o utilitaria.

11. Noi canteremo le grandi folle agitate dal lavoro, dal piacere o dalla sommossa: canteremo le maree multicolori e polifoniche delle rivoluzioni nelle capitali moderne; canteremo il vibrante fervore notturno degli arsenali e dei cantieri incendiati da violente lune elettriche; le stazioni ingorde, divoratrici di serpi che fumano; le officine appese alle nuvole pei contorti fili dei loro fumi; i ponti simili a ginnasti giganti che scavalcano i fiumi, balenanti al sole con un luccichio di coltelli; i piroscafi avventurosi che fiutano l’orizzonte, le locomotive dall’ampio petto, che scalpitano sulle rotaie, come enormi cavalli d’acciaio imbrigliati di tubi, e il volo scivolante degli aereoplani, la cui elica garrisce al vento come una bandiera e sembra applaudire come una folla entusiasta.

 

È dall’Italia, che noi lanciamo pel mondo questo nostro manifesto di violenza travolgente e incendiaria, col quale fondiamo oggi il «Futurismo», perchè vogliamo liberare questo paese dalla sua fetida cancrena di professori, d’archeologhi, di ciceroni e d’antiquarii.

 

 

 

 





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