A polémica que ocorreu a propósito do jantar no Panteão Nacional talvez devesse merecer mais atenção. Culpar a direção do Panteão, ou a DGPC, ou o Despacho n.º 8356/2014 de 24 de junho de 2014, é iludir a questão. Esteve muito bem a Directora do Panteão em não se demitir. O Regulamento permitia banquetes. Estava lá explicitamente mencionado. Logo, foi um compromisso social aceite por Todxs (governos e governados, entidades públicas e privadas, esquerdas ou direitas, e demais geringonças). Culpar estes ou aqueles, exibir melindre para vencer o concurso público de quem é mais nacionalista, e outras farsas, é pura hipocrisia. É fugir à responsabilidade pela Gestão do Património. Porquê? Porque esta polémica revelou algo que merecem reflexão por parte dos Responsáveis pelo Património. E também pela Patrimologia (isto é, pela convergência interdisciplinar da arquivologia, biblioteconomia, arquivologia, documentação, conservação, curadoria, e todas as outras «logias» que estudam e gerem o Património). Algo que se revelou, e merece atenção. De facto, a polémica não teve quase nenhuma repercussão na «População que vive atualmente em Portugal». Circunscreveu-se a uma minoria de especialistas e aos políticos do costume. Quase ninguém ligou ao assunto. A questão obriga a formular algumas perguntas. Será que «xs atuais habitantes do território Português» constroem a sua Identidade com quem está nesses túmulos e cenotáfios? Haverá um Património que está a passar ao lado da atual Política de Património, com o qual «xs atuais habitantes do território Português» se identificam mais? No sentido que Ph. Descola deu à transmissibilidade do valor patrimonial, não se deveria começar a acautelar esses novos objetos patrimoniais que são relevantes para «xs atuais habitantes do território Português»? Por exemplo, quem passeasse hoje em Belém e nos Jerónimos conseguiria traçar uma linha terrestre (uma fronteira) capaz de separar os europeus dos asiáticos, os americanos do norte dos do sul, os africanos do norte dos do sul, o género do transgénero, um País de Outro? Perante a multiplicidade de Pessoas de culturas e etnias diferentes que se cruzavam nesse território, fará sentido (doravante) traçar fronteiras geográficas para a Identidade e para a propriedade dos objetos patrimoniais? Fará algum sentido falar, por exemplo, em «União Europeia» e Países? Quem é capaz de traçar uma linha que separe aquilo que está hoje miscigenado, e ocupa efectivamente o território? Os objetos patrimoniais relevantes, hoje, não são construções e obras produzidas por equipas compostas por Pessoas de diversas nacionalidades (seja nas empresas, nas universidades, ou nos eventos culturais)? O que é de facto, hoje, o Panteão Nacional, e para que serve afinal? O Regulamento e do Despacho n.º 8356/2014 de 24 de junho de 2014, e a corresponde complacência de Todxs, não será o sinal do Tempo? De que não sabemos fazer dele (do Panteão) mais do que (passo a citar) “jantares, cocktails, …”? O que está a acontecer ao Património que não esteja a acontecer à Identidade e à Cultura? As respostas talvez fossem úteis para ajudar a ter consciência da Realidade, e, quiçá, a redefinir o caminho. Pedro Manuel-Cardoso |
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