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Tenho seguido, e apreciado, as intervenções do Pedro neste e noutros fora. E tenho-as ocasionalmente discutido com prazer, em reuniões públicas. Uma vez concordando com elas; outras vezes discordando.
Relativamente ao comentário (ou desabafo) abaixo gostaria observar, como aliás tenho feito em diversas ocasiões em que participo em debates com colegas ligados à chamada “nova museologia” (já antiga agora, porque o tempo não perdoa…) ou, como eu prefiro considerar, à museologia comunitária, que mais de 85% dos membros do ICOM são europeus e arrisco dizer que, destes, muito mais de metade serão profissionais de “museus tradicionais”. Não será por isso demasiado “pedir ao lobo que dispa a pele”?
Se fôssemos por outra via, a do chamado “mercado dos museus” (uso o termos “mercado” intencionalmente, porque dele me distancio), encontraríamos uma situação ainda mais esmagadora, decorrente dos gigantescos investimentos em espaços, colecções, profissionais e públicos feitos quer por países capitalistas ocidentais, quer por “tigres asiáticos” (e outros).
Não será também esta uma realidade? E certamente com maior peso no ICOM, porque dela decorrem as amplíssimas maiorias sociológicas que o constituem? Penso que sim e que representa perigosa cegueira não o admitir, reduzindo o conceito de “realidade” àquilo que mais se preza.
Como resolver esta equação?
Uma via é aquela que muitos dos profissionais dos museus activos no ICOM, e o ICOM como um todo, tem persistentemente seguido: procurar explorar pontes que permitam acomodar todas as diferentes mil e uma maneiras de “ser museu”. Obviamente que uma tal postura remete inexoravelmente para algum conservadorismo conceptual. Por exemplo: o abandono do conceito de “instituição” para o museu tem sido ultimamente defendida em contexto de “museologia comunitária”… mas também tinha antes sido em contexto de “museologia empresarial” ou “de mercado”. Por razões opostas, certamente – mas convergentes, no que manda talvez o tal “bom senso conservador icomiano” que não se mexa nela. O mesmo se diga de “sem fins lucrativos” e etc.
Outra via é a da ruptura: jamais no seio do ICOM poderá talvez menos de 10% do seu universo de membros pretender fazer plenamente vingar as suas teses. Melhor será, então, criar organizações alternativas e deixar de “bater com a cabeça na parede”. Esta seria seguramente a saída mais coerente, até porque como tenho dito em múltiplas ocasiões é para mim duvidoso que sejam efectivamente museus muitas das experiências originadas em ambiente de “nova” ou “socio” museologia. Tenho, aliás tido bons e gratificantes “bate-papos” acerca desta matéria: não há nenhuma razão para um certo imperialismo de algumas correntes da museologia, pretendendo aplicar à força o termo “(eco)museu”, em detrimento de “parque”, “centro interpretativo”, “centro cultural”, “ponto de encontro” (ou “de memória”), “casa do povo” ou até “paróquia”. Não basta prosseguir finalidades de desenvolvimento e empoderamento comunitários para ser museu… o que o meu bom amigo Hugues de Varinne, por exemplo (só para referir um dos que mais admiro) até o aceita, a ponto de também considerar comigo que se poderia dispensar bem a designação “museu” em muitos dos casos que ele favorece, mas… trata-se de termos possuído de prestígio e sortilégio tais que “o povo” dele não se quer apartar.
E pergunto eu: haverá muito “povo” dos museus, especialmente muitos profissionais (também aqui a postura conservadora do ICOM se distingue tanto de alguma museologia auto-designada de “social” como de alguma outra orientada pelas “leis do mercado”, porque ambas valorizam em tal dimensão o contributo “voluntário” que bem dispensariam por completo os profissionais), seriamente disponíveis para a ruptura a que acima aludi? Duvido. Duvido porque, bem ou mal, é o enquadramento “conservador” do ICOM, seja no plano dos seus Comités Nacionais, seja no dos seus Comités Internacionais ou de Especialidade, que verdadeiramente constitui e garante o reconhecimento social dos profissionais de museus e dos museus, em todo o Mundo. Sendo ainda mais prosaico: é também esse enquadramento conservador que permite angariar mais de 90% das verbas que são depois distribuídas por toda a rede.
Pelo meu lado, tenho seguido continuarei a seguir a via do compromisso dentro do ICOM. Desempenhando actualmente funções na mais conservadora Aliança Regional, aquela que como disse acima representa mais de 85% do universo dos membros e foi sempre dominada pelo sector mais elitista da organização, procuro abri-la ao universo dos museus comunitários onde, como europeus, temos muito mais a aprender do que a ensinar, de regiões como a América Latina. Tenho promovido conferências, seminários, debates, projectos cooperativos, etc. direccionados para essas formas (eco)comunitárias de ser museu, aliás com algum incómodo das formas mais tradicionais de o ser também. Mas todas me interessam e todas pretendo federar, porque tenho a firme convicção que da nossa unidade, deriva a nossa força.
Luís Raposo
Quoting Pedro Pereira Leite <pedropereiraleite@ces.uc.pt>:
De forma simpática o ICOM internacional, enviou aos seus associados um pequeno cartão de Boas Festas, onde dava conta doas atividades em cursos nos seus diversos comités, bem como atividades futuras.
No passado mês de dezembro reuniu em Edinburgo o Eu-Lac, um projeto em que se encontra envolvido o ICOM Europa, e o nosso museu de Arqueologia, que há menos de um ano foi lançado em Lisboa. Nele foram discutidas questões como a "definição do museu para o século XXI" um tema que tem vindo a ser discutido na comunidade museológica através do conservador ICOFOM, onde em sucessivos seminário tem dado conta as tensões que a defenição de museu atualmente transporta.
Trata-se do velho problema do confronto com a realidade. Quando a realidades escapa das teorias e dos conceitos ou quando a teoria não consegue capturar essa realidade temos duas soluções. Deixar caír as velhas soluções e iventar novas teorias, ou negar a realidade. Galileu, no seu tempo teve essa experiencia.
E já agora que estamos a falar de novas realidades, na Universidade de São Paulo foi agora disponibilizada a dissertação de mestrado de Suzy da Silva Santos sobre "Ecomuseus e Museus Comunitários no Brasil: estudo exploratório de possibilidades museológicas". há velha moda, 700 paginas de informação, consistente e bem trabalhada que dá uma informação detalhada sobre os processos museológicos comunitários e participados no Brasil, da sua diversidade e das diferentes formas como se implantam.
Para quem estiver interessado aqui fica o link.
http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/103/103131/tde-13122017-091321/pt-br.php
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