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[Museum] Defenindo os museus no século XX o caso dos museus de cinema

To :   Museum <museum@ci.uc.pt>
Subject :   [Museum] Defenindo os museus no século XX o caso dos museus de cinema
From :   Pedro Pereira Leite <pedropereiraleite@ces.uc.pt>
Date :   Mon, 08 Jan 2018 11:28:10 +0000

Definindo os Museus do Século XX  O Caso dos Museus de Cinema

Ainda voltando à questão dos conceitos de museu. Temos vindo a refletir sobre a necessidade de aumentar o nosso entendimento sobre organizações que trabalham sobre processos museológicos e patrimoniais. Argumentamos que o atual conceito de museu está ultrapassado, e que é necessário pensar sobre de que forma integramos os processos museológicos contemporâneos nas práticas museológicas. Provavelmente é tempo de abandonarmos a busca da definição do Lugar e passarmos a olhar para os processos.

Noutros lugares tenho vindo a explorar novos espaços de usos das heranças na cidade. Lugares, onde a partir do património se estão a desenvolver processos sociais. Isso está a acontecer na cidade de Lisboa, nas barbas dos seus museólogos conservadores, um pouco por todo o país, na Europa. E é algo que já acontece em África e na América. A Europa, onde a ideia de museu foi inventada, já não consegue construir uma narrativa hegemónica sobre essa ideia, como se entende através da publicação de julho do ICOFOM. Talvez por isso assistimos a que, com algum desespero, a uma tensão sobre a herança da instituição oitocentista.

Em Portugal estes novos processos, de nova museologia como eu lhes chamo, (e não são necessariamente novos museus) são processo que estão vivos e que, com a atual Lei dos Museus, não podem ser considerados como museus. Mas deveriam sê-lo, pois é património vivo que está a formar a vida urbana. E neste capítulo o estado tem como dever assegurar o direito à cultura e ao património para todos e não apenas para alguns grupos da sociedade. E como todos sabemos, em Portugal os museus ainda são lugares para grupos minoritários de elites que se consideram iluminadas, como de resto a recente polémica sobre as questões dos afrodescendentes mostrou, mas que a muito breve trecho, será nítido para outros grupos, no quais por exemplo a comunidade cinguí.


Por muito esclarecidos que sejam os conservadores e demais burocratas do Palácio da ajuda, incluindo este vosso amigo, não passamos duma minoria. E vai sendo tempo de pensar a cultura para todos e com todos. Por isso é também tempo fazer com que os museus ou os lugares da cultura sejam para todos. (e quem diz lugares de cultura poderíamos falar de Galerias de arte, centros e grupos culturais, casas do povo, academias e sociedades de belas artes, ateneus, conservatórios, bandas, filarmónicas e coros, associações cívicas, grupos e ligas de amigos, parques de diversões, teatros, cinemas, bibliotecas, arquivos, museus) aos quais poderíamos acrescentar os coretos e auditórios, os rossios deste país, os adros das igrejas, as ruas das cidades que hoje também eles espaços onde se faz cidadania e cultura.

Um exemplo que costumo usar (a propósito dos equívocos nos museus, procurando demonstrar que o problema não está no substantivo, mas na narrativa que com ele se constrói) é o do museu do cinema.

A História vem contada pelo meu bom amigo José Manuel Costa, (2005) atual diretor da Cinemateca Portuguesa, no nº14-15 da Revista Leitura da Biblioteca Nacional de Lisboa). O texto é muito rico para discutir os processos de patrimonialização de objetos tenológicos, e a ele voltarei noutra ocasião.

O que é relevante nessa história sobre os Museus de Cinema para a definição da ideia de museu no século XX é a seguinte: (e não sei se já notaram, mas a Cinemateca Portuguesa/Museu não faz parte da Rede Portuguesa de Museus e segundo parece nem quer fazer parte) Quando em 1896 um dos pioneiros do cinema inglês, se dirigiu ao British Museum, para oferecer a única cópia das “vidas animadas” de Londres", viu recusada o depósito do objeto. Uma recusa que teve por base o desconhecimento do seu valor patrimonial. Segundo o conservador aquele objeto não tinha lugar no seu "museu". Não tinha um vitrina para o colocar. Em vez de o pensar como problema para resolver, exclui o problema, que é a atual solução dos nossos bons amigos que insistem em ordenar o mundo segundo as suas ideias.

A questão do valor patrimonial dos objetos cinematográficos (que me perdoe aqui o meu amigo Pedro Cardoso Pereira por usar com alguma leviandade esta noção que lhe é tão querida) irá ser desenvolvida à margem da ideia “oficial” de museu,) ainda que muitas vezes a solução passe, por uma questão de identidade por soluções algo híbridas, com maior ou menor presença da palavra museu.

Independentemente disso hoje não duvidamos do valor do cinema como "objeto", seja de arte (também aqui a 7ª das artes lutos para se afirmar), seja com documento (histórico, sociológico e antropológico) tecnológico, político, etc. Há até os defensores da imaterialidade que hoje se azafamam a registar as suas manifestações em "vídeo".

Com o passar dos anos, foram-se desenvolvendo as técnicas de conservação, foram-se desenvolvendo os lugares de conservação – os tais museus do cinema – ou museus de imagem de som. A UNESCO, em 1980 aprovou uma “Recomendação a Proteção e Preservação de Imagens em movimento”, entre nós difundidas pela BAD.

https://www.bad.pt/publicacoes/index.php/cadernos/article/viewFile/886/884

Entre nós, não há dúvida que o Cinema é património nacional, encontrando-se protegido pela Lei de Base do Património Cultural. A questão é saber de que forma a Lei Portuguesa dos Museus se adequa este caso da Cinemateca Nacional/Museu do Cinema.

Olhemos para o caso: Há em Lisboa três espaços da cinemateca. Um, no velho Palácio Foz, na primitiva Cinemateca, hoje vocacionada para as atividades educativas (serviços educativos), onde estão expostos os tradicionais “objetos”. Outro espaço, na Barata Salgueiro, ao pé da Academia de Belas Artes, onde um movimento popular (de opinião publica) nos anos oitenta conseguiu alocar um palacete para o efeito, onde para além de biblioteca especializada, apresenta ciclos de cinema. Exibe as suas coleções. A atividade é completada, pelo Arquivo de Bucelas, construído já no consulado do Ministério de Carrilho, onde mantém o acervo mais sensível. Coleções únicas em muitos casos, algumas das quais, sobre as antigas colónias tive oportunidade de visionar graças à disponibilidade do seu pessoal. A aqui fica uma palavra de reconhecimento à bibliotecária Teresa Borges.

Museu - Sim dizemos nós. Estão lá todas as funções primárias dos museus: conservação/documentação/educação/comunicação. Efetua também, as suas funções secundárias, tal como a UNESCO recomenda. Tem uma Função Social, trabalha com as novas tecnologias. Introduz, nos seus ciclos de programação questões contemporâneas, está inserida em redes internacionais, faz ciclos de filmes sobre migrações, sobre género, sobre as mulheres no cinema, sobre a diversidade cultural, sobre o cinema Ibero-americano, participa na programação cultural da cidade.

É certo que a exibição dos seus objetos está limitada à programação. O mesmo sucede nos museus tradicionais, onde as exibições são construídas e (raramente) renovadas. É certo que está em conformidade com a Lei dos Museus, mas o normativo que segue é outro.

Ou seja, embora não tenhamos dúvida de que é um museu, o que não aconteceu no passado, e há hoje maior proximidade entre a cinemateca e os arquivos e bibliotecas do que com os museus portugueses. Algo que deveria preocupar o ICOM

Hoje a Cinemateca mostra a relevância de discutir as questões dos direitos da cultura que hoje marcam as nossas sociedade, uma discussão que os museus portugueses parecem estar distantes por teimarem em serem uma elite, que como aquele príncipe do livro de Tomás de Lampdusa, “O Leopardo", que assiste impotente ao fim do seu mundo procurando salvaguardar as suas joias da voragem do tempo.

Em síntese o que tenho vindo de defender é que há nas nossas cidades novas realidades museológicas que devem ser trabalhadas como processos museológicos. E que a Lei dos Museus deve ser ajustada de forma a incluir as novas realidades, que aí estão, ao invés de, como hoje faz, de as excluir por falta de reconhecimento. Na minha opinião trata-se dum imperativo que advém da constituição de República, quando se afirma a universalidade do direito ao usufruto dos bens culturais, o que implica os deveres dos agentes culturais mediarem esse processo na sociedade. Se a isto juntarmos a omissão parcial na atual Lei dos Museus das "Recomendações da UNESCO sobre os Museus, suas coleções e função na Sociedade", (2015) facilmente se entende que é necessário que há problemas nessa lei e que é necessário reconhecer o problema para o poder resolver.

 

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