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Re: [Museum] Há margem da Lei? A questão da gratuitidade nos museus da DGPC

To :   Luís Raposo <3raposos@sapo.pt>
Subject :   Re: [Museum] Há margem da Lei? A questão da gratuitidade nos museus da DGPC
From :   Isabel Victor <isabelvictor150@hotmail.com>
Date :   Wed, 10 Jan 2018 19:26:14 +0000

Subscrevo totalmente o que aqui afirmou o Luís Raposo. 

Relativamente ao Museu de Arte Popular nao há palavras para descrever as labirínticas escolhas. 

Fiz exactamente , para mim própria a mesma pergunta relativamente ao sentido da anunciada expo Escher . 

Nota: o genial Escher nao tem culpa ! 😊

Saudações museo( lógicas) 

Isabel Victor





No dia 10/01/2018, às 13:00, Luís Raposo <3raposos@sapo.pt> escreveu:

Pedro,
Uso esta via pública porque quero que seja pública a minha solidariedade para com tudo o que dizes.
No plano pessoal, o teu drama de emprego é o de toda uma geração, ou melhor, de gerações sucessivas, desde a das últimas RGAs até às do “salve-se cada um por si”, com estágios, bolsas, “docs” e “pós-docs”. Eu tive a sorte de ter vivido a geração das primeiras RGAs democráticas e de nesse tempo de sonho, em que até as gaivotas nos pareciam ter começado a voar de outra maneira, tudo parecer possível, e mesmo o impossível ser pedido (aprendêramos com os mais velhos, e ainda então muito activos, a consigna do “sejamos realistas, peçamos o impossível”, passada de boca em boca nos idos de Maio de 1968). Tivemos imensa sorte, beneficiámos duplamente: da liberdade e da reinvenção das funções do Estado, entre as quais sobremaneira as da Educação e da Cultura. Obtivemos por isso emprego com alguma facilidade e ocupámos até cargos (falo por mim) que porventura, em normalidade democrática, outros melhor preparados poderiam e deveriam ocupar. Quando penso nesta nossa sorte, sinto angústia profunda pela pouca sorte dos que tiveram a infelicidade de ser mais novos, vivendo em épocas de refluxo do humanista e de avanço do mercantil. Angústia que só não é mortificação interior porque me não envergonho (para mim mesmo, que é o que mais me conta) da maneira como desempenhei as funções que fui exercendo ao longo da vida, e ainda exerço, e sobretudo porque nunca me omiti naquilo que entendo ser os meus deveres cívicos e de solidariedade geracional.
Tens, pois, toda a minha solidariedade pessoal e a minha disponibilidade para quaisquer acções que possam denunciar e corrigir o estado de coisas que referes e constitui um dos maiores dramas dos museus portugueses: o despovoamento em quadros de pessoal, conduzindo a hiatos de transmissão de saberes e amores que irão fatalmente por em risco, ou já põem, os acervos e as funções dos museus.
Quanto à segunda parte do que referes, mais uma vez estou totalmente de acordo com a revolta que exprimes. Os museus, todos os museus, e mormente os museus públicos, deveriam respeitar estritamente a sua função de democratização social, designadamente através de dois instrumentos básicos:
-facilitação do acesso dos cidadãos, o que no meu entendimento passa por alargamento das margens de gratuitidade;
-programação adequada à natureza das suas colecções.
Nenhum destes requisitos é respeitado no caso que referes.
Falas apenas do primeiro, o mais perceptível pelo visitante comum. E tens toda a razão, claro. Por falta de verbas e atracção pelo mercado, os museus (e não só, como tenho dito noutras circunstâncias) tendem a vender o corpo e a alma.
Vendem o corpo quando por exemplo alugam os espaços sem cuidar de garantir que se cumpra sequer a legislação pública, ou subvertendo ardilosamente esse cumprimento: não é em meu entendimento aceitável socialmente, e é de legalidade duvidosa, que um museu público aceite receber exposição de privados que obrigue ao pagamento aos Domingos de manhã, se o bilhete for para o museu no seu todo. Para cumprir a lei, sendo obrigação imposta por relação contratual com o privado promotor da exposição, melhor seria fechar a dita exposição aos Domingos de manhã, garantindo assim a gratuitidade universal.
Mas tão grave como vender o corpo, pior talvez, é vender a alma, que não decorre tanto da falta de verbas,quanto da falta de políticas públicas e de compromisso cívico pessoal. E no caso em apreço é também disso que se trata. Por muito que me penalize ter de criticar colegas, que aliás estimo e tenho por amigos e bons profissionais, não posso de modo algum aceitar que o Museu de Arte Popular esteja praticamente abandonado quanto à sua missão fundamental (Arte Popular) e depois aceite promover exposições de artistas “super-star”, só porque isso talvez dê receita à tutela, fará agitação, terá boa imprensa e atrairá visitantes.
Sobre o assunto escrevi há meses um postal na minha página de Facebook, postal que deu origem a alguns comentários e resposta minha. Creio que é suficientemente claro quanto ao que penso:
https://www.facebook.com/raposo.luis/posts/1500111896774053
Um grande abraço solidário, pois.
Luís Raposo

Quoting Pedro Pereira Leite <pedropereiraleite@ces.uc.pt>:

Há margem da Lei? A questão da gratuitidade nos museus da DGPC

Estou em estado de choque! Que me perdoem os meus caros colegas, por mais este desabafo. Vários colegas que têm escrito protestando contra o azedume dos meus postais aqui colocados. Aqueles que me conhecerem na velhinha Faculdade de Letras de Lisboa, nas chamadas RGA’s onde nos idos anos oitenta, (para quem não é desse tempo Reunião Geral de Alunos) exultava, feito Dom Quixote, contra os moinhos de vento, reconheceram ainda alguma dessa verbe. Mas isso tem uma razão. Uma triste razão. Estou velho e desempregado.

Desempregado, porque este país é assim. Um tipo trabalha. Têm experiência profissional em vários domínios. Faz mestrados, doutoramento, pós-doutoramento. E tudo se esboroa na espuma das ondas.

Enfim, é triste mas ainda me restam alternativas. A emigração. Lá onde o saber e a experiencia de vida é valorizada é alternativa. Mas não é para isso que tomo o vosso tempo.

O que me preocupa é que estou velho. Não porque o tempo não passa, como passa sempra para todos nós, hora a hora. Estou velho porque a DGPC assim me tornou.

A História conta-se em breves palavras. No passado domingo, em passeio familiar na zona de Belém, resolvi visitar a exposição do Escher no Museu de Arte Popular. Andava já algum tempo para ir ver a renovação do museu, e neste domingo friorento, de natal ortodoxo que tinha acabado de celebrar em almoço na zona de Belém, e lá passamos. Entre o museu e a exposição Escher, a família, decide-se pela exposição. Para minha supresa, longa fila de vinte minutos, suportada ao frio. Entramos. Seguranças a andarem dum lado para o outro. Chã alcatifado. Umas jovens nas caixas a cobrarem bilhete e outros a distribuíram audioguias.

Tinha ideia que ao domingo os museus eram gratuitos. Afinal a resolução da Assembleia da Republica nº 38/2017, publicada em 16 de março do ano passado, recomendava ao governo a aplicação da gratuitidade na entrada dos museus do estado.

Recordo-me ainda, que durante o verão, a propósito das audições parlamentares ao Ministro da Cultura no mês de junho (por conta das questões de Foz Côa e de Tomar, ter afirmado que a “A gratuitidade nos museus começa no primeiro domingo de julho “ que segundo as minhas contas foi no dia2 de julho de 2017.

Pois bem, a este vosso amigo, portador do cartão do ICOM (ainda com selo de 2017, mas como sabemos é válido em todos os museus até junho do ano seguinte) foi informado que não havia gratuitidade. E zás, para me calar passa-me um bilhete de sénior.

Fiquei Embatucado. Perante os meus filhos, habitados que estão aos meus contantes enfuriamentos pela recusas na gratuitidade á entrada no museus ao meu cartão de sócio do ICOM, fui apelidado, pela gentil moça e velho rabugento.

Engoli em seco.

Duvidei de mim mesmo.

Duvidei que as entradas nos museus do estado eram gratuitas aos domingo!

Duvidei que que os profissionais do ICOM tivessem entrada gratuita nos museus.

Paguei a tarifa séniot e lá entrei. Angustiado de espírito dei conta que também não conseguia ver bem a exposição.

Não sei porque é que estes museus novos não tem uma luz capaz. Se calhar estou mesmo velho. Será que a bilhética serve para pagar a eletricidade que se consome. Como pago menos tenho direito a menos luz?

Afinal uma lei que não serve para a vida não serve para nada !



 






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