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[Museum] Para além da Digitalidade: COMUNICAÇÃO e OBJETO no Património.

Subject :   [Museum] Para além da Digitalidade: COMUNICAÇÃO e OBJETO no Património.
From :   Pedro Pereira <pedropereiraoffic@outlook.com>
Date :   Wed, 28 Mar 2018 21:22:16 +0000

 

Para além da Digitalidade: COMUNICAÇÃO e OBJETO no Património:

Recentemente têm ocorrido várias descobertas que contribuem para o discernimento da comunicação impronunciável – que irá dominar inevitavelmente o séc. XXI, e alterar o conceito de Objeto que vigora na atual ideologia da Objetividade (ou seja, na atual crença indemonstrável de que o que vemos É).

E terá repercussões em todos os domínios da atual Vida humana. Inclusive no Património. Um exemplo, entre muitos, serve para ilustrar.

Neste exemplo, impronunciável no sentido de haver seres-vivos que comunicam sem palavras nem símbolos (logo, sem imagética nem narrativa); sem usarem o corpo como signo (logo, sem motricidade/gestualidade, imagética, figuratividade, tactilidade, odoridade, oralidade, sonoridade, etc.); sem código (logo, sem gramática nem ADN). Trata-se da descoberta (e descrição bioquímica) de um processo de comunicação utilizado por seres-vivos baseado em iões de potássio e sódio como canais de envio/recepção de informação.

O que permitiu um avanço na compreensão do modo como a Comunicação organiza os seres-vivos em Comunidades, e constrói a Sociabilidade. Só que agora, esses seres-vivos vivem na escala mícron (1–10 μm), alguns até próxima da de Planck.

Os resultados dessa investigação estão disponíveis no artigo de Gabriel Popkin publicado na «Quanta Magazine» (https://www.quantamagazine.org/bacteria-use-brainlike-bursts-of-electricity-to-communicate-20170905/ September 5, 2017)

“Bacteria Use Brainlike Bursts of Electricity to Communicate With electrical signals: cells can organize themselves into complex societies and negotiate with other colonies.”

 

O que este assunto releva para o Património, para além das repercussões práticas que o afetarão, é o alerta para que esta discussão seja feita pelos Responsáveis pelo Património. Porque, mais do que em qualquer outro lugar, é no seio do Património (Patrimologia) que a gestão concreta do Objeto é um trabalho quotidiano e contínuo.

Muitas teorias do Património usam o conceito da Identidade para critério da classificação do «valor patrimonial» dos objetos/coleções/comportamentos.

Ora se passa a não haver territórios e fronteiras geográficas para a Identidade (nesses seres-vivos do artigo de G. Popkin), e se são substituídos pela partilha de símbolos/ícones/representações sem necessidade de um território fixo e respetiva posse; se essa é uma realidade da Vida nessas escalas; se a Vida torna possível isso nessa escala; então, porque não será inevitável vir a ocorrer nas escalas das Sociedades humanas (países, Estados)? Ou seja, a inevitabilidade de uma Cidadania Mundial, concebida como um território de ninguém, completamente livre para a circulação de Pessoas e Bens.

A mudança de escala da Identidade alteraria a sua essência/substância? O território, os países, os monumentos, castelos, palácios, estátuas, coleções e demais objetos que servem agora para a estabelecer e sinalizar, ao mudarem de escala afetá-la-iam?

Provavelmente a Identidade continuaria a necessitar de formas e de coisas/objetos para se especificar e particularizar. Só que agora essa materialidade passaria a estar numa escala diferente da que nos habituámos. Numa escala inacessível ao sistema perceptivo humano (sensorial, háptico, visual, gustativo, feromonal, auditivo, químico). Tornando-se detectável apenas através de máquinas e ferramentas (robots) comandadas por (alguns) Humanos (ou pós-humanos, no sentido de Wittgenstein-Gödel). Simplesmente pelo facto do atual corpo Sapiens não ser capaz disso.

As Obras (objetos) que atualmente governam o Mundo e a existência humana estão cada vez mais nessa Escala (algoritmos, IA, nano-artefactos, implantes bioquímicos, circuitos neuronais e genéticos artificiais, ferramentas, sistemas de defesa e de segurança, fronteiras do poder, controlo da comunicação, exploração da Natureza, suportes das obras-de-arte, etc.).

Assim sendo, os modelos de comunicação utilizados para o Acesso ao Património (por exemplo nos «serviços educativos» e nas «exposições») têm algo a aprender com estes novos dados. Desde que se tome por referência nesse debate o “Ciclo do Objeto Patrimonial” tal como foi descrito no Painel 17 do Impronuncialismo (IMPRONUNCIA method).

                Antecipar também faz parte de uma boa prática de Gestão.

 

Pedro Manuel-Cardoso

 

 


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