Adieu, Jacques Tixier !
Confesso que, mais do que pesaroso, fiquei chocado ao saber do falecimento de Jacques Tixier, talvez o último “grande senhor” da longa, rica e hoje já velha “escola francesa” de tipologia e tecnologia líticas.
Recordo com grande emoção os contactos que tivemos, desde Chenavel até Ródão. Recordo a sua forma de ser simples, a sua frontalidade amiga e pedagógica, a sua profunda humanidade. Recordo o seu saber, a sua mestria, mas recordo sobretudo recordo e reverencio a sua história pessoal única e fortemente inspiradora.
Jacques era um humilde professor do ensino primário, perdido algures no interior da Argélia, quando pelo contacto com Lionel Balout despertou para a Pré-História e o estudo de materiais líticos. E nunca deixou de ser, dentro de si, esse professor primário. Regressado a França era já apreciado pelo rigor analítico, e, simultaneamente, pelo espírito funcional e prático que pôs tanto na sua tipologia dos machados de mão (a primeira e até hoje a mais eficaz tipologia tecnológica de um conjunto importante de utensílios do Acheulense) como nas suas tipologias e catálogos de formas das indústrias microlíticas e microlamelares do Norte de África. Tornou-se então também grande amigo de François Bordes – que o tinha em elevadíssima consideração (coisa rara em Bordes, como se sabe).
Nunca quis seguir a via formal de investigador e muito menos académico. Preferiu sempre a liberdade de fazer o que lhe dava gosto e nunca suportou a hierarquia empalhada e de salão. Por isso nunca se doutorou – e eu pude bem testemunhar as suspeições a que tal dava origem por parte do establishment universitário francês, mesmo depois de lhe ter sido conferido um grau de doutor ad-hoc, com base em relatório que fez da sua vida de pré-historiador. Recordo, por exemplo, as dificuldades que por causa disso senti quando o convidei para meu orientador de doutoramento – o que ele logo aceitou com amizade quase paternal. Só mais tarde, o CNRS viria a abrir-lhe as portas com a criação de uma Unidade de Investigação feita à sua medida (tanto na definição da missão como até na localização excêntrica, fora de Paris) e de que ele aceitou ser director.
Recordo-o finalmente connosco, em Portugal. No Museu Nacional de Arqueologia, onde nos deliciou com as suas sessões de tecnologia experimental. Mas sobretudo em Ródão, nas escavações da Foz do Enxarrique. Recordo aí como se juntou aos escavadores, carregando baldes como os outros para a crivagem e pedindo-me que o colocasse num quadrado, sem sequer dizer aos participantes quem ele era. Recordo como certo dia, não sabendo com quem falava, uma estudante espanhola ao seu lado o recriminava por ser menos atento na decapagem do solo… desculpando-se ele com trejeitos quase envergonhados (a mesma estudante viria mais tarde a desfazer-se em desculpas quando eu lhe disse com quem tinha estado ao lado durante a sua estadia entre nós). Recordo os convívios que tivemos, ao almoço, em mesa corrida, ou em sessões casuais de introdução ao talhe da pedra. Recordo as discussões vivas que tivemos naquele local, em face de peças que íamos descobrindo. Uma em especial, tem-me percorrido toda a vida: um núcleo (para mim) ou biface (para ele) que nos provocou alguma exaltação, tendo a discussão terminado com ele, não convencido de todo, a dizer-me “pronto, a escavação e o sítio é teu e eu calo-me” (ainda hoje eu penso que tinha razão, devo acrescentar, e publiquei entretanto descrição aprofundada da dita peça, que lhe enviei e ele magnanimamente acusou ter recebido e apreciado).
Enfim, de Jacques Tixier o mais que posso dizer é que o recordo. E recordarei sempre. Tudo o resto, fica dentro de mim.
Luís Raposo
Obs. Junto colecção de fotos de Jacques Tixier durante as escavações da Foz do Enxarrique, em Vila velha de Ródão.
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