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Re: [Museum] Vontade de Museu e o orçamento participativo de Lisboa

To :   Pedro Pereira Leite <pedropereiraleite@ces.uc.pt>
Subject :   Re: [Museum] Vontade de Museu e o orçamento participativo de Lisboa
From :   Luís Raposo <3raposos@sapo.pt>
Date :   Sun, 22 Apr 2018 13:12:35 +0100

Pedro,

Penso que a breve explicação que dei do que entendo por “Museu da Viagem” é em si mesma suficiente para, qualquer que seja o ângulo elitista (“intelectual português” ou “de afro descendentes”… como se os dois não fossem miscigenáveis…) que se adopte, não poder ser feita a amálgama que constitui a expressão “dupla Raposo e Franco”, não obstante os pontos em comum (e a consideração pessoal) que existem e eu também referi.

Quanto a estar eu consciente de tudo o que dizes, sim, estou. Tanto, que sei bem que o projecto de um “Museu dos Descobrimentos”, celebratório do génio ou simplesmente da originalidade do ser português constitui alegoria não apenas da “elite intelectual portuguesa” (seja ela a monárquica ou a explicitamente salazarista, seja ela alguma da republicana e maçónica – como se viu nas épocas históricas que evoquei no meu texto, incluindo a actual, e poderia ser mais desenvolvido pela análise da posições coloniais da burguesia republicana durante a 1ª República) como, ouso dizer, de grande parte do “povo”. Pelo menos da parte dele (parte muito ampla, assim me parece) que não vive na órbita dos tais “intelectuais portugueses” (os quais presumo que tu não integras, porque nem no BI ou passaporte terás esse odioso qualificativo de “português”) e, pelo contrário, se considera ainda hoje nostálgico e carente de “pátria e autoridade".

Sabes, Pedro, talvez não fosse mau desceres à terra e perceberes que o grande perigo de um Museu dos Descobrimentos ultramontano não é o de ser conduzido por elitismo, mas sim por populismo.

Por mim e se não fizermos nada ou se o que fizermos for simplesmente amalgamar tudo à maneira de “western” de mau gosto (“bons/esclarecidos/humanistas… nós”; “maus/néscios/cruéis... outros”, esquecendo pudicamente de saber onde situar os “feios, porcos e maus” de Ettore Scola, que afinal e na verdade somos todos nós), não tenho grandes dúvidas que, na altura e com as condições próprias, voltará a existir uma “iniciativa da sociedade civil” para “reparar o passado” e mostrar, de forma mais ou menos explícita, “o orgulho da raça e do império”. E será, podes crer, iniciativa muito mais forte e avassaladora do que a dos "afro-descendentes" que agora se mobilizaram pelo Memorial da Escravatura (a qual, já agora, convém dizer que não tem cor de pele, até porque, como bem saberás ou pelo menos eu julgo saber, a grande maioria desses “resgatados esqueletos dos escravos descritos por Zurara” eram magrebinos e não negros).

Dito tudo isto, regresso ao essencial: a “viagem” caracteriza-nos e não vejo mal nenhum em documentá-lo através de narrativa museológica. Antes pelo contrário, vejo grandes, enormes vantagens. Mas, insisto no que escrevi: falo do sermos habitantes da Finistrerra ocidental europeia, antes de sermos portugueses. Falo da Viagem num sentido profundamente metafórico (mais do que o tempo/espaço da deslocação de um lugar para o outro, o tempo/espaço do ficar e do interagir; e tanto quanto a movimentações e cruzamento de gentes como quanto a troca de saberes e ideias). Falo, pois, da Viagem no sentido de uma sedimentação muito espessa nesta Finisterra ocidental europeia, que ocupamos desde a Pré-História (muitos milénios, pois) e que nos últimos cerca de 900 anos (menos de um milénio, pois) adquiriu a o estatuto político-jurídico de Estado/País. E, claro, falo também (como não?!) da Viagem mais ampla em que os portugueses (Estado, ou seja, elites dominantes, e Nação, ou seja povo em busca de melhores condições de vida) se envolveram desde há cerca de 600 anos (pouco mais de meio milénio, portanto). Falo de como esta dimensão global nos moldou a todos.
E quando digo todos, é todos mesmo: os que fomos, os que ficámos (aqui ou lá) e os que viemos, dos quais apenas uma pequena parte são retornados posto que a grande maioria são novos vindos e nos fazem ser o que somos tanto quanto os velhos idos.


Quoting Pedro Pereira Leite <pedropereiraleite@ces.uc.pt>:

Apesar de ter pouco tempo para a escrita nesta listas, tenho vindo a acompanhar os debates sobre a proposta do Museu da Interculturalidade em Lisboa, na sua ligação com a iniciativa do orçamento participativo de Lisboa.

Não resulta claro  nesta discussão se a proposta de Matilde de Sousa Franco para o Museu da Interculturalidade e a proposta do Memorial da Escravatura (projeto p 126 vencedor no orçamento participativo de Lisboa) é sobre a mesma questão. 

Tenho ideia que Matilde de Sousa Franco, tem desde sempre vindo a defender a ideia do tal museu da interculturalidade ou da celebração do "encontro de culturas" tal como a elite intelectual portuguesa gosta de se referir à tragédia colonial e pós-colonial portuguesa, procura, como sempre tem vindo a fazer, reunir apoios e influencias para um projeto que é digamos assim "designio de vida". 

Já o Memoria da Escravatura, no orçamento participativo, resulta duma iniciativa da sociedade civíl, nesta caso da "afro-descendentes" que se mobilizou. 

Ora entre os dois processos há uma distância epistemológica que vale a pena registar. 

No primeiro caso, o do Museu, não é mais do que uma vontade duma elite intelectual, ainda que celebrada, por narrativas simbólicas e legitimada por influentes lideres de opinião, entre os quais o peso pesado António Guterres. 

O segundo caso, o do memorial da escravatura, é também uma vontade duma elite de afro descendentes, que confronta a narrativa elitista, procurando impor uma outra narrativa, da diversidade do presente. 

Para além da diferença epistémica, que poderia ser uma razão para dialogar e avançar conjuntamente, e da diferença de  legitimidade que  as duas propostas transportam, a do orçamento participativo, por via do paradigma da democracia participativa, e a do orçamento da CML, por via da legitimidade do paradigma representativo, há ainda uma terceira questão que valeria a pena discutir. A da vontade de museu.

A vontade de museu é essa expressão duma comunidade que escolhe uma maneira de se representar. Nesta questão, a vontade de museu não só é na sua forma divergente, como no plano dos conteúdos também o é.

E temos como exemplo, para refletir, a trágica  situação do museu da escravatura em Lagos, a cidade dos Descobrimentos, como se gosta de proclamar. Vai para dez anos que na lixeira da cidade foram resgatados esqueletos dos escravos descritos por Zurara, nos idos de quatrocentos. Caso único na Europa e no Mundo. Esses escravos estão esquecidos em Coimbra, sem que os tais intelectuais de hoje lhe tenham reconhecido valor. Os mesmo intelctuais que montaram uma deplorável exposição com objetos africanos (recolhidos nas coleções locais), confundindo escravatura e africanos, como os seus (nossos) antepassadaos confundiram a humanidade com a mercadoria. 

Estará a dupla Raposo e Franco conscientes do desafio de criar uma narrativa da "diversidade" . A partir de onde, com que e com quem?

 

 

 



 







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