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Lamento no texto abaixo o salpico de pontos de interrogação que deveriam ser travessõess ou aspas, conforme os casos. Não sei como surgiram. Espero que seja perceptível, de toda a maneira.
Repito-o, procurando devidamente expurgá-lo. Espero que agora fique bem.
Luís Raposo
Pedro
(Manuel-Cardoso, ou Pereira, não sei bem, mas seguramente não Pereira Leite),
Agradeço a explicação dada, erudita como costumam ser as tuas intervenções nesta lista (não direi palavrosa, embora o adjectivo às vezes me ocorra).
Sinto-me deveras intimidado ao ser gentilmente confrontado com saberes tão reflectidos, tão sólidos, tão variados ademais. Sou, confesso, um humilde caboqueiro (nome ainda hoje dado aos arqueólogos em alguma legislação portuguesa), que teve em devido tempo na juventude crises metafísicas sobre a ontologia das coisas (natureza e entes vivos). Mas tratou-se sempre (para o bem e para o mal) de crises filosóficas apenas, não místicas - e depressa evoluíram para concepções materialistas do mundo e destas para teorias de acção, ditadas pela prova do confronto dirimente entre razão e experiência. Coisas de espíritos simples, portanto.
No plano da percepção do tempo no ofício que adoptei, então, tenho chã cultura. Li, em seu tempo, textos sobre "Conhecimento Histórico" ou sobre "História e Verdade", só para citar dois títulos entre tantos. E de todos retirei ensinamentos, construindo a minha teoria de acção, nem absoluta ou positivista em excesso, nem relativa ou presentista em demasia. Deliciei-me com a ironia de Febvre sobre os factos como cubos de mosaico; incorporei em mim a convicção (que vale o que vale, ou seja, vale pouco e vale muito simultaneamente, porque para mim vale) que "toda a história é história do presente".
Só esta profunda ancoragem no presente me faz, aliás, ser historiador - e não cronista; ou ser arqueólogo - e não antiquário. Digo como Bloch: "sou historiador. É por isso que amo a vida".
"Amo a vida", amo o presente e encontro-me imerso nele. Não tenho sequer alternativa. É do presente que olho para o passado, reconstruindo-o à minha maneira; é do presente que olho para o futuro, antecipando-o (pressentindo-o diria Santo Agostinho, na tradução que uso abaixo) à minha maneira. Mas não falo de presente físico, cronométrico, instantâneo se quiseres. Não falo também de tempo físico. Falo do tempo humanamente percebido, recriado. Daí, aliás, a enorme importância que sempre atribui às questões de periodização em história - uma quase obsessão em mim. Neste tempo, o "presente" não tem nem segundos, nem horas, dias, semanas, anos - tem a minha e nossa (epocal) percepção do mundo numa relatividade essencial entre tempo e espaço.
Ora, dentro deste quadro conceptual compreenderás, Pedro, que em boa verdade nem sequer alcance algum do sentido das tuas reflexões. Falha minha, obviamente. Mas sinto que nos falta, no acto comunicacional e para usar os termos de Jakobson, "referente" e "código". Este último poderia ainda ser resolvido: com esforço poderia aceder à tua articulação sintagmática, como se me propusesse agora aprender mandarim; mas quanto ao primeiro, isso é mais difícil porque aponta para contextos ou paradigmas que de todo me são estranhos. E, para ser franco, nem sequer tenho grande interesse em explorar.
Amigos, pois, e do meu lado (creio que do teu também) admiradores. Mas cada um no campo que lhe dá mais gozo. Afinal e como dizia Mestre Leite de Vasconcelos (desculpa o arrimo quase permanente ao mesmo bordão, mas os simples são assim), "o gozo é o términus de todos os actos da vida, mais ou menos disfarçado sob o aspecto material ou espiritual".
Luís Raposo
Obs. Uma última precisão, somente. Para que melhor se avalie o pensamento de Santo Agostinho, de Hipona e bispo, claro (e não Aurélio Agostinho, de Tagaste e cripto-maniqueu, que seria outra pessoa porque morre a antiga e renasce outra pelo sacramento do baptismo), permito-me reproduzir, excepcionalmente (porque longe de mim querer ensinar o pai-nosso ao vigário e nem me parece que este meio sirva para tal), algumas das suas mais conhecidas Confissões sobre a matéria (sublinhados meus, com desculpa e previsível perdão do Santo):
"O que é, pois, o tempo? Se ninguém mo pergunta, sei o que é; mas se quero explicá-lo a quem mo pergunta, não sei: no entanto, digo com segurança que sei que, se nada passasse, não existiria o tempo passado, e, se nada adviesse, não existiria o tempo futuro, e, se nada existisse, não existiria o tempo presente. De que modo existem, pois, esses dois tempos, o passado e o futuro, uma vez que, por um lado, o passado já não existe, por outro, o futuro ainda não existe? Quanto ao presente, se fosse sempre presente, e não passasse a passado, já não seria tempo, mas eternidade. Logo, se o presente, para ser tempo, só passa a existir porque se torna passado, como é que dizemos que existe também este, cuja causa de existir é aquela porque não existirá, ou seja, não podemos dizer com verdade que o tempo existe senão porque ele tende para o não existir?? (Confissões, Livro 11, 14-17)
?Permite-me, Senhor, ir mais longe na minha procura, ó minha esperança; e não se distraia a minha atenção. Se existem coisas futuras e passadas, quero saber onde estão. Mas se isso ainda não me é possível, sei, todavia, que onde quer que estejam, aí não são futuras nem passadas, mas presentes. Na verdade, se também aí são futuras, ainda lá não estão, e se também aí são passadas, já lá não estão. Por conseguinte, onde quer que estejam e quaisquer que sejam, não existem senão como presentes. Ainda que se narrem, como verdadeiras, coisas passadas, o que se vai buscar à memória não são as próprias coisas que já passaram, mas as palavras concebidas a partir das imagens de tais coisas, que, ao passarem pelos sentidos, gravaram na alma como que uma espécie de pegadas. Até a minha infância, que já não existe, existe no tempo passado, que já não existe; mas vejo a sua imagem no tempo presente, quando a evoco e descrevo, porque ainda está na minha memória. Se té semelhante a explicação também da predição do futuro, de tal forma que sejam tornadas presentes, como já existentes, as imagens das coisas que ainda não existem, confesso-te, meu Deus, que não sei. Há uma coisa que eu sei: a maior parte das vezes, nós premeditamos as nossas acções futuras e essa premeditação é presente, ao passo que a acção que premeditamos ainda não existe, porque é futura; quando a empreendermos e começarmos a realizar aquilo que premeditávamos, então essa acção existirá, porque então já não será futura, mas presente." (Confissões, Livro 11, 18-23)
"Assim, qualquer que seja a natureza deste misterioso pressentimento do futuro, não se pode ver senão o que existe. Ora, o que já existe não é futuro, mas presente. Por isso, quando se diz que se vêem coisas futuras, não se vêem essas mesmas coisas, que ainda não existem, ou seja, que hão-de existir, mas sim as suas causas ou, talvez, os seus sinais; estes já existem: por isso, não são futuros, mas já presentes para os que os vêem, e, a partir deles, são preditas as coisas futuras concebidas no espírito. As imagens dessas coisas, por sua vez, já existem, e vêem-nas como presentes, dentro de si, aqueles que predizem tais coisas. Ofereça-me um exemplo a imensa variedade das coisas. Contemplo a aurora: preanuncio que o sol vai nascer. O que vejo é presente, o que preanuncio é futuro: não é o sol, que já existe, que é futuro, mas sim o seu nascimento, que ainda não existe: todavia, mesmo o próprio nascimento, se não o imaginasse no meu espírito, como agora quando estou a falar dele, não o poderia predizer. Mas aquela aurora que vejo no céu não é o nascimento do sol, embora o preceda, nem aquela imagem que está no meu espírito: ambas são vistas claramente como presentes, a ponto de se poder dizer antecipadamente aquele futuro. Portanto, as coisas futuras ainda não existem e, se ainda não existem, não existem, e, se não existem, não podem ser vistas de forma alguma; mas podem ser preditas a partir das coisas presentes, que já existem e se vêem." (Confissões, Livro 11, 18-24)
"Uma coisa é agora clara e transparente: não existem coisas futuras nem passadas; nem se pode dizer com propriedade: há três tempos, o passado, o presente e o futuro; mas talvez se pudesse dizer com propriedade: há três tempos, o presente respeitante às coisas passadas, o presente respeitante às coisas presentes, o presente respeitante às coisas futuras. Existem na minha alma estas três espécies de tempo e não as vejo em outro lugar: memória presente respeitante às coisas passadas, visão presente respeitante às coisas presentes, expectação presente respeitante às coisas futuras. Se me permitem dizê-lo, vejo e afirmo três tempos, são três. Diga-se também: os tempos são três, passado, presente e futuro, tal como abusivamente se costuma dizer; diga-se. Pela minha parte, eu não me importo, nem me oponho, nem critico, contanto que se entenda o que se diz: que não existe agora aquilo que está para vir nem aquilo que passou. Poucas são as coisas que exprimimos com propriedade, muitas as que referimos sem propriedade, mas entende-se o que queremos dizer." (Confissões, Livro 11, 20-26)
"Disse há pouco que medimos os tempos que passam, de maneira a podermos dizer que este espaço de tempo é o dobro relativamente à unidade, ou que este é tanto como aquele, embora seja possível, utilizando a medida, afirmar outra coisa qualquer relativamente às partes do tempo. Por conseguinte, como dizia, medimos os tempos que passam, e se alguém me disser: ?Como é que sabes??, responderei: ?Sei, porque medimos, e não podemos medir o que não existe, e não existem coisas passadas ou futuras?. No que se refere ao tempo presente, como é que o medimos, uma vez que ele não tem extensão? Medimo-lo, portanto, quando passa, mas quando tiver passado, não se mede; pois não haverá nada para ser medido. Mas donde vem ele, por onde e para onde passa, quando se mede? Donde vem senão do futuro? Por onde passa senão pelo presente? Para onde se dirige senão para o passado? Logo, vem daquilo que não existe, passa por aquilo que não tem extensão e dirige-se para aquilo que já não existe. Mas que medimos nós senão tempo em alguma extensão? E nós não dizemos simples, e duplo, e triplo, e igual, e qualquer outra coisa deste modo no tempo, senão por referência a extensões de tempo. Em que extensão de tempo medimos, pois, o tempo que passa? Será no futuro, donde ele vem? Mas não medimos o que ainda não existe. Será no presente, por onde ele passa? Mas não medimos uma extensão que não existe. Será no passado, para onde se dirige? Mas não medimos o que já não existe." (Confissões, Livro 11, 21-27)
Como sabemos, aqui chegado, Agostinho, o Santo (de Hipona e não de Tagaste), só tem uma saída para o paradoxo: admitir a sua/humana limitação e responder que "Só Deus pode resolver este enigma"(Confissões, Livro 11, 22-28).
No meu caso, não vou por aí. Limito-me a reconhecer a minha/nossa humana incapacidade em verdadeiramente percepcionar e muito menos compreender o tempo. E uso, portanto e como já disse, a sabedoria dos simples, em face do inatingível: as "grandes questões" dissipam-se (não se resolvem, claro, apenas se dissipam) pela prova do dia-a-dia, ou seja do presente, na convicção que "experiência é a mãe de todas as coisas". E quem me levará a mal que agora me aproprie daquilo que em seu tempo disse Camões?
LR
----- Mensagem encaminhada de Luís Raposo <3raposos@sapo.pt> -----
Data: Thu, 26 Apr 2018 21:08:10 +0100
De: Luís Raposo <3raposos@sapo.pt>
Assunto: Re: [Museum] Museus para o Passado e Museus para o Futuro. Nunca para o Presente.
Para: Pedro Pereira <pedropereiraoffic@outlook.com>
Cc: museum@ci.uc.pt
Pedro
(Manuel-Cardoso, ou Pereira, não sei bem, mas seguramente não Pereira Leite),
Agradeço a explicação dada, erudita como costumam ser as tuas intervenções nesta lista (não direi palavrosa, embora o adjectivo às vezes me ocorra).
Sinto-me deveras intimidado ao ser gentilmente confrontado com saberes tão reflectidos, tão sólidos, tão variados ademais. Sou, confesso, um humilde caboqueiro (nome ainda hoje dado aos arqueólogos em alguma legislação portuguesa), que teve em devido tempo na juventude crises metafísicas sobre a ontologia das coisas (natureza e entes vivos). Mas tratou-se sempre (para o bem e para o mal) de crises filosóficas apenas, não místicas ? e depressa evoluíram para concepções materialistas do mundo e destas para teorias de acção, ditadas pela prova do confronto dirimente entre razão e experiência. Coisas de espíritos simples, portanto.
No plano da percepção do tempo no ofício que adoptei, então, tenho chã cultura. Li, em seu tempo, textos sobre ?Conhecimento Histórico? ou sobre ?História e Verdade?, só para citar dois títulos entre tantos. E de todos retirei ensinamentos, construindo a minha teoria de acção, nem absoluta ou positivista em excesso, nem relativa ou presentista em demasia. Deliciei-me com a ironia de Febvre sobre os factos como cubos de mosaico; incorporei em mim a convicção (que vale o que vale, ou seja, vale pouco e vale muito simultaneamente, porque para mim vale) que ?toda a história é história do presente?.
Só esta profunda ancoragem no presente me faz, aliás, ser historiador ? e não cronista; ou ser arqueólogo ? e não antiquário. Digo como Bloch: ?sou historiador. É por isso que amo a vida?.
?Amo a vida?, amo o presente e encontro-me imerso nele. Não tenho sequer alternativa. É do presente que olho para o passado, reconstruindo-o à minha maneira; é do presente que olho para o futuro, antecipando-o (pressentindo-o diria Santo Agostinho, na tradução que uso abaixo) à minha maneira. Mas não falo de presente físico, cronométrico, instantâneo se quiseres. Não falo também de tempo físico. Falo do tempo humanamente percebido, recriado. Daí, aliás, a enorme importância que sempre atribui às questões de periodização em história ? uma quase obsessão em mim. Neste tempo, o ?presente? não tem nem segundos, nem horas, dias, semanas, anos? tem a minha e nossa (epocal) percepção do mundo numa relatividade essencial entre tempo e espaço.
Ora, dentro deste quadro conceptual compreenderás, Pedro, que em boa verdade nem sequer alcance algum do sentido das tuas reflexões. Falha minha, obviamente. Mas sinto que nos falta, no acto comunicacional e para usar os termos de Jakobson, ?referente? e ?código?. Este último poderia ainda ser resolvido: com esforço poderia aceder à tua articulação sintagmática, como se me propusesse agora aprender mandarim; mas quanto ao primeiro, isso é mais difícil porque aponta para contextos ou paradigmas que de todo me são estranhos. E, para ser franco, nem sequer tenho grande interesse em explorar.
Amigos, pois, e do meu lado (creio que do teu também) admiradores. Mas cada um no campo que lhe dá mais gozo. Afinal e como dizia Mestre Leite de Vasconcelos (desculpa o arrimo quase permanente ao mesmo bordão, mas os simples são assim), ?o gozo é o términus de todos os actos da vida, mais ou menos disfarçado sob o aspecto material ou espiritual?.
Luís Raposo
Obs. Uma última precisão, somente. Para que melhor se avalie o pensamento de Santo Agostinho, de Hipona e bispo, claro (e não Aurélio Agostinho, de Tagaste e cripto-maniqueu, que seria outra pessoa porque morre a antiga e renasce outra pelo sacramento do baptismo), permito-me reproduzir, excepcionalmente (porque longe de mim querer ensinar o pai-nosso ao vigário e nem me parece que este meio sirva para tal), algumas das suas mais conhecidas Confissões sobre a matéria (sublinhados meus, com desculpa e previsível perdão do Santo):
?O que é, pois, o tempo? Se ninguém mo pergunta, sei o que é; mas se quero explicá-lo a quem mo pergunta, não sei: no entanto, digo com segurança que sei que, se nada passasse, não existiria o tempo passado, e, se nada adviesse, não existiria o tempo futuro, e, se nada existisse, não existiria o tempo presente. De que modo existem, pois, esses dois tempos, o passado e o futuro, uma vez que, por um lado, o passado já não existe, por outro, o futuro ainda não existe? Quanto ao presente, se fosse sempre presente, e não passasse a passado, já não seria tempo, mas eternidade. Logo, se o presente, para ser tempo, só passa a existir porque se torna passado, como é que dizemos que existe também este, cuja causa de existir é aquela porque não existirá, ou seja, não podemos dizer com verdade que o tempo existe senão porque ele tende para o não existir?? (Confissões, Livro 11, 14-17)
?Permite-me, Senhor, ir mais longe na minha procura, ó minha esperança; e não se distraia a minha atenção. Se existem coisas futuras e passadas, quero saber onde estão. Mas se isso ainda não me é possível, sei, todavia, que onde quer que estejam, aí não são futuras nem passadas, mas presentes. Na verdade, se também aí são futuras, ainda lá não estão, e se também aí são passadas, já lá não estão. Por conseguinte, onde quer que estejam e quaisquer que sejam, não existem senão como presentes. Ainda que se narrem, como verdadeiras, coisas passadas, o que se vai buscar à memória não são as próprias coisas que já passaram, mas as palavras concebidas a partir das imagens de tais coisas, que, ao passarem pelos sentidos, gravaram na alma como que uma espécie de pegadas. Até a minha infância, que já não existe, existe no tempo passado, que já não existe; mas vejo a sua imagem no tempo presente, quando a evoco e descrevo, porque ainda está na minha memória. Se té semelhante a explicação também da predição do futuro, de tal forma que sejam tornadas presentes, como já existentes, as imagens das coisas que ainda não existem, confesso-te, meu Deus, que não sei. Há uma coisa que eu sei: a maior parte das vezes, nós premeditamos as nossas acções futuras e essa premeditação é presente, ao passo que a acção que premeditamos ainda não existe, porque é futura; quando a empreendermos e começarmos a realizar aquilo que premeditávamos, então essa acção existirá, porque então já não será futura, mas presente.? (Confissões, Livro 11, 18-23)
?Assim, qualquer que seja a natureza deste misterioso pressentimento do futuro, não se pode ver senão o que existe. Ora, o que já existe não é futuro, mas presente. Por isso, quando se diz que se vêem coisas futuras, não se vêem essas mesmas coisas, que ainda não existem, ou seja, que hão-de existir, mas sim as suas causas ou, talvez, os seus sinais; estes já existem: por isso, não são futuros, mas já presentes para os que os vêem, e, a partir deles, são preditas as coisas futuras concebidas no espírito. As imagens dessas coisas, por sua vez, já existem, e vêem-nas como presentes, dentro de si, aqueles que predizem tais coisas. Ofereça-me um exemplo a imensa variedade das coisas. Contemplo a aurora: preanuncio que o sol vai nascer. O que vejo é presente, o que preanuncio é futuro: não é o sol, que já existe, que é futuro, mas sim o seu nascimento, que ainda não existe: todavia, mesmo o próprio nascimento, se não o imaginasse no meu espírito, como agora quando estou a falar dele, não o poderia predizer. Mas aquela aurora que vejo no céu não é o nascimento do sol, embora o preceda, nem aquela imagem que está no meu espírito: ambas são vistas claramente como presentes, a ponto de se poder dizer antecipadamente aquele futuro. Portanto, as coisas futuras ainda não existem e, se ainda não existem, não existem, e, se não existem, não podem ser vistas de forma alguma; mas podem ser preditas a partir das coisas presentes, que já existem e se vêem.? (Confissões, Livro 11, 18-24)
?Uma coisa é agora clara e transparente: não existem coisas futuras nem passadas; nem se pode dizer com propriedade: há três tempos, o passado, o presente e o futuro; mas talvez se pudesse dizer com propriedade: há três tempos, o presente respeitante às coisas passadas, o presente respeitante às coisas presentes, o presente respeitante às coisas futuras. Existem na minha alma estas três espécies de tempo e não as vejo em outro lugar: memória presente respeitante às coisas passadas, visão presente respeitante às coisas presentes, expectação presente respeitante às coisas futuras. Se me permitem dizê-lo, vejo e afirmo três tempos, são três. Diga-se também: os tempos são três, passado, presente e futuro, tal como abusivamente se costuma dizer; diga-se. Pela minha parte, eu não me importo, nem me oponho, nem critico, contanto que se entenda o que se diz: que não existe agora aquilo que está para vir nem aquilo que passou. Poucas são as coisas que exprimimos com propriedade, muitas as que referimos sem propriedade, mas entende-se o que queremos dizer.? (Confissões, Livro 11, 20-26)
?Disse há pouco que medimos os tempos que passam, de maneira a podermos dizer que este espaço de tempo é o dobro relativamente à unidade, ou que este é tanto como aquele, embora seja possível, utilizando a medida, afirmar outra coisa qualquer relativamente às partes do tempo. Por conseguinte, como dizia, medimos os tempos que passam, e se alguém me disser: ?Como é que sabes??, responderei: ?Sei, porque medimos, e não podemos medir o que não existe, e não existem coisas passadas ou futuras?. No que se refere ao tempo presente, como é que o medimos, uma vez que ele não tem extensão? Medimo-lo, portanto, quando passa, mas quando tiver passado, não se mede; pois não haverá nada para ser medido. Mas donde vem ele, por onde e para onde passa, quando se mede? Donde vem senão do futuro? Por onde passa senão pelo presente? Para onde se dirige senão para o passado? Logo, vem daquilo que não existe, passa por aquilo que não tem extensão e dirige-se para aquilo que já não existe. Mas que medimos nós senão tempo em alguma extensão? E nós não dizemos simples, e duplo, e triplo, e igual, e qualquer outra coisa deste modo no tempo, senão por referência a extensões de tempo. Em que extensão de tempo medimos, pois, o tempo que passa? Será no futuro, donde ele vem? Mas não medimos o que ainda não existe. Será no presente, por onde ele passa? Mas não medimos uma extensão que não existe. Será no passado, para onde se dirige? Mas não medimos o que já não existe.? (Confissões, Livro 11, 21-27)
Como sabemos, aqui chegado, Agostinho, o Santo (de Hipona e não de Tagaste), só tem uma saída para o paradoxo: admitir a sua/humana limitação e responder que ?Só Deus pode resolver este enigma (Confissões, Livro 11, 22-28).
No meu caso, não vou por aí. Limito-me a reconhecer a minha/nossa humana incapacidade em verdadeiramente percepcionar e muito menos compreender o tempo. E uso, portanto e como já disse, a sabedoria dos simples, em face do inatingível: as ?grandes questões? dissipam-se (não se resolvem, claro, apenas se dissipam) pela prova do dia-a-dia, ou seja do presente, na convicção que ?experiência é a mãe de todas as coisas?. E quem me levará a mal que agora me aproprie daquilo que em seu tempo disse Camões?
LR
Quoting Pedro Pereira <pedropereiraoffic@outlook.com>:
Sugeri um tipo de Museu que servisse para preparar o Futuro.
Houve algum melindre.
Não se entende. Mas qual é verdadeiramente o motivo da hesitação? Não vale agora dizer que o que queriam dizer era: Mistos.
Se a Vida fosse o Presente, e apenas o Presente (como o hedonismo consumista pós-moderno e neoliberal pretende), como podíamos usar o Tempo de agora para projetar um museu que só depois será possível construir? Como é possível viver apenas no Presente se com mais de cinco dias sem água já seria problemático continuarmos a Viver? Não é para preparar o Futuro que se constroem barragens antes? Porque os Museus também o não podem ser?
O Presente não é aquela falta de Desenvolvimento que a ONU quantifica nos Objetivos do Milénio, e aquela insuportável assimetria que urge mudar? Será esse Presente que os museus propõem eternizar?
Em Três Partes tentaremos explicitar a questão. Vale a pena, porque o tema proposto pelo ICOMOS é exatamente ?desta geração para as que lhe sucederem?.
PARTE 1
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Um Museu para preparar o Futuro.
Sim.
Trata-se de gastar o dinheiro dos Contribuintes em Museus criativos e transformativos, em vez de Museus contemplativos e memoriais. Museus para transformar as Pessoas e a Sociedade. Museus para preparar o Futuro, em vez de museus para se viver eternamente no Presente ou no Passado.
Não foi Mariano Gago que denodadamente quis esses ?museus? para Portugal? E os fez nascer em várias partes deste território jurídico que há mais de 800 anos se designa por Portugal? Não é a atual Administração do Centro Cultural de Belém que quer também um Museu com projecção internacional através da construção das valências que faltam ao Projeto (repare-se na palavra Projeto; no sentido que ela tem)? E outros exemplos, tanto em museus novos ou antigos, dependendo de Quem os gere. Aliás, esta proposta não é nova. Faz parte de duas concepções de Patrimologia (museologia e afins) que há muito se digladiam na História do Património.
Disseram: «Um Museu para a Vida. Outro qualquer não interessa». Também estou de acordo. Desde que se considere que o próprio Ser-humano é um Projeto em permanente construção. Ou não?
Disseram: «Um Museu para a Vida. Outro qualquer não interessa». Também estou de acordo. Desde que por Vida se considerem todas as concepções de Tempo (e de Espaço) que ela criou e inventou. Ora um Museu que sirva o Futuro (um Projeto) não é aquele uso do Tempo que nos prepara melhor para o Presente (que imediatamente é? Passado)?
Não é essa a espécie de Tempo mais valiosa em termos patrimoniais, em vez da que julgávamos, ao fazermos todos os Museus para o Passado?
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PARTE 2
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Claro que todos conhecemos a importância desta questão. E não foi Jürgen Habermas que a veio ensinar (?a fundamental determinant of Modern culture was an altered perception of the meaning of time and history, to which a transformed consciousness of the temporality?). A questão é muito mais antiga.
A mudança, a duração, o Espaço e o Tempo são importantes para a Questão Patrimonial porque interfere diretamente na transmissibilidade. E transmitir aquilo que é vital às gerações futuras, através de um processo que guarda isso num local especial no núcleo da célula, é o que caracteriza a estratégia de vida Eucariote iniciada há 1800 milhões de anos da qual os Humanos são herdeiros diretos.
A concepção agosteana de Tempo não é a do ?sempre Presente? (como no Budismo Zen). Pelo contrário. A concepção do ?sempre Presente? é uma concepção cíclica de Tempo tão ajustada ao modo de produção agrícola e sedentário do Oriente Extremo como ao Europeu até à dita Idade Média. A concepção de Tempo proposta por Santo Agostinho (Agostinho de Hipona) é exatamente o contrário dessa. Instaura uma rutura contra a Ciclicidade. Que, mais tarde, vai ser usada pelo Iluminismo e pelo Progresso evolucionista dos Tempos Modernos. Um Tempo concebido como uma seta, que viajaria obrigatoriamente do Passado ao Futuro passando pelo Presente. A célebre formulação de Santo Agostinho (de Hipona) é a seguinte: "(...) quanto ao presente, se fosse sempre presente, e não passasse para o pretérito, como poderíamos afirmar que ele existe, se a causa da sua existência é a mesma pela qual deixará de existir? " (Agostinho de Hipona, 398).
Várias outras lhe sucederam.
# Se o Responsável pelo Património escolhesse a concepção Cíclica de Tempo o Visitante não seria capaz de separar (com tanto dramatismo e radicalidade como agora) o antes do agora e do depois, ou o princípio do fim.
# Mas se escolhesse a de Agostinho de Hipona (Santo Agostinho), o Visitante veria o Património de outra maneira - sucessivamente de um passado para um presente, e depois para um futuro.
# Se escolhesse a concepção de Giordano Bruno (1584), essa progressão agostineana seria uma ilusão, pois os inícios e fins seriam sempre uma espécie de figuras de retorno dos múltiplos a um Uno.
# Mas se escolhesse a de Heidegger (1924), sendo nós mesmos o nosso próprio conceito de tempo, situando-nos, assim, no nosso antropocentrismo enquanto sujeitos-no-mundo, víamo-lo ainda de modo diverso, girando como uma espiral no turbilhão feito por nossa causa, ?(?) no nosso estar uns com os outros, seríamos o tempo... nenhum de nós e cada um.? (Heidegger, 1924/2008, p.31).
# E se escolhesse o conceito de Tempo de alguns físicos e biólogos da atualidade (por exemplo, C. Callender, J.A.Wheeler, Musser, 2010, 2012, 2014) o Visitante vê-lo-ia separado do Espaço, até com possibilidade de acabar.
Assim sendo, o Tempo é, e não é, uma convenção.
Por um lado É, porque é usado por cada ideologia política (económica e social) conforme lhes apraz. Cada arbítrio político e ideológico escolhe os inícios e os términos que mais lhes convêm. Bourdieu, exatamente em ?O Indivíduo e o Poder?, chamou a esse jogo ?regere fines? (o jogo de estabelecer fronteiras).
Por outro lado NÃO É, porque a Natureza (a Vida) para obviar a esse desvario criou a Memória no hipocampo. E estabeleceu regras entre as sinapses e os neurónios que permitem fazer funcionar nos humanos o ?GPS cognitivo? (ver prémios Nobel May e Edward Britt). Assim, quaisquer que sejam as ideologias e as fantasias dos humanos há uma maior garantia de que Tudo não acaba por causa dessas interpretações anárquicas ou partidárias.
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PARTE 3
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Razão pela qual na Gestão do Património, depois de aprendermos essa lição da História e da Antropologia ? de um conceito de Tempo feito à medida dos interesses ideológicos (económicos, sociais, religiosos, políticos, culturais) ? foi necessário criar uma ferramenta que permitisse discernir e gerir esses diferentes regimes e escalas de Tempo (e Espaço). Foi necessário criar um Método para se fazer com mais rigor a descrição/levantamento/diagnóstico do Património e do seu percurso etno-histórico em cada Contexto e em cada Circunstância. Concretamente, a fórmula que permite em cada caso concreto responder à seguinte pergunta:
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«Existe, em termos matemáticos, para um tempo/espaço quantificado (R), e para um objeto/facto particular (N), uma qualquer diferença (X) entre [O1, O2, O3], ou [U1, U2, U3], ou [V1, V2, V3]?»
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REGIMES E ESCALAS DE TEMPO/ESPAÇO NA GESTÃO DO PATRIMÓNIO:
Existe, em termos matemáticos, para um tempo/espaço quantificado (R), e para um objeto/facto particular (N), uma qualquer diferença (X) entre [O1, O2, O3], ou [U1, U2, U3], ou [V1, V2, V3]?
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Objeto/
Facto
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Uso
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Valor/
Significado
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Passado
Antes
Anterioridade
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O1
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U1
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V1
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Presente
Agora
Contemporaneidade
Coetaneidade
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O2
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U2
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V2
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Futuro
Depois
Posterioridade
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O3
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U3
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V3
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OBJETO/FACTOS
que são PATRIMÓNIO
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USO
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VALOR
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PATRIMÓNIO: objetos/factos concretos tal como existiam no Passado.
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USO dado no Passado.
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VALOR que tinham no Passado.
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PATRIMÓNIO: objetos/factos concretos que existem no Presente.
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USO dado no Presente.
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VALOR que têm no Presente.
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PATRIMÓNIO: objetos/factos concretos que se consideram (acervo, coleções) para o Projeto que se propõe Hoje/Agora para o Futuro.
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USO que se quer dar no Futuro com o Projeto que se propõe Hoje/Agora.
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VALOR que se deseja que venham a ter no Futuro com o Projeto que se propõe Hoje/Agora.
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Na Gestão do Património é com esta ferramenta-de-análise que se estuda a historicidade dos processos e mudanças que ocorrem no Património a nível do valor, do uso, e do objeto (material, digital e imaterial e outros). Exatamente para contrapor ? aos desvarios interpretativos e aos interesses político-ideológicos ? um procedimento mais empírico e rigoroso.
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Mas ainda não chega. É necessário mais.
É necessário a Quem gere e é responsável pelo Património que tenha consciência destes Regimes, e possua um Método para os trabalhar com o rigor e a imparcialidade exigidas pelo respeito para com a Inclusão, a Pluralidade, a Diversidade e a Singularidade.
Ora, de todas essas exigências a mais difícil é a Singularidade (aquela que permite viajar entre Culturas sem que o destino seja a miscigenação eugénica ou a união dissolutiva).
Singularidade é aquela parte da Liberdade em que não há vergonha de se adjetivar de Portuguesxs/Portugal áquilo que se fez, faz e fará neste Território (por exemplo: Descobrimentos).
Pedro Manuel-Cardoso
----- Fim de mensagem reenviada -----
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