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[Museum] Morreu o Professor Rosado Fernandes

To :   "archport" <archport@ci.uc.pt>, "museum" <museum@ci.uc.pt>, "histport" <histport@ml.ci.uc.pt>, "porras" <pporras@der.ucm.es>
Subject :   [Museum] Morreu o Professor Rosado Fernandes
From :   José d'Encarnação <jde@fl.uc.pt>
Date :   Mon, 14 May 2018 12:44:57 +0100

Morreu o Professor Rosado Fernandes

 

            Entristece-nos sempre a partida de um Amigo, mesmo que, devido a estar internado há já algum tempo, o seu falecimento pudesse ser esperado. O Professor Rosado Fernandes deixou-nos ontem, domingo, aos 83 anos. O corpo está na Basílica da Estrela, aí se realizando missa de corpo presente pelas 14,30 horas. O funeral sairá pelas 16 horas, para o cemitério do Alto de São João.

 

            Raul Miguel Rosado Fernandes nascera em Lisboa, a 11 de Julho de 1934. Licenciou-se em Filologia Clássica na Faculdade de Letras de Lisboa, com a tese Anfitrião: evolução e concepções de um mito na expressão literária, e aí se doutorou, em 1962, com a tese O Tema das Graças na Poesia Clássica. Catedrático desde 1974, viria a ser reitor da sua Universidade de Lisboa entre 1979 e 1982. Pelo CDS-PP, foi deputado ao Parlamento Europeu (1995-1999) e na Assembleia da República (1999-2001). Fundou a Confederação dos Agricultores Portugueses (CAP), numa altura em que era preciso os agricultores terem uma intervenção mais activa na comunidade portuguesa, responsabilidade que não enjeitou, tendo feito ouvir a sua voz, nem sempre cómoda para as políticas vigentes.

            Salientou o Presidente da República, na nota que publicou na página oficial da Presidência, que «o Professor Rosado Fernandes sempre foi um lutador corajoso e independente no associativismo agrícola, como deputado na Assembleia da República e no Parlamento Europeu, assim como na Universidade ou como produtor agrícola no Alentejo».

            Como amigo pessoal do professor – irmanaram-nos, de modo especial, os estudos sobre André de Resende, humanista acerca do qual tivemos oportunidade de oficialmente trocar opiniões por ocasião das minhas provas de agregação a 26 de Junho de 1990 – não posso deixar de sublinhar quanto prestigiou os estudos clássicos em Portugal, com grande repercussão no estrangeiro. A sua As Antiguidades da Lusitânia, de André de Resende (Introdução, tradução e comentário), publicada pela Fundação Calouste Gulbenkian (Lisboa, 1996) continuará a ser um livro de referência imprescindível. Os seus inúmeros trabalhos foram reunidos, no ano de 2006, em dois muito substanciais volumes a que deu o sugestivo título de Em Busca das Raízes do Ocidente, editados pela Alcalá (Lisboa), também sob patrocínio da Gulbenkian.

            Membro da Academia das Ciências de Lisboa, foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, a 9 de Junho de 1997, e com a Grã-Cruz da Ordem Civil do Mérito Agrícola, Industrial e Comercial Classe Agrícola, a 4 de Maio de 2001.

 

            Na hora em que fisicamente nos despedimos do grande lutador, não virá a despropósito transcrever o que poderá considerar-se uma das suas mensagens mais oportunamente presentes, que deixou patente na contracapa do vol. I de Em Busca das Raízes do Ocidente, justamente a propósito de então se ter publicado mais uma tradução da Odisseia de Homero:

 

            «É admirável esse esforço, numa altura em que os poderes constituídos desprezam constantemente as culturas em que assenta a nossa civilização ocidental e que a serem conhecidas muito contribuiriam para fomentar o saber das classes dirigentes. Também chamariam a atenção, por mais paradoxal que seja, para a urgência de se fomentar o ensino tecnológico eficaz e não teórico, que com elas convivesse. Esperemos dias melhores e com menos ignorância. Neste momento, porém, uma coisa é certa: mesmo sem ler os clássicos, os políticos do nosso tempo, sem excepção, continuando uma prática que vem desde os arcontes gregos e os imperadores romanos até Hitler, Mussolini e dirigentes democráticos, prosseguem na convicção de que o povo só precisa de Olimpíadas e de pão e Jogos de Circo. Pelos vistos têm razão. É pena».

 

                                                                                  José d’Encarnação


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