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…e porque estou com a “mão na massa”, quer dizer, porque respondo a observação do Pedro Manuel-Cardoso, peço desculpa por maçar aqui com dois textos colocados no meu Facebook (que tenho por força das funções que ocupa no ICOM Europa, mas que sei muito não terem – e fazem certamente nisso), que dão de algum modo resposta a anterior interpelação do mesmo. Descobrimentos, sentimento de pertença nacional e museu. Referi no debate promovido pelo ICOM Portugal sobre o tal “Museu das Descobertas” que no meu tempo de Instrução Primária começávamos por aprender que tínhamos em Portugal uma “história de santos e heróis”, acrescentando o livro de textos logo de seguida que era “a mais bela história do mundo”. E tudo se fazia para nos inculcar, desde crianças, a ideia de que tivemos uma “idade de ouro”, a dos Descobrimentos, fautora de um Império (ainda hoje a praça fronteira aos Jerónimos leva esse nome), de que nos devíamos orgulhar, pois seríamos um País pluricontinental, “do Minho a Timor”. Todo o meu crescimento, desde que pude começar a pensar por cabeça própria, foi feito contra esses mitos, nacionalistas e coloniais. Aquele não era de todo o meu País, nem o País dos que me rodeavam ou mais admirava. Estes eram, antes de tudo os “ventres ao sol” ou os “famélicos da terra”, ou seja, era o País dos pobres e da injustiça social que via grassar à volta. Também era o País dos muitos que, mesmo ricos, faziam naquele presente, como tinham feito em passados seculares e milenares, a opção pelo progresso social, dentro dos limites epistemológicos de cada época e das vinculações de classe que naturalmente os condicionavam. Era o País da nobreza patriótica, mas terratenente e déspota, da Revolução de 1383-85; era o País da burguesia democrática, mas colonial, que fez a revolução de 1910 (saudada por exemplo por Lenine como o primeiro e melhor exemplo de revolução burguesa patriótica do século XX); era até o País do “general coca-cola”, no seu arrastão popular contra a Ditadura. Sentia portanto que tinha, e continuo a sentir que tenho, um País, uma Pátria, onde se conjugam plataformas interclassistas de defesa do nosso modo de vida, da nossa independência contra o domínio estrangeiro. Declaro-me, pois, patriota e uso a palavra sem temores. Todavia, mais do que patriota sinto-me tributário da terra. E sinto que esta é a mais fecunda aproximação do passado, especialmente no caso do espaço que veio a ser fixado como País/Estado/Nação a que chamamos Portugal. Somos aquilo que a nossa posição geográfica de Fim de Mundo fez de nós; somos o produto de uma espessa acumulação de presentes, de hibridizações constantes entre gentes das mais variadas origens (europeias e mediterrânicas, durante milénios; universais, no último meio milénio). Ora, isto que somos pode e deve em meu entender ter tradução em projecto e discursos (plurais, obviamente) museológicos. Chamei-lhe Viagem, mas o nome pouco importa. Entendo finalmente que o projecto que fica enunciado não se encontra, nem poderá vir a encontrar, em nenhum museu já existente e por isso faz falta um novo. E de museu se deve tratar, não de arquivo/centro de estudos ou então de luna-parque comercial. Desde que existem, os museus têm sido combatidos e a sua morte foi já inúmeras vezes anunciada. Foram, na raiz, combatidos pela aristocracia do Antigo Regime, quando a Revolução Francesa inventou o conceito de cidadania e colecções outrora fechadas passaram a ser de acesso livre; são hoje combatidos por muitos capitalistas como impedimento ao desenvolvimento do mercado, por se reclamarem ser entidades sem fins-lucrativos, postas ao serviço da emancipação cidadã. O combate que lhe fazem constitui a melhor garantia da sua utilidade e perenidade. (Ilustração: João Abel Manta, "Estátuas") Descobrimentos, radicalismos e museu. Disse ainda no debate promovido pelo ICOM Portugal sobre o eventual “Museu das Descobertas” que sei bem onde param hoje a maior parte dos que no imediatamente pós-25 de Abril de 1974 clamavam “nem mais um soldado para as colónias” (palavra de ordem do MRPP, especialmente dirigida contra os partidos da esquerda e o MFA). Disse-o de forma demasiado emotiva e talvez excessiva naquele local e naquela circunstância – e disso me penalizo. Mas o ponto é que no momento actual e neste tema do novo museu (que talvez nunca venha a existir…) se vê regressar despudoradamente esse “radicalismo pequeno-burguês de fachada socialista” que então combatíamos activa e até fisicamente – e daí a perturbação. Ora, sendo certo que se trata de fenómeno antigo (“esquerdismo, doença infantil do comunismo”), nem por isso esse radicalismo é menos irritante porque frequentemente resvala para a acusações de ordem moral ou ética. No domínio concreto da luta contra o colonialismo, já antes de 1974 tais correntes assim acusavam a opção de incorporação no exército colonial, considerada pela esquerda social-democrata e comunista tão aceitável como a deserção ou, no caso dos comunistas pelo menos, como a luta clandestina e revolucionária (incluindo a acção armada) contra a Ditadura. E viu-se bem como foi acertada essa opção, mais que não seja pela formação do novo oficialado miliciano que em grande parte compôs o chamado “Movimento dos Capitães”. Pretende-se agora que a mera palavra “descobrimentos” faz de quem a usa cripto-colonialista ou “luso-tropcalista”. Ora, ainda há poucas semanas a vereação comunista da Câmara Municipal de Lisboa propôs a criação de um Festival literário que tivesse em cada ano um tema agregador, sendo um deles… os “descobrimentos”. Dir-se-á ironicamente que não se tratará do mesmo Partido que lutou consequentemente contra a Ditadura, considerando a sua queda indissociável do fim do colonialismo. Claro que o valor semântico das palavras evolui com o tempo e é substancialmente diverso no espaço (“nigro/negro”, “black/preto”, “collaborateur/colaborador”… foram exemplos que também dei no debate em referência). E neste sentido admito que o termo “descobrimentos”, e bem assim o seu sucedâneo “descobertas”, deva ser usado criticamente. Trata-se, além do mais, de termo polissémico. Alberga-se nele a chamada “epopeia dos descobrimentos”, grandíloqua e de “projecto nacional”, tal como contada pelo Estado Novo, quando na verdade os “descobrimentos” foram antes do mais um processo de desenvolvimento do capitalismo mercantil, transportado então para a escala mundial. Mas, sendo isto, foram também condição de desenvolvimento científico e de efectiva “descoberta” recíproca. E se os “descobrimentos” conduziram à exploração e até escravização dos povos colonizados, sobretudo onde (ou a partir de onde) tal era também já praticado pelos poderes dominantes locais, a verdade é que não se traduziram em factor de enriquecimento do povo português. Bem pelo contrário: acentuou-se a pobreza congénita, secular, senão milenar, dos portugueses ou de quem neste território viveu e vivia. E foi a pobreza talvez o mais original traço da nossa colonização, aquele que obrigou a promover na prática, e depois por decreto real, o cruzamento com os povos colonizados. Feios, porcos e maus éramos – tanto como quaisquer outros. Em certos casos até mais em qualquer destas dimensões. Mas éramos também mais pobres – e isso fez, fazia e faz toda a diferença, até no plano da moral e dos costumes. Faz hoje sentido contar esta história de naufrágios, no sentido literal e no sentido metafórico? Creio que sim, porque todos os exercícios de memória merecem sempre a pena, desde que feitos de forma pluralista, com o maior número possível de pontos de vista (incluindo, portanto, dimensões como a da denúncia dos mitos fascistas e de acentuação da exploração e escravatura dos povos colonizados). Mas creio sobretudo que tal narrativa e projecto de museu vale a pena, tal como tenho dito e redito, dentro de uma óptica mais ampla, a da “Viagem”, a do permanente dar e receber de quem se constitui precisamente pela acumulação e cruzamento de “desvairadas gentes”, sejam elas selvagens próximo-orientais e norte-africanos, bárbaros do setentrião europeu, civilizados berberes, escravos africanos… ou eslavos de olhos azuis, imigrantes do Leste europeu. Em tempos, no museu que então dirigia, promovi a realização de festas e até casamentos de comunidades destas últimas origens, que assim puderam ter, talvez pela primeira vez, um espaço público, ademais prestigiado e emblemático, de partilha intercultural. É isso, pois, que importa agora fazer, noutra escala espácio-temporal, mas sempre debaixo da mesma utopia universalista. Debaixo da certeza que o caminho se fez e faz caminhando e que, na terra que habitamos, o fizemos à nossa maneira. Pior do que outros, em muitos casos. Igual, noutros. E melhor, noutros ainda. Mas à nossa maneira. (Imagem: João Abel Manta, “Escafandro”) |
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