Texto A SER PUBLICADO NO PRÓXIMO NÚMERO da REVISTA
PHOÎNIX
o Museu
Nacional, DAS Musas AO "LETAL" ESQUECIMENTO? NÃO!
Profa. Dra.
Regina Maria da Cunha Bustamante
rmbustamante@terra.com.br
Após a vitória dos deuses do Olimpo sobre os Titãs, foi
solicitado a Zeus que fossem criadas divindades "para oblívio de males e
pausa de aflições" (Hesíodo. Teogonia v. 55). Zeus,
então, partilhou por nove noites o leito com Mnemósine, a deusa da memória,
que, um ano depois, deu à luz a nove filhas em um lugar próximo ao monte
Olimpo. Eram as Musas, que diziam o presente, o futuro e o passado. O som de
suas bocas fluía infatigável e suave. Invocando as Musas, o poeta inspirava-se
diretamente na ciência de Mnemósine, isto é, no seu conhecimento das
"origens", dos "primórdios", das genealogias. O passado,
assim desvendado, é mais que o antecedente do presente. Recuando até ele, a
rememoração procura, não situar os acontecimentos num quadro temporal, mas
permite compreender o devir no seu conjunto.
Condizente
com este sentido primevo, os museus se constituíram como um dos lugares
privilegiados de construção de memória. Logo, a destruição de um museu seria
como beber as águas do rio Lete. Na cosmogonia grega, o Lete é um dos rios do Hades e aqueles que bebessem da sua
água ou, até mesmo, a tocassem experimentariam o completo esquecimento das suas
vidas passadas, ocasionando o "letal" esquecimento. A noite de 2 de
setembro foi funestamente marcada pelo incêndio do Museu Nacional, abrigado no
Palácio de São Cristóvão na Quinta da Boa Vista no Rio de Janeiro, edificação
histórica que já fora a residência da Família Real Portuguesa no Brasil
(1808-1821) e, depois, da Família Imperial Brasileira (1822-1889) e, ainda,
sede da Assembléia da primeira constituição republicana do País (1889-1891). A
tragédia do Museu Nacional decorreu devido ao tratamento desidioso que
caracteriza a política governamental brasileira em relação a Cultura e Educação
do nosso país, o que nos aproximou perigosamente do rio Lete pela perda
de parte significativa do seu acervo, calculado em aproximadamente 20 milhões
de itens catalogados ao longo dos seus duzentos anos de existência,
completados, justamente, em junho de 2018. O Museu Nacional, a instituição
museal mais antiga do Pais, era considerado o quinto maior museu do mundo em
acervo.
Podemos
perceber no Museu Nacional a continuidade da tradição do Mouseion ("Instituição das
Musas") de Alexandria no Egito, criado por volta do século III a.C., que
dispunha de biblioteca, jardim botânico, zoológico, observatório astronômico e
laboratório anatômico. Os primórdios do Museu Nacional remontam ao Museu Real, criado por D. João VI em 1818, com a finalidade de
“propagar os conhecimentos e estudos das ciências naturais no Reino do Brasil,
que encerra em si milhares de objetos dignos de observação e exame, e que podem
ser empregados em benefício do comércio, da indústria e das artes”. Para seu
estabelecimento, foi adquirida uma casa no Campo de Santana pela Coroa. O
acervo do Museu Real constituiu-se, inicialmente, da coleção de objetos
naturais, de arte e artefatos indígenas, incorporando também o Gabinete dos
Instrumentos de Física e Matemática. Posteriormente, passou a receber materiais
de todas as capitanias e de outros continentes. Era
também responsável pela análise das aplicações práticas dos produtos naturais.
Em 1824, após a independência do País, era referido como Museu Imperial. Com a
República em 1889, o Museu passou a se chamar Museu Nacional, sua denominação
atual, e sua sede foi transferida do Campo de Santana para o Palácio de São
Cristovão em 1892. Em 1946, foi incorporado à Universidade Federal do Rio de
Janeiro, consolidando-se como referência em diferentes áreas do saber
científico através de suas atividades de pesquisa, ensino e disseminação do conhecimento.
Por
ser um museu de História Natural, o seu acervo abrangia coleções de diversas
naturezas, dentre elas, geológica, paleontológica, zoológica, botânica,
entomológica, antropológica, etnológica e arqueológica. Nesta última, havia
duas coleções em particular que eram muito caras aos estudiosos da Antiguidade:
a Coleção Egípcia e a Coleção Teresa Cristina, que compunham a exposição
"Culturas do Mediterrâneo". A primeira coleção começou em 1826 com a
venda de antiguidades egípcias, escavadas por
Giovanni Belzoni, pelo mercador italiano Nicolau Fiengo para o imperador D.
Pedro I. Os objetos egípcios comprados foram doados para o então chamado Museu
Real. Em 1876, em sua viagem ao Egito, o imperador Pedro II foi presenteado
pelo Quediva Ismail com o esquife da
cantora do deus Amon, Sha-Amun-en-su. Posteriormente, a Coleção Egípcia
foi acrescida de outros objetos por meio de doações ou compras de particulares,
chegando a cerca de 700 objetos: estelas,
estátuas, esquifes, shabits, múmias (humanas e animais), papiros, bronzes,
líticos, cerâmicas pré-históricas, amuletos e alguns objetos núbios. Por sua
vez, a Coleção Teresa Cristina era formada por mais de 700 peças, dentre
vasos de
cerâmica e vidro, lamparinas, estatuetas, artefatos em bronze,
amuletos e afrescos, datados entre o século VIII a.C. e o III. Sua existência
deve-se à Teresa Cristina, princesa do Reino das Duas Sicílias, que se tornou
esposa do imperador brasileiro D. Pedro II em 1843. As descobertas arqueológicas,
advindas das escavações arqueológicas sistemáticas, a partir de meados do
século XVIII, na região da baía de Nápoles, soterrada pela erupção do vulcão
Vesúvio em 79, impactaram Teresa Cristina. As primeiras peças da coleção teriam
vindo com a futura imperatriz brasileira ou enviadas como presente de
casamento. Posteriormente, a coleção foi acrescida através do intercâmbio com
seu irmão Fernando II (rei das Duas Sicílias) de artefatos indígenas
brasileiros por antiguidades greco-romanas e também com peças oriundas de
escavações arqueológicas, por ela financiadas, em sua propriedade, recebida
como herança, em Veio, no norte da Itália.
O
Laboratório de História Antiga da UFRJ foi tomado de imensa tristeza e
indignação pelo incêndio e se solidariza com nossos colegas do Museu Nacional
neste momento difícil. Urge que sejam tomadas medidas eficazes em prol dessa
importante instituição museal para a continuidade de suas atividades de ensino e pesquisa, de exposições públicas, de
divulgação científica e de assistência ao ensino. Faz-se, cada vez mais
necessário, num país amnésico como o nosso, que se preserve com afinco o dom
sagrado das Musas aos homens.