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Na mensagem “Ainda sobre Serralves” Humberto Rendeiro coloca uma importante questão, ao desafiar a Patrimologia (museologia) a intervir no caso de Serralves. Concretamente
quando afirma: “merece ser escrutinado de qualquer das maneiras por nós profissionais da área”.
É uma questão crucial para a credibilidade técnica e científica da Patrimologia (museologia) enquanto ramo do conhecimento autónomo.
Infelizmente a maioria dos cursos (senão, em
todos) ditos de «museologia e/ou património» existentes em Portugal não oferecem aos discentes/formandos/alunxs esse conhecimento autónomo que permitiria orientar as atuações profissionais dos Responsáveis pelo Património nas várias infraestruturas (museus,
palácios, monumentos, sítios, bibliotecas, arquivos, parques, centros-de-interpretação, etc.). Há uma reformulação dos
curriculae que é urgente fazer.
A formação em Patrimologia (museologia) em Portugal é confundida com os saberes das
Especialidades: ou a um certo tipo de acervo; ou a um certo tipo de temática; ou a um certo tipo de objetos/coleções; ou a um certo tipo de procedimentos (por ex., curadoria, expografia, conservação, documentação, comunicação, etc.); ou a um certo tipo
de disciplinas (história, arquitectura, design, multimédia, etc.).
Confundem Patrimologia (museologia) com esses
saberes particulares, evidentemente imprescindíveis. Esta lacuna (inércia) não ocorre apenas por motivos ingénuos, tem a ver com o receio de perda de poder no seio dessas instituições/infraestruturas patrimoniais. E com o peso dessas disciplinas no atual
status quo académico e social. Um receio infundado, mas que persiste.
Se no caso de Serralves essa intervenção da Patrimologia (museologia) tivesse ocorrido, provavelmente o processo de comunicação do conteúdo da Exposição com a
Sociedade e xs Visitantes teria obstado à parte da polémica desnecessária (ficando apenas aquela que interessava do ponto de vista Patrimonial). Porém isso não ocorreu. Confundiu-se mais uma vez
Curadoria, Comunicação e Administração com Patrimologia (museologia).
É aqui, na persistência deste erro e desta lacuna, que esta mensagem de Humberto Rendeiro é pertinente.
A Patrimologia (museologia) poderia ter ajudado a
tornar consciente e guiar as decisões de gestão do património naquela Exposição. Aqui não é o local para explanar o assunto. Apenas referirei que, desse contributo da Patrimologia (museologia), neste caso concreto de Serralves, era possível fazer compreender
à Sociedade e aos Visitantes como aquele património interrogava os
9 grandes tipos de explicações/teorias da Arte e os 73 modos de fazer Arte que ocorreram até ao momento na história humana. E, como de cada um desses modos de explicar/interpretar e fazer a Arte, se poderiam formular
Perguntas. Que transformariam a polémica, e a relação com xs Visitantes, numa oportunidade educativa e patrimonial prestigiante para Serralves. Perguntas sobre:
1. A Arte explicada como “forma estética” (C. Bell,
et alli);
2. A Arte explicada como “expressão e sentimento estético” (R.G. Collingwood, et alli);
3. A Arte explicada como “essência ou estrutura do invisível estético-artístico” (Nietzsche, Adorno, Heidegger, W. Benjamin, M. Mandelbaum, J. Lichtenstein);
4. A Arte explicada por uma “utilidade social e função moral” (Tolstoi,
et alli). A Arte explicada enquanto comunicação-mimetismo-empatia. Como uma forma de comunicação [comunicação] de sentimentos autênticos, com os quais o artista contagia [mimetismo] as pessoas, criando uma comunhão
de sentimentos [empatia]. Sendo nesse sentido que possui uma função moral e social;
5. A Arte explicada pelo “esforço desesperado dos seres-humanos atribuírem um sentido ao Absurdo” (Jacques Rivette, 1960,
et alli);
6. A Arte explicada pelo “poder de provocar Analogias”, designadas “semelhanças de família” (Wittgenstein, Weitz, et alli), e não pela procura de qualquer
“essência”(seja o sublime, o belo, o estético, ou outras);
7. A Arte explicada pelo Contexto Social, pelos “mundos-da-arte” e pelos “contextos institucionais” (Beardsley, Dickie, Danto, Stolnitz, Goodman, et alli);
8. A Arte como «transgressão sistemática das normas da Tradição ou do status quo» que «deve ser medida pelo grau de indignação do recetor/consumidor/destinatário»,
explicada por ser «um jogo de comunicação entre o autor e o recetor, e entre a coisa e a sociedade».
9. A Arte como o “inexplicável” (por exemplo em 2016, com os
óculos não-expostos por
Kevin Nguyen no Museu de Arte Moderna de São Francisco/EUA).
10. A Arte como um «acto trans- ou pós-Humano», feita por autonomamente por robots e algoritmos.
Perguntas até mais complexas e atuais, como por exemplo:
«Já não chega de Corpo e de Género?» «Quem é o Ser que faz aquilo com o Corpo?», etc.
A Patrimologia (museologia) consegue [perante todos os tipos de museus, patrimónios, acervos, temáticas, objetos, coleções, exposições, designs, disciplinas científicas, curadorias,
dispositivos multimédia, etc.] elevar-se acima do saber dessas Especialidades, fornecendo uma metodologia, uma epistemologia, e um saber autónomo que guiam a Gestão do Património.
Espera-se que da parte de quem é responsável pela Formação em Patrimologia (museologia) em Portugal que haja esse esforço, de melhorarem os
curriculae e os resultados dessa formação na sua relação prática com a gestão concreta do Património.
Pedro Manuel-Cardoso
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