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Caro Amigo,
Sim. As mensagens que recebi, a propósito da que enviei, foram várias.
Julgaram que a minha mensagem foi emotiva ou inocente. Não. Foi formulada a pensar na repercussão que teria. E num alvo muito preciso que pretendia atingir.
Fi-lo porque há nesta questão um problema que atrapalha e impede uma análise antropológica distanciada e racional. De facto, há um problema que torna esta questão um assunto
de grande melindre e emoção, e cega muitos dos que, hoje, se dizem «portugueses» e se dizem «angolanos». Resulta das relações e dos sentimentos que viveram nessa relação humana entre estes dois territórios políticos a que hoje se chama «Portugal» e «Angola».
O que me surpreende, é o paradoxo e a contradição daqueles opinadores e etnólogos que escreveram muitos livros e artigos sobre a questão do Colonialismo e Neo-Colonialismo com
uma opinião que agora não é a mesma porque se trata das suas emoções e sentimentos pessoais relativamente a essa relação humana entre «angola» e «Portugal».
É esse paradoxo e essa contradição que são extremamente ricos para se fazer, a partir deles, uma análise verdadeiramente antropológica e credível em termos científicos. Era
daí, dessa contradição e desse paradoxo, que estão entranhados nas profundezas daquilo a que chamamos «ser-humano» que valia a pena fazer Antropologia. E peço mais uma vez desculpa para insistir no meu “Modelo Antropológico da Inteligibilidade e do Comportamento
Humano” (reenvio em Anexo) e da palestra que proferi na SPAE em 3dez2016.
O que isso demonstra é a pertinência da redefinição do conceito de «Ser-humano» que propus. Concretamente, de que o que fomos no passado, e somos no presente, é uma fase imberbe
e imatura de um Ser que há-de vir. Esse sim, o verdadeiro Ser-humano que nos germina. Aquele que a indecidibilidade de Wittgenstein e o teorema de K. Gödel, ou a formulação bayseana de inteligência humana, discerniram. Cujo entendimento tentei provocar com
a invenção do «robot Žylěch» (a tal máquina universal que resolve o problema do Conhecimento e o atira para fora daquilo que especifica o tal «Ser-humano», porque ainda sobra disso e ainda terá que viver para lá dessa habilidade).
Esses «Objectos» que agora parecem ser uma disputa, servem para esmagar de um modo xenófobo e fascista as
Diversidades Étnicas, quer daquilo a que se chama hoje «Angola» e «Portugal». Servem para criar um
Unionismo político-ideológico que destrói as Diferenças e os Outros. Não as do passado, as de hoje. Portanto, não há inocentes e culpados no modo como tenho lido e ouvido este debate. São todos culpados.
O
Ser-humano que hoje somos, do ponto de vista antropológico, não é o mesmo do que há 30 anos. E, a “Mutação do Corpo” (lida no contexto daquele
Modelo que propus) ainda acelerará mais essa transformação da «espécie».
Passei muitas horas nas
Reservas desses museus portugueses a estudar esses «objectos patrimoniais» quando estava na licenciatura, no mestrado e na parte escolar do doutoramento em Antropologia. Conheço bem os escritos e as opiniões sobre este assunto (G. DUMÉZIL, Jorge DIAS,
Jean-Loup AMSELLE, (2008), ASHCROFT, Bill & GRIFFITHS, Gareth & TIFFIN, Helen (eds.)
(1995), Roger BASTIDE (1956), William Bissel (2005), James CLIFFORD (1994), Paul GILROY (1993), Saba MAHMOOD (2006), Régis MEYRAN, (2012 Jan), Timothy MITCHELL
(1998), Chandra MOHANTY (1998), Xavier MOLÉNAT (2012 Jan.), Paul RICOEUR (1988), Renato ROSALDO (1989), Edward W. SAID (1978), Arnd SCHNEIDER (2000), Gayatri C. SPIVAK, (1985), Marylin STRATHERN (1987), Patrick WILLIAMS & Laura CHRISMAN (eds.). (1994), Robert
J.C. YOUNG, (2001), e outros.
No curso de doutoramento em antropologia da FCSH/UNL escrevi em 2011:
Isso ainda contribui mais para a pertinência da mensagem que enviei.
Abraço
Pedro Manuel-Cardoso
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Biblio PMC Modelo Antropológico da Inteligibilidade e da Condição Humana por Pedro Manuel Cardoso 1986 2018.pdf
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