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[Museum] Re Devolver os Bens Colonizadores de Portugal

Subject :   [Museum] Re Devolver os Bens Colonizadores de Portugal
From :   Pedro Pereira <pedropereiraoffic@outlook.com>
Date :   Sun, 9 Dec 2018 18:27:36 +0000

Caro Amigo,

Sim. As mensagens que recebi, a propósito da que enviei, foram várias.

Julgaram que a minha mensagem foi emotiva ou inocente. Não. Foi formulada a pensar na repercussão que teria. E num alvo muito preciso que pretendia atingir.

Fi-lo porque há nesta questão um problema que atrapalha e impede uma análise antropológica distanciada e racional. De facto, há um problema que torna esta questão um assunto de grande melindre e emoção, e cega muitos dos que, hoje, se dizem «portugueses» e se dizem «angolanos». Resulta das relações e dos sentimentos que viveram nessa relação humana entre estes dois territórios políticos a que hoje se chama «Portugal» e «Angola».

 

O que me surpreende, é o paradoxo e a contradição daqueles opinadores e etnólogos que escreveram muitos livros e artigos sobre a questão do Colonialismo e Neo-Colonialismo com uma opinião que agora não é a mesma porque se trata das suas emoções e sentimentos pessoais relativamente a essa relação humana entre «angola» e «Portugal».

É esse paradoxo e essa contradição que são extremamente ricos para se fazer, a partir deles, uma análise verdadeiramente antropológica e credível em termos científicos. Era daí, dessa contradição e desse paradoxo, que estão entranhados nas profundezas daquilo a que chamamos «ser-humano» que valia a pena fazer Antropologia. E peço mais uma vez desculpa para insistir no meu “Modelo Antropológico da Inteligibilidade e do Comportamento Humano” (reenvio em Anexo) e da palestra que proferi na SPAE em 3dez2016.

 

O que isso demonstra é a pertinência da redefinição do conceito de «Ser-humano» que propus. Concretamente, de que o que fomos no passado, e somos no presente, é uma fase imberbe e imatura de um Ser que há-de vir. Esse sim, o verdadeiro Ser-humano que nos germina. Aquele que a indecidibilidade de Wittgenstein e o teorema de K. Gödel, ou a formulação bayseana de inteligência humana, discerniram. Cujo entendimento tentei provocar com a invenção do «robot Žylěch» (a tal máquina universal que resolve o problema do Conhecimento e o atira para fora daquilo que especifica o tal «Ser-humano», porque ainda sobra disso e ainda terá que viver para lá dessa habilidade).

 

Esses «Objectos» que agora parecem ser uma disputa, servem para esmagar de um modo xenófobo e fascista as Diversidades Étnicas, quer daquilo a que se chama hoje «Angola» e «Portugal». Servem para criar um Unionismo político-ideológico que destrói as Diferenças e os Outros. Não as do passado, as de hoje. Portanto, não há inocentes e culpados no modo como tenho lido e ouvido este debate. São todos culpados.

 

O Ser-humano que hoje somos, do ponto de vista antropológico, não é o mesmo do que há 30 anos. E, a “Mutação do Corpo” (lida no contexto daquele Modelo que propus) ainda acelerará mais essa transformação da «espécie».

 

Passei muitas horas nas Reservas desses museus portugueses a estudar esses «objectos patrimoniais» quando estava na licenciatura, no mestrado e na parte escolar do doutoramento em Antropologia. Conheço bem os escritos e as opiniões sobre este assunto (G. DUMÉZIL, Jorge DIAS, Jean-Loup AMSELLE, (2008), ASHCROFT, Bill & GRIFFITHS, Gareth & TIFFIN, Helen (eds.) (1995), Roger BASTIDE (1956), William Bissel (2005), James CLIFFORD (1994), Paul GILROY (1993), Saba MAHMOOD (2006), Régis MEYRAN, (2012 Jan), Timothy MITCHELL (1998), Chandra MOHANTY (1998), Xavier MOLÉNAT (2012 Jan.), Paul RICOEUR (1988), Renato ROSALDO (1989), Edward W. SAID (1978), Arnd SCHNEIDER (2000), Gayatri C. SPIVAK, (1985), Marylin STRATHERN (1987), Patrick WILLIAMS & Laura CHRISMAN (eds.). (1994), Robert J.C. YOUNG, (2001), e outros.

No curso de doutoramento em antropologia da FCSH/UNL escrevi em 2011:

 

 

Título: «Antropologia: Os Heterónimos do Mesmo em Viagem pelo Outro».

Autor: Pedro Manuel-Cardoso

Resumo:

O ensaio interroga a Antropologia a partir dos autores e textos propostos no Módulo 3 do Seminário “Problemáticas da Antropologia”: “Disrupções na Antropologia Depois do Colonialismo” (UNL/FCSH, 2011). Isto é, a partir da nova consciência que os Estudos Pós-Coloniais provocaram na antropologia, concretamente, de que tanto o Eu/Nós como o Outro sempre se pensaram mutuamente, e sempre estiveram associados num “processo de colonização mútua” (Maria Cardeira da Silva, 2011).

O Ensaio argumenta, na base dessa evidência etnográfica, que o Eu/Nós e o Outro são ambos, apenas, heterónimos de um Mesmo que necessita de ser repensado, tanto a nível teórico como metodológico. E tenta chamar a atenção para a necessidade de encontrar outros modelos que permitam sair para fora dessa relação Eu/Nós-Outro, tal como chamaram a atenção vários autores estudados neste Módulo 3 (Spivak, 1985; Mohanty, 2002; Mahmood, 2006). A resposta de Jean-Loup Amselle à pergunta “La question qui se pose alors est de savoir si ce risque d’enférmement identitaire est inhérent á la pensée postcoloniale ou s’il n’en est qu’un épiphénomène…” (Amselle, 2008, pp.4-5) reforça essa necessidade de encontrar essa saída na análise antropológica das diferenças e da variabilidade humana. Razão pela qual intitulámos o Ensaio por: Os Heterónimos do Mesmo em Viagem pelo Outro. O Ensaio sugere que esse contributo obriga, até, a “repensar a unidade do género humano” (Molénat, 2012, p.56), visto que a evidência da colonização mútua remete forçosamente para um Mesmo que antecede categorialmente tanto o Eu/Nós como o Outro.

Em suma, o Ensaio opta por caminhar pelas brechas abertas por estes contributos, em vez de o fazer pelas partes mais consensuais e consolidadas.

 

Palavras-chave: Antropologia, Problemáticas/Teoria, Pós-Colonialismo, Cognição. 

 

Índice:

1 – Introdução.

2 – A Ignomínia do Eu/Nós versus Outro.

3 – A Ocultação do Mesmo.

4 – O Labirinto Sem Saída da Antropologia interpretativista.

5 – As repercussões dos Estudos Pós-Coloniais no estudo do Património.

6 – Conclusão.

7 – Notas.

8 – Referências bibliográficas.

 

 

Isso ainda contribui mais para a pertinência da mensagem que enviei.

Abraço

Pedro Manuel-Cardoso

 

 

 

Attachment: Biblio PMC Modelo Antropológico da Inteligibilidade e da Condição Humana por Pedro Manuel Cardoso 1986 2018.pdf
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