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Agora fala-se muito de «Autonomia», como se fosse isso que importa numa correcta
Gestão do Património ou na Reforma da Política Pública de Museus e infraestruturas congéneres que é necessária. Cada conjuntura tem o seu totem ou avatar. Uma solução tida por miraculosa.
Não, não é esse o caminho. A questão não é essa. O debate tem que ser mais democrático e menos presunçoso. Deviam começar pelo início, e fazer o caminho de montante a jusante.
O Património não é isso.
“Perante um
objecto patrimonial é difícil encontrar uma resposta plena para as perguntas: «Estou a ver o quê? Como, dentro de mim, e por que parte de mim, estou a vê-lo? O que é que sempre vi do que
estou a ver, e o que poderei ainda não ter visto? O que é que esse ver não me deixou ver? Qual é a responsabilidade na comunicação que se faz dele à comunidade?». Porque onde alguém vê
no objecto a prova de uma vitória militar, outra pessoa vê no mesmo objecto um acto criminoso de colonialismo; onde alguém vê no objecto o lado positivo outra pessoa vê o lado negativo. O objecto é simultaneamente o verso e o anverso, a afirmação e a negação,
a lembrança de algo e o esquecimento de outra parte, e assim sucessivamente. O carácter polissémico e indecidível do Património, e a necessidade desse problema ser constantemente resolvido nos actos comunicativos que são as expografias, constituíram o ponto
de partida deste trabalho e o desafio colocado à Cultura. Em suma, o problema de um
objecto patrimonial assumir vários significados, e de estar sempre para além da evidência empírica e do positivismo do contexto onde está inserido. Este problema de partida entronca num
debate muito antigo para o qual recentemente Junqua & Lacouture contribuíram a propósito do património dos gestos, ao afirmarem que “O erro do empirismo é crer que os factos constatados contêm já a
explicação do fenómeno. Exactamente ao contrário, é necessário encontrá-la.” (Junqua & Lacouture, 2001, p.9). Antes, Karl Popper tinha afirmado que “a raiz desse problema está na aparente
contradição entre o que pode ser chamado de «tese fundamental do empirismo» ¾ tese segundo a qual só a experiência pode decidir acerca da verdade ou falsidade de um enunciado científico ¾ e o facto de Hume se ter dado conta da inadmissibilidade de argumentos
indutivos.” (Popper, 1985, p.44). E Fernando Gil acrescentaria ao debate a afirmação de que “Experiência e Juízo partem do mesmo ponto. A experiência é «evidência dos objectos individuais»
e a evidência dos objectos individuais constitui «o conceito de experiência no sentido mais lato». (…) Evidência do objecto individual e Experiência definem-se uma pela outra. (…)
a concreção do individual exprime-se por um poder de fascinação por onde passa a função de apresentação: eis o segredo da operação da evidência.” (Fernando Gil, 1986, pp. 253/254).
Os resultados alcançados por este trabalho indicam que para se obter a compreensão do carácter polissémico e aparentemente indecidível do Património é necessário considerar
um contexto diferente dos que foram utilizados até ao momento, e que essa compreensão ocorre no domínio do fenómeno da Relevância. Mas refuta a afirmação de que “uma suposição é relevante dentro de
um contexto se, e apenas se, tiver algum efeito contextual nesse contexto.” (Sperber & Wilson, 2001, p. 194). Pois os resultados indicam que a relevância do património não ocorre apenas desse modo
¾ fechada na especificidade particular de cada contexto sócio-histórico; ou nas propriedades materiais, formais ou estéticas de cada objecto patrimonial. Foi possível demonstrar que a redução
algorítmica da Relevância a códigos permitiu desenvolver capacidades cognitivas cada vez mais apuradas e eficazes. E ao ser possível
pôr em código o valor patrimonial dos «objectos» foi possível transmiti-lo às gerações seguintes sob a forma de codificação. Portanto, ser relevante num contexto (época) pode ter um efeito
noutra época e noutro contexto. Esse processo de codificação foi, pelo menos em parte, responsável pelo aparecimento da abdução, da analogia, da dedução, da homologia e das restantes capacidades inerentes aos nove valores patrimoniais que se descobriu existirem
nesse mapa mental que designámos por Estrutura da Relevância ou Estrutura do Valor Patrimonial (Manuel-Cardoso, 2010). São eles que servem de critérios-instruções para seleccionar os objectos
que designamos por «património», e dotá-los da qualidade patrimonial. São esses
critérios que transformam a realidade e os objectos em Património. E que trabalham para aperfeiçoarem a habilidade da mente nessa busca da Relevância. A
gestão da Relevância durante a filogenia, pela importância que se verifica ter para o êxito adaptativo, tem grande probabilidade de constituir uma parte da explicação para a origem da própria cognição. Os factos indicam que este é um caminho que vale
a pena percorrer na investigação e na interpretação do Património.
Mas os resultados deste trabalho indicam também que, no caso do Património, não é verdade “que não haja qualquer expectativa”
dos seres humanos gerirem a Relevância de modo “equilibrado e satisfatório” como afirmam Dan Sperber e Deirde Wilson (Sperber & Wilson, 2001, p.240). Essa esperança está nas heurísticas
que os mesmos autores reconheceram existirem, “sendo algumas inatas, outras desenvolvidas através da experiência” (ibidem), e que neste trabalho verificámos estarem codificadas na mnése.
As quais Arthur Kœstler já tinha chamado “regras de jogo”, pressupondo que regiam “a vida orgânica, em todas as suas manifestações,
desde a morfogénese até ao pensamento simbólico” (Watzlawick & all. 1972, p. 21). O Património ao resistir aos diferentes contextos que se foram sucedendo, e ao deixar de ser uma mera conjectura introspectiva, ajuda a compreender o pensamento e
a acção humana, e contribui para reforçar a “(…) ligação entre as ciências tradicionalmente vocacionadas para a natureza e o mundo físico e as humanidades.” (Squire & Kandel, 2002, p.223).
Em termos teóricos, conclui-se que o Estudo do Património visa a compreensão do processo que confere à realidade-existência a qualidade patrimonial através de um modelo interpretativo
que relaciona os processos de patrimonização,
musealização e
memória, cujo contexto é uma oscilação permanente entre Fenomenologia e Positivismo. Em termos práticos, essa compreensão do Património conduz o trabalho patrimonial a ter por objectivo
a obtenção de um «suporte» com «documentos/dados de partes da realidade-existência consideradas Relevantes», e cujo
acesso pela memória-cognição não tenha limitações (espaciais, temporais, contextuais, sociais, ideológicas ou outras), de modo a obter uma eventual vantagem adaptativa. Os designados «museu», «biblioteca», «arquivo», «sítio», «monumento» e outras infra-estruturas
equiparadas, servem para envolver alguns tipos de Património para os melhor gerir e preservar.
No percurso de raciocínio que conduziu àquela conclusão destacam-se os seguintes contributos: i) Caracterizou-se a realidade patrimonial contemporânea, identificando-se as consequências
do impacto da ideologia do Desenvolvimento, concretamente o aparecimento do «Objecto-código», do «Uso
comunicacional total» e do «Valor
transformacional»; ii) Sistematizaram-se os factores e variáveis que caracterizam o património enquanto objecto de conhecimento; iii) Descobriu-se a
Estrutura do Valor Patrimonial ou
Estrutura da Relevância que codifica nove critérios que guiam a transformação da realidade (objectos/documentos/usos) em património; iv) Redefiniu-se o modo de identificar o
processo de patrimonização; v) Propôs-se um entendimento processual para a interpretação do Património; vi) Fez-se a distinção entre
processo de patrimonização,
processo de musealização e
processo de memória, propondo-se a relação entre esses três processos como o caminho metodológico para se investigar o património.”
(Pedro Manuel-Cardoso, 2011, “A Cultura perante o Património”, Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras,
Lisboa) |
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