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[Museum] Museu José Malhoa | Exposição Impasse de Carlos No

To :   museum@ci.uc.pt
Subject :   [Museum] Museu José Malhoa | Exposição Impasse de Carlos No
From :   Museu José Malhoa <mjosemalhoa@drcc.gov.pt>
Date :   Fri, 1 Feb 2019 15:37:16 +0000

“IMPASSE” Exposição individual de Carlos No
Escultura e desenho
De 24 de janeiro a 3 de março de 2019
Entrada Livre

 

“Impasse” é o título da segunda exposição individual que Carlos No (Lisboa,1967) inaugurou nas Caldas da Rainha no dia 24 de janeiro.
Esta exposição é constituída por uma escultura site specific, de grandes dimensões, que irá ocupar todo o espaço central da Sala de Exposições Temporárias deste Museu. Será acompanhada por maquetas e desenhos de estudos efetuados durante a conceção da mesma.
Esta obra vem na sequência de uma linha de pesquisas que Carlos No vem efetuando, há vários anos, através das quais o artista procura chamar a atenção para determinados aspetos ou situações do mundo atual que provocam no autor um sentimento de revolta e inconformismo. Carlos No parte sempre de temas provocatórios e neste caso é a evidência de uma miséria que se tornou parte integrante de um tecido social urbano das sociedades contemporâneas que foi o tema eleito: o da habitação precária associada às condições de pobreza e de exploração laboral. Nesta obra o artista procurou explorar conceitos como os de Casa, Habitação, Precaridade e Exploração levando desta forma à reflexão sobre os mesmos. Pretende-se através deste dispositivo fazer a alusão às más condições de trabalho e de alojamento de milhões de trabalhadores em todo o mundo, sujeitos a desumanas e precárias condições laborais e habitacionais. Como o título sugere, estamos perante uma situação de difícil resolução para a qual parece não haver solução possível à vista.
Esta obra foi concebida para a Sala de Exposições Temporárias do Museu José Malhoa, sendo por isso inédita.



"Circulação temporariamente interrompida"

 "Nos anos 60, o noveau-realisme francês, a arte povera italiana e os pós-minimalistas americanos, revigoraram o poder evocativo dos materiais e dos objetos, abrindo a porta a um conjunto de sublinhados poéticos e políticos que não alienavam a teatralidade dos espaços e dos objetos instaurada pelos minimalistas mas antes a traziam para um território subjetivo, onde o sujeito se reconetava com o mundo e com a possibilidade de um olhar transfigurado sobre ele.

Podemos pensar na memória e cruzamento dessas aventuras artísticas como uma genealogia possível para a obra que Carlos No vem realizando nos últimos anos e para a qual uma tensão entre o empírico e o conceptual, o contingente e o histórico se revela fundamental.

Politicamente empenhado e socialmente desperto, mas não menos consciente da natureza específica do lugar e atuação possíveis da arte, No convida-nos a encontrar uma espécie de refração nos objetos que escolhe, modifica e apresenta; um efeito de espelhamento empírico que coloca esses artefactos no seio de uma rede de relações aparentemente invisíveis que reverberam as condições materiais do mundo em que vivemos e ao mesmo tempo as dialéticas sociais que sobre elas se erguem.

Só que ao contrário do design e das conceções que norteiam a criação de objetos funcionais, configurados para a eficácia, as estratégias artísticas de Carlos No concentram-se precisamente na ideia de inadaptação, entorse, desencaixe, desequilíbrio, rejeição, projetando assim para um plano sensorial e partilhável os desequilíbrios económicos, culturais e étnicos que enformam as sociedades contemporâneas.

Em “Impasse”, uma grande escultura-instalação que atravessa diagonalmente uma das salas do Museu José Malhoa, reconhecemos a aparência metálica de uma daquelas passagens a que somos forçados a recorrer quando um prédio se encontra em remodelação e os trabalhos podem fazer embater sobre nós o entulho ou alguma ferramenta que se solte de um ponto mais alto do edifício.

A obra faz uma referência direta ao universo da construção civil mas podemos encontrar nela uma outra, velada, àqueles que nela constituem a força de trabalho, os imigrantes ilegais, as minorias étnicas, os que, por uma razão ou outra, sempre ligada à exclusão encontraram no trabalho físico e desqualificado um modo de sobrevivência.

Ao endossar-nos o paradoxo de um tapume selado que não se deixa atravessar, Carlos No faz da impossibilidade de circulação uma constatação física, ao alcance de todos, obrigando-nos a estancar por momentos e a encontrar na nossa (não) experiência, a condição e destino do outro.

Transformar uma experiência de algo quotidiano, mecânico e potencialmente não consciente num processo de desfamiliarização é um caminho de interrupção vivificador, um detournement objetual que interrompe a nossa resposta automática à vida naturalizada e nos faz enfrentar um lugar de exílio em que nunca nos imaginámos. Por uma vez, como o refugiado, o migrante, ou o “ilegal”, também nós não passaremos. Talvez que nesse provisório e indolor “Impasse” algo em nós se mova."

 

Celso Martins, janeiro, 2019





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