Ousarei
afirmar que, a exemplo do que aconteceu em 1755, quando o grande terramoto de Lisboa
provocou por toda a parte, mormente entre os pensadores, as mais desencontradas
reflexões, o incêndio da catedral de Notre Dame também suscitará o aprofundamento
de questões sobre as quais nem sempre estamos disponíveis para nos debruçarmos.
Transcrevo,
pois, com a devida vénia, o que o Doutor Frederico Lourenço – que empreendeu,
como se sabe, a tarefa de traduzir os textos bíblicos – publicou:
O numinoso
A angústia com que, ontem, todos recebemos a notícia
do incêndio de Notre Dame foi uma chamada de atenção
que nos lembrou esse extraordinário contributo da Igreja Católica para a
humanidade: a sua arte (seja ela arquitectura, pintura, escultura ou música). O
que seria do mundo sem as grandes obras-primas da arte católica? Seria um mundo
incomparavelmente mais pobre – e um mundo onde eu, pessoalmente,
detestaria viver. A beleza das catedrais românicas e góticas, a harmonia da
arte renascentista católica, a glória da sua arte barroca: que deserto
espiritual seria viver sem estes testemunhos do numinoso, que nos mostram um
aspecto fundamental da experiência religiosa: o facto de as palavras não
chegarem para exprimir Deus.
Gosto da palavra «numinoso». Vem do substantivo latino
«nūmen», que se refere a algo da esfera do sobrenatural: talvez um poder
ou uma influência divina, talvez a própria ideia
de divindade. Mas eu diria que o sentido essencial de «nūmen» está ligado
à sua etimologia, à sua ligação com
o verbo «nuō», que significa à letra fazer um sinal com a cabeça. O mesmo
étimo indo-europeu está presente em grego
(no verbo νεύω, «fazer sinal com a cabeça») e em sânscrito,
numa forma verbal que significa «move-se». Gosto de pensar no «numinoso» como
uma maneira de Deus nos acenar.
A arte é por excelência o campo de acção do numinoso e, quando contemplamos o tecto da
Capela Sistina ou ouvimos a música de Bach, sentimos esse estremecimento de
sermos objecto do aceno numinoso de Algo que se move: Deus. A filosofia grega preferia conceber Deus como entidade
isenta de movimento, mas não é assim que judeus e cristãos entendem o seu Deus
que, logo no versículo 2 do Génesis, é descrito como tendo «um espírito» que é
entidade dotada de movimento (levado «sobre as águas», como no original
hebraico e na Vulgata, ou «sobre a água», na Septuaginta).
O Deus cristão é um Deus que se move; e dir-se-ia que
apercebermo-nos da sua moção provoca
em nós comoção. Sempre que me comovo
diante de uma catedral gótica, ou diante da Pietà de Michelangelo, sinto isso
como aceno de que Deus se moveu em mim. Agradeço essa experiência numinosa do
sagrado à inspiração de tantos
artistas e por isso dou plena razão a Ovídio quando escreveu que os artistas,
enquanto «vates» (ou seja, mediadores entre o sagrado e o humano), são eles
próprios sagrados («sacri» em latim) e objecto do cuidado divino: «existem
inclusive aqueles que pensam que temos um nūmen» («sunt etiam qui nos
numen habere putent», Amores 3.9.18).
A grande arte pictórica, arquitectónica e musical tem
um papel insubstituível na experiência religiosa, porque a inspiração numinosa que lhe subjaz tem uma validade que
pode ser sentida e aceite independentemente da razão. A experiência de ouvir a
Paixão Segundo São Mateus de Bach é diferente de ler a seco o texto grego de Mateus porque não é possível, na leitura,
desligar a razão. Quando leio Mateus pergunto-me se o papel de Judas na entrega
de Jesus às autoridades terá verosimilhança histórica ou se não é uma
retroprojecção nascida a partir da
inimizade contra os judeus dos primeiros cristãos (pois o nome Judas sugere de
imediato Judá e judeus). Se foi Judas a entregar Jesus às autoridades, por que
motivo não há menção disso no texto
mais antigo que fala desse facto (1 Coríntios 11:23)?
Por que razão só em Mateus os judeus presentes na
condenação de Jesus dizem «o sangue
dele <caia> sobre nós e sobre os nossos filhos»? Nenhum outro evangelista
regista esta carta branca para a culpabilização
eterna de judeus por parte de cristãos. Quando Mateus menciona a coroa de
espinhos colocada em cima da cabeça de Jesus, ocorre-me sempre perguntar por
que razão não existe coroa de espinhos em Lucas. E por associação de ideias,
lembro-me da coroa de espinhos, essa tão famosa quanto duvidosa relíquia da
catedral de Notre Dame, templo que conserva ainda fragmentos da «vera» cruz e até um prego com que Jesus foi crucificado (o
que por sua vez me leva a pensar que Marcos, Mateus e Lucas nunca dizem que
Jesus foi pregado na cruz).
No entanto, quando oiço isto transposto e sublimado
pela música de Bach, tudo adquire outra dimensão. Não se trata já de questionar
a sua verosimilhança histórica. Não se trata de analisar por meio da razão. A
grande arte religiosa (e Notre Dame é disso um extraordinário exemplo) leva-me
para outro plano. E nesse plano – onde actua o numinoso – posso sentir
a experiência do sagrado como aceno de Deus.
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Professor Doutor José d'Encarnação
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