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Olivier Messiaen em 1986 | Fonte: Wikimedia Commons
Homenagens a Messiaen
As
obras musicais Hommage
à Messiaen e Modos de Expressão Ilimitada,
respetivamente assinadas por Vasco Pearce de Azevedo e Eurico
Carrapatoso, coincidem nalguns aspetos. Ambas estão escritas para
orquestra de cordas e prestam tributo a Olivier Messiaen (1908-1992), uma
figura pioneira que, de maneira audaz, soube fecundar a criação musical com inspirações improváveis,
integrando-as na sua própria linguagem. Os dois compositores portugueses
escrevem sobre isso, na primeira pessoa.
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Hommage à Messiaen
Texto de Vasco
Pearce de Azevedo (Junho de 2019)
Conforme o nome indica,
a peça foi escrita como uma homenagem a Olivier Messiaen. Trata-se neste
caso de uma versão orquestral de uma peça para coro “a cappella” a 5
vozes (“O Magnum Mysterium”) que eu escrevi em 1988 por ocasião do 80.º
aniversário do homenageado.
É uma peça onde
tentei colocar em evidência algumas das técnicas mais características de
Messiaen ao longo da sua produção
musical: uso de modos de transposição
limitada (quer ao nível melódico, quer ao nível harmónico), ritmos com
valores acrescentados e forma de mosaico.
A peça está
essencialmente estruturada em 3 secções: a primeira, de carácter lento e
contemplativo, expõe o material musical (sequências harmónicas) de forma
homofónica. A segunda, de carácter vivo e agitado, começa, numa primeira
fase, por expor melodias tocadas em uníssonos e oitavas, sendo que numa
segunda fase alterna essas melodias com pequenos excertos das homofonias
da primeira secção. A terceira
secção regressa ao carácter
lento e contemplativo da primeira, usando uma das melodias da segunda secção com uma harmonização
semelhante àquela que é utilizada na primeira secção.
Modos de Expressão Ilimitada
Texto de Eurico
Carrapatoso (5 de Outubro de 1998)
“Modos de expressão
ilimitada”, obra composta em Agosto de 1998 para celebrar o 50.º aniversário
de meu irmão António, seu dedicatário, é simultaneamente uma homenagem a
Olivier Messiaen (1908-1992) e a uma das suas obras mais
emblemáticas, Turangalila
Symphonie, que, de igual modo, completa 50 anos de
existência. A homenagem a Messiaen e a seu legado estético exprime-se não
apenas no conteúdo da obra, mas também no seu próprio título, ao conter
uma referência óbvia a “Modos de Transposição
Limitada”, uma das técnicas mais célebres de Messiaen no que diz respeito
ao universo melódico e harmónico de sua música. Tenho assim o ensejo de
honrar a memória de um compositor por quem nutro uma especial predilecção e que, afirmo-o com desassombro, tanta
influência exerceu, exerce e certamente exercerá sobre a minha própria
música. Sendo um oásis no pensamento harmónico novecentista, Messiaen
inoculou um verdadeiro potencial sinestésico na combinatória dos sons,
colorindo-os, perfumando-os, dando-lhes uma volumetria expressiva que
paira num delicado equilíbrio entre a visão metafísica e hedonista da vida.
O resultado é impalpável e a expressão ilimitada.
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