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Será possível compreender o Neolítico sem o
Paleolítico? Será possível compreender o Renascimento sem a Idade Média? Será possível compreender a
Idade Moderna sem o Antigo Regime? Será possível compreender a Iª República em Portugal sem a decadência do final da
Monarquia? Será possível compreender o Estado Novo sem a corrupção e a anarquia da Iª República? Será possível compreender o
atual regime Abrilista sem o autoritarismo e violência do Estado Novo? Será possível compreender o atual populismo e radicalismo sem a corrupção e compadrio do
atual regime Abrilista, onde os mais qualificados emigram, o abandono escolar é um dos maiores da Europa, e o trabalho precário impede construir o futuro das gerações mais jovens?
Será possível compreender o ser humano e a sociedade sem compreender esta relação antropológica estrutural, baseada no regime de distinções e oposições. É isso que a lição da história e da antropologia mostra.
Se há alguma lição a tirar, é a de que não há explicações nem verdades absolutas, nem teorias definitivas. As “verdades humanas” (enquanto não soubermos qual é a
teoria final) estão aprisionadas a este limite relacional de se justificarem na
relação com as outras (positivo/negativo, -/+, mal/bem, oriente/ocidente, Nós/Outros, etc.; para não irmos às
Categorias aristotélicas, ou à “trifuncionalidade do Indo-Europeu” de G. Dumézil, ou à atual “definição de espécies biológicas”, e a outras formulações que fazem parte da
História).
A lição, é a de que a construção da Humanidade (o processo pelo qual nos tornámos, e nos vamos continuando a transformar em Humanos) se faz por este processo gradual de estabelecimento de diferenças e oposições,
em que as anteriores servem de referência às posteriores nesse processo de sermos capazes de
melhorar. Foi essa consciência que, na passagem do séc. XIX para o séc. XX, permitiu os avanços em lógica (Wittgenstein, Gödel, e outros), em física (Planck, Einstein, e outros), em biologia (Darwin, Wallace, e outros), em linguística (Saussure, a linguística
estrutural, e a semiologia), que se repercutiram na História e nas ciências sociais e humanas.
Esse tal Museu Salazar, se fosse um
centro interpretativo honesto e verdadeiro, tinha que explicar porque a
Iª República foi um dos regimes mais corruptos e libertinos que ocorreram em Portugal. O problema é que muitxs dos que criaram o
atual regime Abrilista são filhxs dessa incompetência republicana. Alguns até preferem criar muitos
museus da resistência com o dinheiro dos contribuintes, impondo-os com prepotência, sem consultarem a vontade dos munícipes que vivem nesses territórios. O que é uma forma de fugirem ao escrutínio democrático das diferenças de opinião que constituem
a atual vida em sociedade.
Quando uma parte da sociedade ataca a outra de modo radical e excitado, em vez de se aceitarem e respeitarem mutuamente como exige o regime democrático, acaba-se numa espiral acéfala sem fim. Que em vez de ser
um avanço, fica sempre no mesmo sítio. Essa falta de maturidade humana e democrática é responsável pelos atuais populismos e radicalismos. Uns não toleram aos outros a imposição das suas ideologias em detrimentos das suas.
Esse tempo do unionismo e das ditaduras morais e éticas já não é aceite pelas gerações mais jovens.
Pedro Manuel-Cardoso
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