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Partilho a preocupação em se encontrar um espaço democrático, e honesto em termos científicos, para discutir a
questão humana e Patrimonial, verdadeiramente singulares, que o “Museu dos Descobrimentos Portugueses” coloca à Patrimologia (vulgarmente designada por “museologia”).
Exatamente, por ser um
contributo para a questão humana e para o Património da Humanidade, mais do que por outras razões, que se justifica fazer o “Museu dos Descobrimentos Portugueses”.
Ou seja: a justificação para esse museu, tem
muito menos a ver com o nacionalismo português, e muito mais com a
necessidade de compreender e preservar um facto (história) relevante para a “Humanidade” (ou seja, para se aprender a lidar com «o futuro da espécie humana» (atualmente designado, em muitas universidades, por “pós-humanidade”, “transhumanidade”
ou “pós-antropocentrismo”).
Porquê?
Porque continuamos (e continuaremos no futuro) a estar perante
o desafio do Outro (basta ver o que acontece hoje nas nossas cidades e nas migrações; basta ver o modo como
os humanos atuais gerem a inclusão, a diferença, e as miscigenações; ou como lidam com o “novo” e o “desconhecido”). Essa lição dos
Descobrimentos Portugueses continua a ser essencial a essa aprendizagem.
Em 2011, no trabalho realizado na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, escrevi:
A deriva e a inconsistência que ocorreram, em Quioto e cá, no processo de “definição de Museu” influenciam a incapacidade de compreender a necessidade desse tal
Museu.
Porquê? Porque um “museu” serve apenas para ajudar a
gerir o Património, não é um fim em mesmo (como a maioria das atuais definições pretende). Um “museu” é apenas uma infraestrutura (suporte) e um meio para se alcançar uma
finalidade que está para além dele. Exatamente essa, que entronca com a “Condição Humana”, e com aquilo que é
relevante e tem valor para ela.
Gerir o Património tem por conteúdo a capacidade de realizar, em cada época, e para cada nível do avanço científico e tecnológico, duas tarefas
principais: A «escolha da Relevância», a somar à «imputação do Valor» (para as coisas e fenómenos com que o ser-humano tem de lidar). São essas duas tarefas que substituem o
determinismo herdado geneticamente pelo programa construído por aprendizagem socio-cultural (ver o “Modelo do Ciclo de Vida de um Objeto na Cognição” e o respetivo processo de codificação, in
Léxico de Patrimologia, 2017).
O Património, em termos científicos, constitui a continuação da “estratégia eucariote da
Vida” (ver definição de Vida adiante, na nota final). Essa estratégia eucariote consiste, desde há mais de 3 mil milhões de anos, em: “guardar no núcleo da célula, protegidas por uma membrana, as informações vitais a transmitir às gerações
seguintes para se conseguir o sucesso adaptativo”). A “filogénese do Património” possui
três momentos principais, que estabelecem um continuum entre a escala física, a escala biológica e a escala socio-cultural:
Histerese > Memória (ADN/ARN) > Património (museus, arquivos, bibliotecas, bases-de-dados, ADN-sintético,
et alli).
É necessária uma profunda alteração nos
curriculae de formação em Património e museologia em Portugal. Não é mais tolerável um processo de Conhecimento (um conceito epistemológico) que separa as
ciências exatas e naturais das ciências sociais e humanas. Porque o Património, ao ser um fenómeno que está profundamente inscrito na Natureza e na origem da Vida,
inviabiliza essa concepção errada de conhecimento. Uns, e não são poucos, até começam o estudo do património a partir das palavras e das leis (sobretudo as
europeias). Cometem essa vaidade antropocêntrica contrária à ciência e ao conhecimento (a mesma que separou pelo critério da palavra aquilo que era “História” do que não era; a mesma que separou aquilo que era “Primitivo” do que
não era; incluindo os seres humanos que apelidou de “Outro”, e os sujeitou à escravatura). Como se a Vida e os fenómenos (fenomena) tivessem começado quando os humanos lhes inventaram as palavras. Este regime epistemológico submetido à linguística
e ao simbólico, dominado pelo Relativismo Cultural (com os seus dislates “líquidos” e outras meta-narrativas semelhantes, que se iniciou nos
anos 60 do séc. XX com Geertz, Clifford, et alli, e que ainda vigoram na maioria das faculdades portuguesas que ensinam Património e museologia) já não servem para avançarmos no conhecimento. A discussão sobre a
definição de Museu e o debate sobre esse Museu dos Descobrimentos são a prova evidente dessa lacuna.
NOTA: “Vida”, é aqui definida por: “um sistema químico autónomo capaz de seguir uma evolução darwiniana (variação, adaptação, seleção),
gerado a partir de matéria inerte através de processos de auto-catálise (moléculas com a capacidade de criarem cópias de si mesmas) e de processos de auto-organização (moléculas com a propriedade de criarem espontaneamente estruturas mais complexas a partir
de estruturas mais simples)”] – Esta definição é usada pela NASA desde 2013; à qual acrescentei a definição de Otto Sijbren, da universidade de Groningen, publicada na
Nature Chimestry. Em 4jan2016. De notar, ainda, que em 2018, na Nature, no artigo de Martin Julian Van Kramendonk, foi demonstrado que até ao momento, na Terra, concretamente no maciço de Isua no sudoeste da Gronelândia, há um registo empírico
de Vida com 3,7 mil milhões de anos.
Pedro Manuel-Cardoso |
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