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O tempo do Impronuncialismo chegou sem avisar.
Um vírus foi o pretexto imprevisto e forçado para a clausura anatómica, e para a descontinuidade sensorial-perceptiva em relação aos
Objectos. Mas depois, doravante, nunca mais deixará de ser assim. A reforma da política pública de Património, que há muito propúnhamos, ocorrerá à força.
Que oportunidades e projectos para este novo tempo?
Proponho que cada museu e infraestrutura de Património construa no seu seio --- com os
objectos, documentos, coleções, recursos e saberes que dispõem --- um
robot Žyleč. Para que os seus Visitantes (em qualquer lugar) possam continuar a fazer todas as perguntas e a obter as respostas, visualizar todas as imagens, ouvir todos os sons, enfim, usufruírem do benefício antes dado.
O Impronuncialismo criou o
robot Žyleč (2014). Uma «máquina universal de perguntas-e-respostas», também designada por «máquina humana do Conhecimento». Usei um algoritmo feito da
compressão de Chaitin-Kolmogorov ao “método Organon” de Aristóteles, ao qual juntei os actuais “cinco modos dos autómatos aprenderem a aprender”. O
robot Žyleč está ligado às bases-de-dados das dez mais reputadas publicações científicas dos dez atuais domínios de produção de Conhecimento humano (axiologia, cosmologia, ciência, epistemologia, ética, estética, metafísica, ontologia, política,
teologia). É o robot Žyleč que calcula e interrelaciona todos esses dados, continuamente, e apresenta as
respostas a todas as perguntas que se façam; depois, seleciona-se e adequa-se o
resultado consoante os contextos e as circunstâncias. Trabalhamos no método (concepção e programação), na potência da infraestrutura computacional, na escolha da qualidade científica das fontes e dados (inputs), e no estudo antropológico, psicológico
e sociológico da recepção dos resultados (outputs) por parte dos destinatários.
Para cada museu e infraestrutura de Património bastava reduzir a amplitude
do robot Žyleč, e cingi-lo ao domínio e especificidade de cada projeto patrimonial. Um trabalho de construção colectiva no seio de cada instituição.
Evidentemente que o trabalho de Gestão Patrimonial ganharia um novo espaço de actuação, e exigiria novas qualificações profissionais. Mas essa reforma e reorganização, como estamos a ver, não pode esperar. Hologramas,
vídeos, podcasts, e todos os outputs digitais atuais e futuros seriam possíveis de oferecer aos
Visitantes. Cada museu e infraestrutura de Património passava a ter uma …
Segunda Vida. Passaria a ser uma Outra de si mesma (no sentido que referi no
parágrafo 7 da mensagem “COVID-19: uma oportunidade para o Património questionar o que é a Vida?”
Museum, 18março2020).
O trabalho passa a um outro “tipo lógico” de acção (para usar a expressão de Whitehead & Russel ou G. Bateson). Porque, doravante, para
comunicarem em tempo real com os seus Visitantes e preservarem o que é relevante para o futuro, os museus, bibliotecas, arquivos e outras infraestruturas patrimoniais trabalharão com
meta-dados, “nuvens” (de electrões, cubits, bits), hologramas, avatares, objectos digitais (heptadimensionais); e começarão a armazenar em
ADN Sintético. Passar-se-á da algoritmicidade (encadeado, história) para o nível da logaritmicidade (lógica, equação, IA). O processo científico de Conhecimento e a sua comunicação nas infraestruturas patrimoniais será, inevitavelmente, muito mais
impronunciável.
Em suma, o robot Žyleč contribuiria para focar o trabalho e produzir
resultados mais adequados ao contexto dos novos desafios e exigências que a Gestão do Património.
Pedro Manuel-Cardoso
Post scriptum:
i) O Impronuncialismo, tínhamo-lo imaginado em 1988, durante os ditos “trabalhos-de-campo” em antropologia na Nova/FCSH, quando trabalhávamos nas “Festividades Cíclicas em Portugal” de Ernesto Veiga
de Oliveira. Publicámos o resultado da pesquisa com o título “Fiéis Defuntos e Todos-os-Santos versus S. Martinho: um jogo simétrico isomorficamente inverso e opositivo”(1982). E fundámos o “Museu da Gestualidade”(1993) em colaboração com Bernard
Koechlin.
ii) “Estrutura”, na antropologia do
pós-Guerra(1939-45) (até à atualidade) é uma palavra maldita. Foi proscrita e vilipendiada pela ditadura do “Relativismo Cultural”. Que, entretanto, grassou na maioria das universidades europeias e nas de influência anglo-saxónica e estadunidense.
iii) Porém, a verificação empírica dos factos do trabalho-no-terreno mostrava que essa
estrutura silenciosa guiava os comportamentos humanos (individuais e sociais). E só era captável pela matemática (pela formulação de uma
ferramenta/modelo que pudesse ir além do sistema percetivo-sensorial da anatomia humana). Tratava-se de um
programa impiedoso e cruel a priori. Debatemos esta resiliência da “Vida” vezes sem conta com Augusto Mesquitela Lima, António Bracinha Vieira e Carlos de Jesus. Não havia volta a dar-lhe. Diziam-me que sim, porém, as opções que a
academia me dava naquela época eram duas: Ou não lhe chamar “estrutura”, mas dizendo o mesmo chamando-lhe “social” (aquela tautologia não-científica, ainda vigente, vinda do relativismo cultural e do sociologismo, que explica tudo pelo
“social”). Ou, explicá-la pelo neodarwinismo e pela etno-sociobiologia. Resisti. Não acatei essa condenação. Não tendo melhor palavra para dizer, o que representava esse território do conhecimento e do método necessário à investigação das
estruturas invisíveis e omnipresentes, chamei-lhe “Impronuncialismo”(1988).
iv) Todavia, nem em 2010 no “Manifesto Contra a Antropologia Silenciada”, na Nova/FCSH, quando reclamei novamente o
Impronuncialismo; nem em 2012, na apresentação pública do Impronuncialismo e na exposição (“24 Artefactos Impronunciáveis”) realizada na LxFactory, imaginei que levasse tão pouco tempo a eclodir a sua inevitabilidade.
A “Vida” não perdoa. Ela é, de facto, a pandemia do universo. |
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