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«Não tenho sentimento nenhum politico ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriotico.
Minha patria é a lingua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incommodassem pessoalmente. Mas odeio, com odio verdadeiro, com o unico odio que sinto, não quem escreve mal portuguez, não quem não sabe syntaxe,
não quem escreve em orthographia simplificada, mas a pagina mal escripta, como pessoa própria, a syntaxe errada, como gente em que se bata, a orthographia sem ípsilon, como escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.
Sim, porque a orthographia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-m'a do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.»
(Livro do Desassossego, por Bernardo Soares, ed. de Jacinto do Prado Coelho, Lisboa, Ática, 1982 vol. I, págs. 16-17 / in Ciberdúvidas, 7maio2020)
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Imagine-se, hoje, uma pessoa a ortografar como Fernando Pessoa fazia. Afinal, de que é feita a consistência do ódio e do patriotismo referidos por Fernando Pessoa?
Cantam-se hossanas à Língua Portuguesa. Fazem-se projeções de mais não sei quantos milhões daqui a uma ou várias décadas. Como se de uma competição desportiva de números se tratasse.
Não será um erro? Um grave erro, que exige correção?
Contra essa hegemonia de opiniões (justificadas pelo Patriotismo e pelo ódio a quem ortografa de modo diferente) há, cada vez mais portuguesas/es a perguntar: «E os Outros povos e culturas não têm
também direito a dar o nome à Língua que usam e constroem? Não será ilegítimo, e um caminho errado para defender o Património da Língua Portuguesa, exigir aos outros países que deem o nome de «portuguesa à sua Língua, logo, à sua Pátria no sentido que Pessoa
exigia? Porque prejudica a preservação da Língua Portuguesa darem os nomes que quiserem? Por exemplo, língua cabo-verdiana, angolana, guineense, moçambicana, brasileira, timorense, goesa, e assim sucessivamente?
Pedro Manuel-Cardoso
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