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Um ilustre Colega e professor na Universidade de Cabo Verde enviou esta imagem. E acerca dela estabeleceu-se, com vários outros
Colegas, de vários países, alguns inscritos nesta lista Museum, um profícuo debate a propósito do
Dia Internacional de Museus 2020.
Nessa partilha e diálogo destaco a seguinte reflexão:
1. Nesta imagem, os «objetos» que estão expostos (QRcode) … não são nem novos nos museus, nem serão o futuro dos museus.
2. Esses «objetos» (QRcode) sempre estiveram e existiram nos museus e nos seres-humanos. Desde, até, antes do aparecimento do primeiro
H. sapiens sapiens.
3. Apesar de terem sido pela primeira vez patenteados em 1994 no Japão, sempre estiveram dentro do processo perceptivo-cognitivo pelo qual o ser-humano (e outros sistemas vivos com sistema nervoso
central) «vê» o Real.
4. A atribuição de um código e de uma codificação aos fenómenos, sempre foi o processo bio-fisiológico usado pelo sistema perceptivo-cognitivo humano para captar a realidade (John O’Keef, Eric Kandel,
Edward Moser, May-Britt Moser, et alli).
5. Os «objetos» desta imagem são «o mesmo Objeto de sempre». Apenas está apresentado noutra fase da sua heptadimensionalidade. O que parece novo é, apenas, não ser habitual expor-se essa
sua outra fase, das sete pelas quais qualquer «objeto» é representado na percepção-cognição humana.
6. O futuro dos museus será, por isso, “post-screen”. Não haverá qualquer edifício, tela ou objeto-exterior. Tudo se passará entre um «dispositivo de armazenamento das memórias-objetos»
(que poderá ser um implante, um dispositivo de ADNSintético, ou uma
cloud-nuvem de eletrões ou fotões, etc.) e a cognição.
7. O Visitante dos futuros museus verá os «objetos» como Descartes viu o “Método”, em Leiden, em 1619, na noite do dia 10 para 11 de novembro. Ou como Einstein viu a resolução
da equivalência entre matéria e energia [E=mc2 / E(joules) = m (quilogramas) x c (velocidade da luz no vácuo: (299792458 metros/segundo)²]. Vê-los-á como todos nós, os atuais humanos, vemos a Realidade… Inevitavelmente, através de um “Sonho”, através
da “Imaginação”, através de “Imagens Mentais Codificadas na Mnése”.
8. “É o poder de ter no espírito um ‘objecto’, mesmo que esse ‘objecto’ não esteja lá na sua presença física que chamo ‘representação’. Somente a ‘representação’ tem a propriedade de ser sempre
uma nova versão de qualquer coisa, quando deixamos de ter a possibilidade de conhecer o modelo real a partir do qual a «cópia» ou a nova versão foi construída.” (A. Green, 1989, a propósito de Freud, em “A Ideia de Simetria”, p.212).
9. O «Objeto» (seja expresso em
QRcode ou no modo visual tradicional) é sempre, e apenas, uma representação de uma Existência a que o atual ser-humano não tem acesso.
10. Apesar de os sentirmos, tocarmos, cheirarmos, vermos, interpretarmos, explicarmos, etc, … a sua Realidade é, apenas, aquela que o atual sistema perceptivo-cognitivo do atual ser-humano é capaz.
11. Os «objetos» servem para calcularmos e termos consciência do nosso limite (G. Agamben). Eles são sempre auto-biográficos, no sentido em que o que vemos neles é muito mais o modo como os conseguimos
compreender, do que o que eles são de facto. O autor, tal como diz o Impronuncialismo, ao fazer uma obra, vê muito mais o modo como a fez do que a ela própria. E os que a observam de fora (desde que sejam seres-humanos) também.
12. A relação do atual ser-humano com os «objetos» (com a Realidade) é Impronunciável.
12.1. Lembrar-se-ão, ainda, do modo como os humanos usavam e sensoriavam os «objetos», e faziam histórias e narrativas sobre eles, antes de saberem que, afinal, eles eram agregados de protões e neutrões
em que a sua energia, calculada em joules, equivalia à massa medida em quilogramas multiplicada pelo quadrado da velocidade da luz percorrida no vácuo (E=mc2)?
12.2. Essa realidade dos «objetos», antes de a saberem, existia de facto, apesar de não ser possível pronunciá-la. Logo, existente, mas obviamente impronunciável.
12.3. E, quando dos mesmos objetos disserem outras coisas, que ainda não sabemos quais são hoje?
12.4. Não é, essa relação impronunciável, a razão do
IMPRONUNCIALISMO, e a pertinência que justifica guardá-los em “museus” (e outras infraestruturas patrimoniais congéneres)?
Pedro Manuel-Cardoso
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