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1.Assistimos à violência entre Humanos, atualmente desencadeada
pelos conflitos raciais. Matam-se uns aos outros. Foi sempre assim, desde sempre.
2.Essa incapacidade humana de lidar com as «diferenças»
é uma oportunidade para chamar a atenção para um dos patrimónios mais menosprezado pela Cultura. Refiro-me àquilo que atualmente se designa por “desporto”.
3. Tal como
referi em 2004, na Conferência da Academia Olímpica; e voltei a escrever no recente livro do Comité Olímpico de Portugal ("eSports: Desporto em Mudança?", 2020), é para essa "educação humana", concretamente para a regulação social dos comportamentos
agressivos e violentos, que o ser-humano criou, na passagem do Paleolítico Superior para o Neolítico, nas primeiras grandes urbes, uma instituição à qual no séc. XIX os europeus deram o nome de "Desporto".
4. O meu Amigo e Professor, António Bracinha Vieira, catedrático
de Antropologia na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade NOVA de Lisboa, na sua disciplina “Etologia Humana», escreveu em 1991: “Os comportamentos agonísticos, tornados desígnios agressivos vão subtrair-se aos mecanismos reguladores, e
constituir uma nova dimensão da violência não conhecida na natureza, para a qual não há antídoto específico”. Doravante, a única inibição da violência consistirá em o agressor ver-se no agredido, que, de congénere e rival, passa a semelhante. A identificação
cognitivo-emocional com os congéneres é, em Homo, o único antídoto real para a violência” (A.B. Vieira, 1991).
5. Quatro anos depois, Fraústo da Silva, na palestra proferida no
“Seminário Nacional Contra a Violência” promovido pela Fundação Pro-Dignitate da Universidade de Lisboa realizado em 3 e 4/02/1995, escreveu: “Em relação aos problemas da conflitualidade, valerá a pena recordar as fases clássicas do desenvolvimento
do raciocínio ético de crianças e adolescentes (segundo Lawrence Kohlberg):
i. Obedece a regras e à autoridade para evitar castigo;
ii. Conforma-se ao comportamento do grupo para obter reciprocidade;
iii. Demonstra generosidade para obter favores e evitar rejeição;
iv. Aceita a necessidade de regras e disciplina para manter o bem comum;
v. Torna-se consciente da existência de princípios éticos e morais.
Será que estas fases de desenvolvimento progressivo estão presentes na condução actual do processo educativo?”
(J.J.R. Fraústo da Silva, 1995, p. 30)
6. Em suma, é pena que as políticas de desporto (e as de educação)
não entendam a importância humana dessa função educativa, para a regulação social da violência.
7. Confundem desporto com “motricidade”, “gasto energético”, “ginástica”,
“educação física”, “jogo”, “divertimento”, “exercício físico” e “obtenção de resultados”. Na escola, atualmente, fazem “desporto escolar”, como nos clubes, em vez de ensinarem «o que é o desporto».
8. Acham que o desporto necessita de Ética (atualmente até fazem
Planos para lha darem, de fora). Ora, o desporto já é a Ética (é, exatamente, a instituição e o mecanismo de regulação social dos comportamentos agonísticos e de competição).
9. Esta
dimensão patrimonial do Desporto é menosprezada, e, em muitos casos, até diabolizada pela Política de Cultura.
10. Hoje, tal como no passado, que política ou instituição
humana consegue, melhor do que o Desporto, unir numa mesma equipa brancos e pretos, israelitas e palestinianos, perpetradores do
apartheid e suas vítimas, ricos e pobres, direita e esquerda… e todas as outras oposições isomorficamente binárias que perseguem a paz humana?
Pedro Manuel-Cardoso
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