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[Museum] Relevância e Património: a mudança de paradigma

To :   museum <museum@ci.uc.pt>
Subject :   [Museum] Relevância e Património: a mudança de paradigma
From :   Pedro Pereira <pedropereiraoffic@outlook.com>
Date :   Tue, 30 Jun 2020 20:42:58 +0000

 

O Património é uma decisão derivada do fenómeno bio-social da Relevância.

Quando a Relevância muda, o Património deixa de o ser. Não por qualquer imposição perpetrada, apenas porque deixou de ser relevante para as Pessoas de uma outra época ou ideologia.

Supor que há “soluções na gestão para preservar o Património” ou que “nos devemos unir numa petição, porque, ali ou acolá, vão apear ou destruir um monumento que era anti-fascista para uma determinada ideologia” é não considerar esta relação crucial entre Relevância e Património.

Por exemplo, se em Portugal, a maioria das Pessoas considerassem que é relevante apear e destruir todos os quadros, estátuas, monumentos e documentos que a sua ideologia intitula de “racistas” ou “colonialistas”, então, a maioria dos museus portugueses desapareceria (começando no Museu Nacional de Arte Antiga, Padrão dos Descobrimentos, Museu da Marinha, ou nos Jerónimos, e indo de norte a sul pela maioria dos castelos, igrejas, mosteiros, museus, etc.).

Com a ideologia oposta, passar-se-á o mesmo.

Aliás não é nada que não tenhamos visto desde as Culturas Antigas do Neolítico até à Revolução Francesa, ou à emergência do Republicanismo. Para não falar das recentes guerras no Afeganistão, no Iraque, e as recentes manifestações designadas “Black Lives Matter”.

A dita “Nova Museologia” (também designada por “Museologia Social”, “Sociomuseologia”, “Museologia Comunitária”, “Museologia de Intervenção”, e outros nomes equivalentes) contribuiu para a politização do Património. Quis fechar o Património numa agenda política e educativa (de determinadas ideologias e visões-do-mundo). Ao fazê-lo, concretamente durante os últimos 50 anos (a partir do «pós-Guerra de 1939/45» e da criação da ONU/UNESCO), abriu a porta ao desenlace inverso. Agora, feito por ideologias diferentes que vão ganhando a maioria no sistema democrático representativo.

Esta mudança na Relevância vai desclassificar a maioria do Património (que muitos passaram uma vida toda a preservar e enaltecer, escrevendo milhares de livros e textos). E vai classificar outros Objetos/Documentos/Imagens/Ícones/Símbolos até agora não considerados.

Porque acabaria, agora, esse modo de os seres humanos se comportarem? Não foi sempre assim? Não foi sempre assim, com todas as independências, conquistas de território, identidades e invasões?

É para um processo de mudança de paradigma que a Patrimologia (entendida como a ciência que estuda e gere o Património) se devia ir preparando. Concretamente, através da reforma dos actuais curriculae de formação universitária e académica. Como tenho insistentemente referido.

O Património (e a Relevância que o fundamenta) é um processo muito mais amplo e profundo do que as meras conjunturas políticas e ideológicas de cada época. Está inscrito na biologia da Vida e na filogénese. É para esse estudo e gestão que a formação em Patrimologia devia preparar os responsáveis pelo Património.

Pedro Manuel-Cardoso

 

 





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