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[Museum] Museus dum outro tempo

To :   museum@ci.uc.pt
Subject :   [Museum] Museus dum outro tempo
From :   Pedro Leite <p4298@ulusofona.pt>
Date :   Thu, 16 Jul 2020 15:09:30 +0100

O grupo de projeto Museus no Futuro, apressadamente concluiu o seu relatório preliminar. Nomeados pela RCM 35/2019 de 18 de fevereiro, no âmbito das guerras internas dentro do Ministério da Cultura, onde os vários atores que se estão a posicionar para o banquete dos fundos europeus, produziram um documento fraquinho e de vistas curtas.

Mostra bem o nível de alienação da museologia portuguesa. Falta lhe o sentido da realidade. Do país e das políticas públicas para a cultura. Falta lhe também conhecimento relevante sobre as dinâmicas da museologia contemporânea, os seus desafios teóricos, e capacidade de análise crítica sobre os modelos das organizações sociais.

Terá provavelmente como destino as bolorentas gavetas da Ajuda. Mais um objeto inútil! Que os historiadores encontrarão no futuro que se avizinha nas memórias perdidas na real banheira! 

Falta lhe sentido do real porque o que são hoje os museus (e o que serão amanhã os museus no futuro) dependerá, entre outras, da evolução de duas variáveis de curto prazo, que aqui não estão equacionadas e refletidas com profundidade. O comportamento da pandemia e o jogo de forças na negociação do próximo programa quadro de apoio comunitário (2021-2026). Ou seja qual o valor que o país está disposto a mobilizar para "este" património. 

Provavelmente a "encomenda" terá sido para habilitar os "decisores" para programa exequível para os museus, palácio e monumentos, (MPM) ness novo QCA. Um programa que será negociado em Bruxelas que gerará um bolo a partilhar internamente pelo aparelho de estado nas políticas socialistas. Estes nossos confrades foram ao seu caixote de ideias não concretizadas e, mudando uma vírgula, modernizando uma palavra, "requentaram" o prato e voltaram a servir.

Como tem sido norma das últimas governações, o Estado assume a sua vocação centralista e concentra os "incentivos" a distribuir pela clientela, num jogo de negociação de recursos. Quem controlar o "bolo" ganha poder de hegemonia no "mundo dos museus", determinando que narrativas apresentar e como as apresentar. A vocação centralizadora deste documento, - de tornar os museus todos iguais, no âmbito duma memória elitista, não deixa grandes margens para dúvidas. O que este documento propõe: -  a criação dum "elefante branco" na Ajuda para controlar os Museus, com estes nossos amigos a espreitar a sua oportunidade de gerir o bolo, vão gerar um imbróglio que fará com que os MPM percam ainda mais credibilidade na sociedade.  Como é óbvio as atuais políticas públicas na área da cultura, mesmo as formuladas pela atual governação, já não comportam este modelo. Basta ver que a palavra de ordem do novo diretor é "fazer negócio", ou dito por palavras mais atuais, rentabilizar o património. É isso que se lhes pedia. Como por o património a gerar valor no imediato. Voltaram com velhas receitas.

A Pandemia desencadeada pelo COVID 19, ainda longe do fim e dum conhecimento das suas sequelas, acrescentou a incerteza do futuro sobre a ideia "messiânica" de procurar aliados no serviço turístico. Não há nada que impeça essa relação, que como é natural será sempre desigual, pois no mundo dos negócios quem tem capacidade de investir, decide ou pelo menos "influencia". Mas essa atividade, chamada animação turística não se pode confundir com a função da cultura e a função dos museus na sociedade. Mas esse é outra discussão.  

Regressando ao turismo, nos tempos mais próximos (digamos ano e meio) não existirão, provavelmente, o mesmo tipo de fluxos turísticos. E face à incerteza, os iluminados tiraram da cartola as receitas do passado, de melhorar as relações com os fundos turísticos. Como se fez em Lisboa, debaixo da tutela da EGEAC. Só isso basta para ver que não tem futuro. Nem o modelo lisboeta é replicável ao país, nem o país é todo turístico, como qualquer pessoa que conheça o património português dirá . E isso se os fluxos turístico voltarem com a mesma dinâmica e intensidade (coisa que também não é óbvia).

Mas há mais exemplos: Dizem que fizeram uma revisão de literatura: Então onde está a referência à Recomendação da UNESCO de 2015. Não é o último documento internacional de referência que o estado português assinou? Não se comprometeu com o documento. Assinou distraído a Recomendação? Quem tem interesse em esconder a discussão que está a acontecer no "mundo dos museus" sobre a ideia do museu e sobre o que é o museu. Não a compreendem é o que é. E como a avestruz, esconde a cabeça debaixo das palavras redondas e vãs, como fazem questão de fazer aqueles alunos que querem enrolar os professores. 

(...)


Talvez a ministra tenha lucidez para agradecer e arrumar o assunto numa gaveta! Ou que algum assessor mais perspicaz lhe sugira isso, quem sabe! 

Haja esperança no futuro!

Pedro Pereira Leite
     

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