Lista museum

Mensagem

Re: [Museum] Programação Cultural: Entre festasou alta cultura?

To :   Pedro Leite <p4298@ulusofona.pt>
Subject :   Re: [Museum] Programação Cultural: Entre festasou alta cultura?
From :   "Acesso Cultura | Maria Vlachou" <acessocultura.pt@gmail.com>
Date :   Wed, 22 Jul 2020 17:50:15 +0100

Caro Pedro,

Obrigada por esta reflexão. Iremos partilhá-la com as pessoas responsáveis pela moderação dos painéis da nossa conferência.

O foco da conferência será a programação pública dos espaços culturais. O projecto de um museu envolve mais do que isso e quem o dirige, dependendo do tipo de equipa, poderá ter esta responsabilidade ou poderá supervisioná-la, articulando com os responsáveis das várias áreas. Penso que será um dos assuntos a abordar, sim.

Um abraço,
Maria
_____________________________
Maria Vlachou
Acesso Cultura | Directora Executiva
Tlm. (+351) 917 510 659



On Wed, 22 Jul 2020 at 10:39, Pedro Leite <p4298@ulusofona.pt> wrote:

Programação Cultural: Entre festas e a alta cultura?

A nossa querida Maria Vlachou e a sua associação “Acesso Cultura” anuncia a promoção dum debate sobre a questão da programação cultural, onde interroga sobre o conjunto de competências que estes profissionais devem desempenhar

https://mailchi.mp/929bc70f03a4/1k4octb9ts-2446193?e=fa3bf2fd11

A questão ganha uma inusitada atualidade, num momento que que vão a concursos, nacionais e locais vários cargos de Direção de Museus” concretizando o previsto no Regime Jurídico da Autonomia e Gestão dos Museus (DL 78/2019 de 5 de Junho) https://dre.pt/home/-/dre/122498959/details/maximized. . Entre vários critérios, o “programa cultural” apresentado pelos concorrentes será um dos elementos que mais peso terá na seleção. O mesmo sucedeu, aliás, com o caso Rita Rato, vencedora do concurso para a direção do Museu do Aljube em Lisboa, onde o júri, alegadamente, terá valorizado o projeto apresentado, em detrimento de outros concorrente, com vantagens curriculares e experiência em museus demonstradas. 

Não faltaram várias vozes, entre académicos, comentadores e associações de profissionais, nomeadamente da APOM e do ICOM, que levantaram a questão da adequação da formação para o cargo de direção. De acordo com a lei-quadro dos museus (lei 47/2004 de 19 de Agosto), os museus devem dispor dum diretor. Por norma, na administração pública portuguesa, os cargos de direção são desempenhados por quem tenha como habilitação mínima, o grau de Licenciatura. Por tradição, contudo, considera-se que esse cargo deve ser desempenhado por quem tenha uma formação pós-graduada na área da museologia ou do património.

As razões dessa posição advém de duas ordens de fatores: De um lado, da ausência de tradição das universidades portuguesas em oferecerem uma formação ao nível do primeiro ciclo na área dos museus. É certo que há uma oferta (reduzida) de licenciaturas em “património cultural” e “conservação e restauro”, mas a museologia ou Estudos de Museus só surge no 2º e 3º ciclo universitários; e de outro lado da tradição de provimento dos cargos de Direção de Museu, que até aos inícios dos anos de oitenta do século passado, incidia nos profissionais habilitados com a categoria de “Conservador”. Ora esta categoria profissional, que tinha uma carreira específica na administração pública portuguesa, era conferida por uma formação específica feita no Museu da Arte Antiga / Instituto de Alta Cultura – o curso de conservador, que tinha uma duração de 2 anos, com aulas no seu primeiro ano, e um estágio no ano seguinte, com apresentação de relatório, que segundo me recordo era apreciado por um juri interno.

Ora esses cursos de conservadores, que são portanto formação pós-graduada que transitou para a academia em meados dos anos oitenta, ainda são considerados, pelos profissionais como "a tarimba" necessária para a"poda". 

Isso justificará uma parte da discussão sobre quem é e quem pode ser diretor de museu. Em grande medida, nessa discussão, percebe-se que existe alguma preocupação “corporativa” e “elitista” face aos “outros” quando acedem à profissão. Entende-se com alguma clareza as razão do “não é nada contra a pessoa”, mas “não se entende como é que pessoas com formação” (mestrados, doutoramentos e pós-doutoramentos) foram preteridas por uma jovem licenciada “sem experiencia” no mundo dos museus. Uma discussão que não deixa se ser relevante, mas que necessita de algum contextualização, que não é o objetivo deste postal.

E com isso regressamos à questão da programação cultural, e á pertinência da sua discussão em contexto dos Museus. 

O que é a programação cultural nos museus? 

Não sei se o seminário da Acesso cultura tratará da questão dos museus de forma específica, mas pela análise preliminar do seu programa e pelos conferencistas anunciados, é bem possível que a questão seja apresentada.

Isso levanta a questão da distinção entre programação cultural como profissão (técnica) da programação em museus (também como a tal competência que será valorizada no concurso para os cargos de Direção de Museu).

Num artigo publicado no jornal Público a 12 de junho do corrente, e referenciado na bibliografia deste evento , que vale a pena ler, (https://www.publico.pt/2020/06/12/culturaipsilon/opiniao/programador-cultural-imagens-miragens-profissao-1920355?fbclid=IwAR3TvXScZwsK6lDMORvsUbm_PDqiLuddBBrWVm3aTCaswrR6LeXKG5-SBfw) Paulo Pires, programador cultural do dinâmico município de Loulé, reflete sobre a profissão de programador cultural. A palavra-chave, diz o autor é a mediação. 

O programador cultural, segundo Pires, deverá ser “eclético, contemporâneo e competente (com qualidade) ” e, numa escrita sem espinhas deve ser uma “a programação evidencie uma lógica interna própria, adopte uma escuta activa e seja comprometida com o território e a comunidade, permita articulações fortes e a construção de possibilidades de interpretação e conhecimento por parte do seus destinatários, contribua para o fortalecimento (e reinvenção) de uma identidade, se revele implicada com o seu tempo sem descurar a memória, atinja patamares estimulantes de relevância e qualidade, fomente a criação de novos públicos e a consolidação dos já habituais (incrementando ainda transferências de franjas de público, mormente de esferas mais massificadas para “lugares” mais segmentados) – emane harmonia, ritmo, respiração”

Serão estas as competências necessárias para um diretor de museu? Quais são as universidades, na área da museologia e património que oferecem uma formação pós-graduada que inclua nos currículos “escuta ativa da comunidade”, o compromisso com o “território e a comunidade”, para o reconhecimento da sua diversidade cultural e tenha “harmonia, ritmo e respiração”. Quem são, entre nós, os profissionais de museus com estas competências de programação cultural?

Voltaremos à questão noutro postal?

 

 


Pedro Pereira Leite
      ( Ph. D )
_______________________________________________
Museum mailing list
Museum@ci.uc.pt
http://ml.ci.uc.pt/mailman/listinfo/museum

Mensagem anterior por data: [Museum] Programação Cultural: Entre festasou alta cultura? Próxima mensagem por data: [Museum] MUSEU DIOCESANO DE SANTARÉM - Fado no Pátio | Dia dos Avós - 26 julho 2020
Mensagem anterior por assunto: [Museum] Programação Cultural: Entre festasou alta cultura? Próxima mensagem por assunto: [Museum] Programação Semanal do Bairro dos Museus - Cascais