No início do século XX em Portugal, na sequência do que já acontecia no final do século XIX, assistiu-se a uma tendência de mudança na arquitetura, com a importação de modelos estrangeiros que conduziram à sua descaracterização. Assim, num primeiro momento, muitos arquitetos proclamaram a necessidade de uma definição de arquitetura nacional a partir de elementos que a caracterizavam. Entre estes, destaca-se Raúl Lino pela sua obra teórica e prática.
A partir do final dos anos 30, quando o país vivia sobre o domínio do Estado Novo, estas ideias levaram à imposição de um estilo conservador e nacionalista que, pretendia afirmar ao mundo o que é ser português.
Com o final da guerra, o mundo voltou a valorizar uma noção que tinha sido momentaneamente perdida; o valor da globalização e dos seus benefícios para a sociedade fez renascer na arquitetura a necessidade de dar resposta a uma sociedade mais humana, a consciência da importância do todo, um todo que se caracteriza também por uma tendência natural de evoluir.
Em Portugal não se tinha vivido tão intensamente o período de guerra, porque o regime Salazarista inicia uma fase de encerramento para o mundo, uma vez que o Estado Novo criava barreiras ao que vinha do exterior, implantando medidas de culto e veneração ao poder político, as quais limitavam a liberdade da população, o que teve bastante impacto no desenvolvimento de toda a sociedade portuguesa, incluindo na área da arquitetura.
Assim, no momento de união e queda de barreiras, Portugal, pelo contexto político fascista, era exceção. No entanto, uma pequena minoria, na qual se destaca um personagem, o arquiteto Keil do Amaral, defendia um compromisso entre o tradicional e o que vinha de fora, no sentido de recuperar a ideia de uma forma adequada ao lugar mais atenta ao mundo que está a evoluir.
Mas não era só Keil do Amaral que desejava o desenvolvimento e modernização da arquitetura portuguesa. Na Escola de Belas Artes do Porto (EBAP), Fernando Távora e Carlos Ramos partilhavam o objetivo de abrir novas perspetivas, com base em princípios de ordem histórico-social procurando que se fizesse em Portugal uma arquitectura “baseada no entendimento do sítio e na valorização da paisagem, na reinvenção dos materiais tradicionais e no valor da vivência doméstica”, apontando para uma reforma da noção que se tinha do estilo moderno. Defendiam que fazer arquitetura vai para além do sentido estético; fazer arquitetura está diretamente ligado com o ser humano, enquanto parte integrante da natureza, de um meio e de uma sociedade.
Em 1945, ao apresentar o ensaio "O problema da casa Portuguesa" Fernando Távora demonstrava já claramente a necessidade de adoção de uma nova atitude face ao entendimento que se tinha da forma e a sua relação com o meio e com o Homem: defendia que “um estilo nasce do povo e da terra com a naturalidade duma flor, e o povo e a terra encontram-se presentes no estilo que criaram em muitas gerações.”
Com a redação deste ensaio, Fernando Távora pretendia revelar a importância de integrar três princípios fundamentais: o Passado, enquanto herança de conhecimentos, o Presente, enquanto resposta aos problemas do momento, e o Futuro, enquanto permeabilidade à transformação e adequação possível face à incerteza do caminho a seguir.
Acessível: http://hdl.handle.net/1822/44456
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Amaral6,
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