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Re: [Museum] A PP Cult continua a desprestigiar a Museologia?

To :   Pedro Manuel Cardoso <pcardoso@sejd.gov.pt>, museum-bounces@ci.uc.pt, José d'Encarnação <jde@fl.uc.pt>, museum <museum@ci.uc.pt>
Subject :   Re: [Museum] A PP Cult continua a desprestigiar a Museologia?
From :   Luis Neves <loneves@gmail.com>
Date :   Wed, 18 Mar 2009 12:52:57 +0000

Caro Pedro Manuel Cardoso
 
Agradeço a sua resposta. É sempre com muita alegria que discuto as fascinantes questões relacionadas com o património e as diversas hipóteses e prioridades com alguém que manifesta abertura e vontade de o fazer de forma construtiva.
 
A questão que se levanta em relação ao museu dos coches, para mim, é a mesma que se levanta em relação a qualquer outro projecto que seja anunciado por um qualquer governante nesta área. 
 
Há pouco tempo veio anunciado nos media que o Pavilhão dos Desportos no Parque Eduardo VII (aquele que tem azulejos de Jorge Colaço e está praticamente abandonado)  iria albergar o Museu Nacional do Desporto. Até pode fazer sentido fazer-se um novo museu dos coches, ou um museu nacional do desporto, ou um museu do design na baixa,  ou o que quer que seja. A questão que eu coloco é a seguinte:
 
O museu do côa foi uma prioridade e agora está "pendurado". Será que depois de se ter gasto tanto dinheiro lá, agora sem se ver luz ao fundo do túnel, deixando de ser uma prioridade,  já não interessa acabar?  Teremos de esperar um milagre para que ele seja uma realidade? Faz sentido aceitarmos viver numa sociedade em que apenas interessa a efeito anúncio e depois, adeus, que pague quem vier a seguir? O que teria contecido se aquele museu não tivesse avançado? Cairia o ministro, cairia a opinião pública em cima, seria um escândalo. Agora que se abandonou uma barragem, que se gastou dinheiro, que o projecto está  à espera dum milagre, ninguém se preocupa ou questiona se de facto era ou não uma prioridade? Porque razão se anunciam museus uns atrás dos outros sem definirmos o que fazemos primeiro com estes casos? Ou com o pavilhão do Sisa na Expo, para o qual criminosamente não se encontra destino? Ou para a inenarrável situação do museu do traje que vegeta sem se ver utilidade?...
 
Continuo a afirmar que devia ser feito um estudo sério da realidade museológica nacional e a partir daí então definir-se um plano de actuação. Para que não venha um governante peregrino desmantelar o museu de arte popular e querer lá fazer um museu da língua, num edifício que qualquer pessoa de bom senso sabe que não tem características para tal.... começar a fazer e deixar a coisa a meio porque agora já é outra a prioridade ou já se percebeu que é disparate.
 
Até pode chegar-se à conclusão de que é uma excelente ideia construir um novo edifício para os coches. Estive na apresentação do projecto, feita pelo arquitecto Paulo Mendes da Rocha na Ordem dos Arquitectos, e pareceu-me interessante. Mas fará sentido anunciar tudo isto sem ter soluções integradas e realistas para o que está no terreno das oficinas????, por exemplo?
 
Assim como qualquer pessoa de bom senso percebe que o edifício de arte popular não era adequado ao museu da língua, também qualquer pessoa no mínimo questiona se a Cordoaria pode albergar aquilo que lá querem meter. Com sinceridade, acha que a Cordoaria pode receber arqueologia e os serviços que estão na av. da índia?
 
Caro Pedro
 
É apenas isso que questiono. Os recursos são escassos e devíamos aproveitá-los bem. Sou sócio do ICOM e há muito penso que ele deve ter um papel mais activo. Deve fazer-se ouvir. E nos últimos tempos tem sido feito um esforço. Se quer que lhe diga com toda a franqueza, penso que a culpa de a nossa museologia estar como está é, em grande parte, dos profissionais que há anos e anos dedicam o seu esforço à área mas que infelizmente não têm capacidade de tecnicamente fazer-se ouvir e respeitar. Em consciência, se quisermos ser honestos, todos sabemos que precisamos de sangue novo na classe.

Agora que as águas começaram a mexer, a pretexto do museu dos coches, talvez seja bom aproveitar para discutir a sério a floresta e não apenas a árvore.
 
Em relação à linguagem panfletária, não podia estar mais de acordo consigo. Não me revejo nos slogans do cartaz. Parece um retorno ao PREC. Mas confesso que isso não me parece demasiado importante, se permitir que o sector e a opinião pública encontem um espaço de discussão para pensar nos museus que temos e no queremos fazer deles.
 
Claro que não tenho nada contra o património desportivo. Só fiquei arrepiado, pelo acima exposto, que estivesse na forja mais o anúncio de um museu (do desporto) sem ser sido feito um estudo sobre isso.
 
Desculpe se me alongo, e se pessoalizo a discussão, mas o tema é apaixonante. E é bom ter interlocutores
 
Só mais duas ideias:
 
1 - parece-me estranho que o Ministério da Cultura ande aparentemente à margem de tudo o que tem sido anunciado e discutido nos últimos tempos
 
2 - a questão da petição, para mim, é apenas um pretexto. Não é pelo facto da primeira signatária defender o projecto do Africa.Cont, que pela mesma lógica de argumentação eu também questiono, que não aproveito a bondade da iniciativa para discutir lacto senso, a museologia em Portugal.  
 
Cumprimentos
 
Luís Neves

 
2009/3/18 Pedro Manuel Cardoso <pcardoso@sejd.gov.pt>
Caro Luís Neves,
Exactamente como diz, e por causa do que diz. Porque temos o privilégio de viver num momento Democrático, onde não há guerra, não há censura, e onde a discussão enriquece a Polis e os cidadãos.
Repare que escrevo sempre com o meu nome, seja de que computador for, não escondendo nunca de onde é, e nunca me inibindo de manifestar a minha opinião.
Eu chamo-me "Pedro Manuel Cardoso" agora. Mas antes também. E depois continuarei do mesmo modo.
Houve um tempo em Portugal, em que era preciso fugir pela fronteira, para poder ter opiniões escritas com o nome próprio. E tudo começou com "grupos de opinião", e corporativismos profissionais, onde os subordinados tinham medo de escrever e só os chefes e presidentes de associações o faziam. Foi assim que se iniciou o ataque às opiniões de pessoas individuais. Foi isso que deu força, depois, ao Estado Novo. De um lado, os iluminados, cheios de curriculum e status, do outro, os proscritos.

Basta comparar o comunicado do ICOM com o da PP Cult para se perceber a diferença. De um lado, não se abandona a crítica mas abre-se a porta ao diálogo. Do outro, são palavras insultuosas e vazias de perspectiva, que fecham todas as portas ao futuro.

Sobre o Património do Desporto em Portugal, e sobre uma doação de milhares de euros, que permite estudar a iconografia e o movimento associativo desde o século XIX, está a dizer que está mal? Porquê? Por ter sido o Estado em parceria com os privados? Por ser este Governo e não ser um de outra cor política? Por não ter sido alguém conhecido do Luís Neves, ou de outro grupo? Ou considera que o património do desporto é de menor importância do que os outros?

Neste caso foram a convergência de muitas vontades, foi um acto de dádiva de um cidadão. Acha que este acto deve ser menosprezado, e dada notícia aos insultos e aos adjectivos medíocres, em sua substituição?

Caro Luís Neves, os mais novos julgam que tudo começou quando nasceram, e que todos os problemas começaram agora. Inclusive o do Museu dos Coches e da mudança da arqueologia. Os mais velhos viveram a maior parte das discussões que os mais novos julgam que começaram agora. E sabem que a Liberdade é um bem escasso, que um dia será outra vez ameaçado. E vem sempre dos unanimismos acriticos, e das posições panfletárias mediáticas e insultuosas.

Já agora, a talhe de foice, seria interessante discutir no seio da museologia a questão do processo de musealização dos "Coches". Se a intencionalidade humana, e o objectivo de salvaguarda da Memória e da Identidade, se situa mais do lado dos "cavalos" ("picadeiro") ou do lado dos "transportes". Certamente que os dois casos fazem parte do esquema funcionalista de A. Leroi-Gourhan. Mas pelo menos a questão abre a possibilidade de duas perspectivas de musealização.

Cumprimentos

Pedro Manuel Cardoso

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De: Luis Neves [mailto:loneves@gmail.com]
Enviada: ter 17-03-2009 23:23
Para: Maria Rosendo; Pedro Manuel Cardoso; José d'Encarnação; museum
Assunto: Re: [Museum] A PP Cult continua a desprestigiar a Museologia?


Julgo que a discussão em torno desta questão - e a apresentação de visões diferentes - é muito enriquecedora e útil. É também esta capacidade que demonstra que ainda vivemos num país livre, por muito que isso custe a alguns. Agora, pegar na questão do manifesto estar bem ou mal redigido, caro Pedro Cardoso (permita-me que o trate desta forma) não é um grande argumento.

Se não terá também de ser mencionado uma espécie de convite enviado por si há uns dias denominado:


Política de Museologia e Património em Portugal: Uma parceria para beneficiar e servir os cidadãos.

Gostaria que se sentissem Convidados para a Exposição "Colecção de Emblemas Desportivos de Frederico da Costa Santos". Que ocorrerá hoje, dia 12 de Março de 2009, pelas 12 horas, na Torre do Tombo em Lisboa. E que assinala a doação da colecção ao Museu Nacional do Desporto.

 (...)
 etc, etc, etc...

Ninguém veio a terreiro alegar que estava mal escrito, e de facto está. Basta ler as quatro linhas transcritas acima. Não ouvi ninguém questionar esta exposição na Torre do Tombo, quando me parece pelo que envia que se trata de um enorme disparate e de uma utilidade mais do que duvidosa.

Trata-se apenas da minha opinião, tão válida quanto a sua ou a de qualquer outra pessoa. E não é por assim pensar que critico que a Torre do Tombo a receba. Certamente será defensável.

Agora, criticá-la-ei quando e se a for ver. Não a criticarei pelo texto desastrado que a anuncia. Não lhe farei essa injustiça!

Digo isto porque posso não concordar com algumas das tomadas de posição da Plataforma, com um ou outro texto ou palavra de ordem. Posso até não concoradar com nada do que defendem. Mas uma coisa é certa. As pessoas que a integram merecem respeito intelectual e estão a "lutar" pelo que consideram correcto. Pretendem mostrar os seus argumentos e têm-no feito de forma correcta e respeitosa.

Cabe a cada um dos cidadãos decidir se concorda ou não com o que a Plataforma defende.

Mal ou bem, se ainda temos museus abertos em Portugal, em muito se deve aos profissionais que todos os dias lá trabalham. Estes dificilmente aceitarão o anúncio de projectos (e não me refiro ao projecto arquitectónico mas às soluções globais que são precisas para que ele avance) pensados em cima do joelho, para os quais há financiamentos, quando não estão asseguradas questões básicas nos museus nacionais.

Faça-se uma análise aprofundada, estude-se a realidade museológica nacional, definam-se prioridades, feche-se o que é de fechar, crie-se o que deve ser criado, mas não se anuncie projectos erráticos, casuísticos, ao sabor da vontade de um qualquer político que de Cultura e Património sabe muito pouco.

Há uns tempos era o museu da língua a prioridade, agora é o dos coches, amanhã é o Africa.Cont...

E tudo à revelia de quem estuda Património, de quem trabalha na área, de quem investiga nestes domínios. Já pensou que mais cedo do que se imagina, os anunciantes destes projectos vão embora deixando as responsabilidade a quem fica a trabalhar no terreno?  Já pensou que as consequências destes actos vão recair nos tais que sempre lá estiveram e não são ouvidos? Esses é que no dia-a-dia arcam com os disparates e com as decisões erradas e de sorriso na cara continuam a abrir as portas do Património e a responder por ele.

Aprenda-se com o passado. Já agora, caro Pedro. Sabe o que se passa com o Museu do Côa? Sabe o historial do Museu da Língua e porque abortou? Sabe porque não avançou o Hermitage? Sabe os antecedentes da transferência do Museu dos Coches? Sabe os contornos jurídicos do Museu Berardo? Tem ideia das implicações de transformar a Cordoaria num Museu? Já alguma vez esteve no espaço das Oficinas para onde está projectado o Museu dos Coches?

Sabe o que é um Museu?

Muito haveria para dizer. Creia que tenho um enorme gosto em discutir estes e outros assuntos consigo ou com quem se interessar pelo tema. O que precisamos neste país é de uma sociedade civil interventiva e plural. E esclarecida. Só assim podemos aspirar chegar a algum lado.

Discuta-se o cerne da questão e não a gralha no texto.

Cumprimentos

Luís Neves







On 3/17/09, Maria Rosendo <maria.rosendo@gmail.com> wrote:

       A designação "Plataforma pelo Património Cultural" parece-nos ser bem esclarecedora de qualquer dúvida, de carácter teórico, que Pedro Cardoso tenha a respeito da terminologia e dos bem fundados argumentos da PPC.

       Ou seja, não se trata de uma plataforma pela museologia, nem pelos arquivos, nem pela conservação, nem pelas bibliotecas.... (e se fosse também seria bem-aparecida pois há justificações para muitas plataformas sectoriais) mas pelo PATRIMÓNIO CULTURAL !!! Está tudo dito, não ?



       Aliás, bastaria ler os nomes que estão na génese da "Plataforma" para compreender que é de  PATRIMÓNIO CULTURAL - com maiúscula, insistimos - que falam. Mas claro: há pessoas que não conhecerão esses NOMES, nem o trabalho feito no país pelos mesmos; há sempre, em qualquer parte, pessoas menos e outras mais informadas ou ... mais distraídas... paciência...



       Mas é pelo PATRIMÓNIO CULTURAL, de uma ou de outra forma, num ou noutro sector que o integra - sim, porque o ser humano divide, especializa e trata de forma mais concreta cada área de conhecimento, para melhor conhecer/estudar/investigar, mas com a forte  consciência de que somos unos ! - que devemos agir e não por uns ou por outros, contra uns ou contra outros... dividir para reinar tem sido um lema que não parece aplicar-se na PPC, razão para gritar VIVA !



       Vivemos "tempos estranhos" e mais estranhos tempos virão se plataformas deste género não forem criadas.



       Assim, pela PPC ! !!!



       2009/3/17 José d'Encarnação <jde@fl.uc.pt>



               ----- Original Message -----
               From: Carla Fernandes <mailto:carla.fernandes@cm-cascais.pt>
               Sent: Tuesday, March 17, 2009 4:50 PM
               Subject: RE: [Museum] A PP Cult continua a desprestigiar a Museologia?


               De facto, lamenta-se que este senhor de tanta visão e de tanta clarividência patrimonial e científica nunca tenha tido oportunidade de trabalhar directamente com os directores do Museu Nacional de Arqueologia ou dos Coches, pois talvez percebesse melhor a verdadeira matriz histórica da instalação e vivências destes museus nos edifícios que actualmente ocupam... Mas viva a contemporaneidade, vivam os grandes arquitectos do regime e vivam os iluminados que nos governam e aqueles que tão bem os compreendem...

               Por mim, viva o "PP Cult", pois se não houver quem grite não vai haver quem nos oiça!


               Carla Varela Fernandes
               Coordenadora da Divisão de Museus
               Casa de Santa Maria
               R. do Farol - 2750 Cascais
               carla.fernandes@cm-cascais.pt



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               De: museum-bounces@ci.uc.pt [mailto:museum-bounces@ci.uc.pt] Em nome de José d'Encarnação
               Enviada: terça-feira, 17 de Março de 2009 16:35
               Para: museum
               Assunto: Re: [Museum] A PP Cult continua a desprestigiar a Museologia?


                   E desconhecíamos nós, os que estudámos Museologia e Museografia e até somos professores habilitados de Património Cultural e reconhecidos directores de Museus e orientadores de teses e membros de júris de concursos internacionais... que tínhamos entre nós, neste País à beira-mar (ou, mais propriamente, à beira-Tejo) plantado, uma sumidade tão grande nestas ciências! E o que espanta é que o Senhor Ministro da Cultura ainda a não tenha convidado para assessor de excelência! Conhecê-lo-á o nosso mui digno Director do IMC? Bem, da esfera governamental sabemos que é Pedro Manuel Cardoso - porque o endereço electrónico assim o indica: sejd.gov.pt <http://sejd.gov.pt/>  . Mas está a perder-se, assim, na Secretaria de Estado da Juventude e do Desporto! E, aí, não tem veículos para apresentar soluções que possibilitem um novo ciclo na gestão do património nacional. Mas sempre pode ir dizendo aos seus superiores que, quando estiverem junto do Senhor Ministro, lhe segredem ao ouvido que há quem tenha soluções para esse novo ciclo, já!
                   Acredite que teremos muito gosto em continuar a aprender consigo! Somos assim um pouco lerdos, é verdade, mas... embora se diga que «burro velho não aprende línguas», nós, muitos de nós, que já andamos aí pela casa dos 60 e que até vivemos o Maio de 68 e sabemos bem o que era o lápis azul... ainda temos vontade de aprender!

                                                                                   Seu leitor atento

                                                                                       José d'Encarnação

               -------------


                       ----- Original Message -----
                       From: Pedro Manuel Cardoso <mailto:pcardoso@sejd.gov.pt>
                       To: museum@ci.uc.pt
                       Sent: Tuesday, March 17, 2009 4:04 PM
                       Subject: [Museum] A PP Cult continua a desprestigiar a Museologia?



                       A PP Cult continua a desprestigiar a Museologia?



                       A saga da "PP Cult" (Plataforma pelo Património Cultural) continua. Sem que uma voz se levante, para atalhar esta triste falta de senso.

                       Repetidamente venho alertando para o vazio, e para a falta de consistência, das posições e documentos que a "PP Cult" vem tornando públicos.

                       Peço aos museólogos para reparem com atenção no discurso que a "PP Cult" constrói e utiliza. E para o modo como encara a museologia na sua relação com o património. Diz a "PP Cult": "Por uma política de património e de museus democrática e esclarecida".

                       Mais explícito não poderia ser.

                       Há muitos anos que a museologia deixou de poder ser confundida com museografia. O entendimento da "PP Cult" parece que parou por altura do Tratado de Neickel publicado em 1727.

                       A museologia não é aquilo que a "PP Cult" publicita publicamente: - um assunto de museus e de colecções, ficando o património de fora disso.

                       A museologia actualmente - nos locais do mundo onde o património é melhor gerido - trata do processo de transformação dos objectos (materiais e perceptivos) em património, pelas sociedades humanas. É a boa condução do processo de musealização que conduz aos museus e aos patrimónios, que são, apenas, o resultado final desse processo.

                       É esta orientação que falta em Portugal. E que muitos dos autores da "PP Cult", quando ocuparam cargos de responsabilidade pública, não deixaram que ocorresse. Defendendo uma radical e profunda divisão entre os patrimónios: bibliotecas para um lado, património arquitectónico para outro, conservação noutro lado, arquivos lá não sei onde e museus à parte. Cada um desses institutos com os seus chefes e sub-chefes, com grupos e grupinhos, todos a mandar cada qual para o seu lado. Há chefias que se mantêm há décadas neste manso status quo. Enquanto o Património de Portugal continua à espera; e os cidadãos sem o benefício que merecem.

                                A inversão de prioridades, e o errado entendimento sobre Museologia, que a "PP Cult" evidencia mostram que, por detrás do grande estardalhaço mediático, há falta de capacidade para apresentar soluções que possibilitem um novo ciclo na gestão do património nacional.

                                Sobre o Museu dos Coches apetecia perguntar:

                       - Quanto se tem esbanjado por os Coches estarem naquele pequenino sítio, quando poderiam servir de marca de prestígio de Portugal se estivessem num local orientado pela museologia, com boas condições museográficas, aberto à contemporaneidade e à fruição do público?

                       - Quanto subiria o PIB, o emprego das profissões culturais, o valor acrescentado de Portugal se se fizesse a adiada requalificação urbana de Belém, e da orla do Tejo, com a museologia a ter o contributo-âncora?

                       - Não é uma vergonha a arqueologia e a marinha estarem a fazer usura a um monumento tão importante para Cultura Portuguesa? Nas tricas dessa disputa egoísta, não estão a matar uma "parcela estruturante da identidade nacional", como a Lei diz?



                       A PP Cult teme a Museologia. A museologia não é o Instituto dos Museus e da Conservação, no mesmo plano do que os outros, entendido como uma mera especialidade equiparada. A Museologia é a orientação estratégica dos processos de musealização que devem orientar as decisões culturais sobre todo o património. Há uma reforma a fazer em Portugal na gestão do património. E essa reforma começa por pôr cobro a esta divisão, e a esta falta de coordenação dos institutos públicos responsáveis por fazerem crer que há diferentes patrimónios.

                       Mostrem as páginas de museologia que puseram nos projectos de que foram responsáveis. Assim se veria publicamente como a consideraram e entenderam.

                       Haja esta coragem. E não a falsa coragem das bravatas peticionárias.

                       A bem de Portugal.



                       Pedro Manuel Cardoso

                       17/03/2009




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